segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Um Milionário em Lisboa", de José Rodrigues dos Santos, (JRS)

(Ver comentário no Post de 23JUN’2014 sobre o primeiro tomo da vida de CG)
http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2014/06/estamos-em-presenca-de-mais-um-livro-de.html 
JRS inicia este 2º volume da 'pseudo-biografia' de Calouste Gulbenquian colocando seu filho KriKor (nome para o romance) em ação e no centro dela. Contextualiza sua entrada em cena inserindo-o e inserindo a saga do povo armênio ocorrida nos anos 1915 / 1923. Fá-lo usando o primeiro terço do livro de forma primorosa e tocante. Introduz na deportação e no genocídio toda uma série de episódios criteriosamente selecionados, que ilustram bem o sofrimento infligido a este povo / nação, massacrado pelos seus carrascos e trucidários turcos, ao tempo os ‘senhores’ do império otomano.
Faltou um detalhe (!?), a quantificação que se estima em 1.500.000 mortos, segundo os últimos estudos publicados em 2006.
O relato que JRS expõe sobre o que foi o império otomano e em particular sobre as atrocidades infligidas sobre o povo arménio, poderia e gostaria que tivesse ido mais longe. Mas não está mal, aceita-se.

Um pouco de história da Arménia (mais recente):
Nação secular remontando a 2.492 (a.C).
Foi a primeira nação a adotar o cristianismo como religião de Estado em 301 (d.C).
Entre 1915 e 1923 sofreu o que os historiadores consideram o primeiro genocídio do século XX, perpetrado pelo Império Otomano e negado até hoje pela República da Turquia. As mortes são estimadas em 1,5 milhão de arménios e a deportação de milhões de outros, fazendo com que a Arménia tenha uma diáspora gigantesca pelo mundo de descendentes que, fugindo das perseguições, tomaram o rumo de países como França, Estados Unidos,  Argentina,  Brasil,  Líbano e muitos outros.
República Democrática da Arménia estabelecida em 1918
Independência da URSS desde 03AGO1990
Área 29.743 km2
População 3,262.000
Densidade 108 Km2
Diáspora: 8.000.000
Pib Per Capita 5,000 USD/Ano (Portugal 23,000)

Em SET’2001, nas vésperas da queda das torres Gémeas, 11SET, 
(…mas a viagem estava programada), fiz uma viagem turística à Turquia.
Foi o primeiro país árabe que conheci, seguindo-se em datas posteriores Marrocos e Tunísia. Os três bastantes parecidos, aliás, no que aos usos e costumes dos seus povos diz respeito. Esta viagem foi pensada com o objetivo de começar a conhecer os países de influência árabe e, no caso concreto, conhecer também a sede do que foi o grande e longo império otomano.
Percorri quase metade do país, as zonas mais importantes e turisticamente mais emblemáticas – a grande Anatólia: Istambul, Capadócia, Ancara, Konia, Pamukkale, Ephesus, Izmir. Gostei francamente do que observei. Não esqueço a vista fabulosa sobre o mar de Marmara; a bonita e elegante ponte que liga a parte europeia à asiática; a pequena ilha no meio do mar de Marmara onde estava feito prisioneiro o líder curdo; a mesquita Santa Sofia com os seus famosos e dominantes minaretes. Capadócia, Pamukkale e Ephesus, são locais inesquecíveis pela sua singularidade. Da capital, Ancara, não gostei especialmente. Apreciei o lado agrícola que, apesar não estar ainda industrializado, oferecia produtos maravilhosos de entre os quais sublinho, salivando, as gostosas azeitonas e os enormes e saborosos figos secos.
O ambiente, o país, é dominado ainda pela ideia da revolução de 1923 de Mustafa Atatürk. O seu grandioso e até desmesurado Mausoléu é bem o exemplo da promoção que continua a ser feita ao espírito que a animou. Convenhamos que foi uma revolução total! O país deu uma volta em todos os setores de 180º. Até o alfabeto passou a ser europeu!
Mas essa viagem, ela própria, mereceria um comentário mais alargado e talvez um dia o venha a desenvolver aqui mesmo neste blog.
Lembrei-me dela, viagem, a propósito deste livro e do ex-império otomano, tão lembrado e até dissecado por JRS. Apesar de Atatürk ter acabado com o Califado e ter destronado o Sultanato e toda a entourage que o suportava, permanecem bem visíveis muitos vestígios dessa altura, alguns significativos, nomeadamente a parte monumental e palaciana. Muitos desses vestígios estão recolhidos em museus, que visitei, e pude extrapolar a partir deles o que teria sido a vida dos Califas e dos Sultões.

A forma atribulada e atabalhoada que JRS recriou no romance para tirar o ator principal da fila dos deportados arménios a caminho da Síria - KriKor, o filho de CG - 'salvando-o' de uma morte mais que certa, tendo sido ‘colorida’ ou aventureira não foi contudo bem conseguida: pouco imaginativa. Roçou o folhetinesco. Precipitou uma sequência de frágeis acontecimentos, a meu ver, só para não o perder, por dele precisar para o resto da narrativa. Obviamente que não fazia sentido deixá-lo morrer logo ali, quando havia tanta história ainda para contar e quando o filho de Gulbenkuien, Nubar, o autêntico, não morreu de fato nessa altura. Todavia foi um ‘unhappy’ deste trecho da narrativa.

Pelo que percecionei da mini-investigação que fiz, verifiquei que já muita gente tentou fazer a biografia de Calouste Gulbenquian e há, de resto, várias publicadas. Porém, há a impressão generalizada de todas elas serem parciais ou incompletas.
Existe atualmente um grupo de estudiosos ingleses (?) a trabalhar o tema e, pensa-se, que o concluirão em 2019…
Elaborar uma biografia credível deste homem é como refazer a ‘volta ao mundo’ de Júlio Verne. O seu lado de ator ‘solitário’ bloqueia muitas pistas e é bom lembrar que a sua influência no mundo do petróleo foi pioneira, monopolizadora e influenciadora na condução do mundo energético, principalmente, mas não só, quer em tempo de guerra quer em tempo de paz. Atuando sozinho em muitas geografias não deixou rastos suficientemente visíveis e passíveis de serem recolhidos. É mais fácil (?) fazer uma biografia de Winston Churchill do que a de C.G. Apesar de tudo a vida de Churchill é mais transparente e buscável. Por onde passou, deixou marcas menos ocultas.

Foi C.G. o arquiteto do negócio do petróleo e a história do século XX ficaria pobre e incompleta com a sua exclusão.
Foi o homem mais rico do século XX e isso, por si só, diz bem do que poderá ter sido a sua vida.

Vou continuar a ler o livro.

Calouste Gulbenquian, o Homem.
Acabada a leitura há que dizer que foi com grande prazer que percorri todas as linhas do romance. Pena é que não se possa reter como verdadeiro o que é ficção, ou seja, seria bem simpático se a biografia de CG pudesse ser assim relatada.
Não há dúvida quanto à sua inigualável - única - capacidade para negociar. Conhecedor das envolventes do seu negócio, portador de uma tenacidade rara e nervos de aço, à prova de bala, aguentava a pressão até ao limite, conseguindo sair ganhador em muitas das diversas contendas empresariais em que esteve envolvido. Ele mesmo dizia que a antecipação do conhecimento era essencial a um bom resultado. Fossem quem fossem os seus litigantes batia-se não como igual mas como superior. Considerava-se o melhor. Para ter sido considerado o homem mais rico do século XX, qualidades superiormente anormais teria de ter e dominar. Sabemos que herdou uma enorme fortuna quer do seu lado familiar quer do da esposa, mas o colossal mealheiro foi sendo meticulosamente rendilhado e recheado por ele ao longo da sua vida. Era muito seletivo nos seus demais interesses pela vida incluindo a atenção à sua família direta; no final da vida praticamente deserdou o próprio filho e filha!
Muitos adjetivos podem ser aplicados a CG, mas o de negociador astuto e implacável assentam-lhe bem.

Há porém um lado da vida dele, sobejamente conhecida e bem tratada no livro, que merece que se repense com serenidade, não aderindo facilmente a certas correntes de opinião que pululam por aí. Refiro-me à sua particular e inultrapassável aversão ao pagamento de impostos. Sou dos que pensam que não pode, não deve haver exceção para ninguém quanto ao dever do pagamento de imposto. E se o digo não é por teimosia ou cegueira mas por achar que na organização de uma sociedade dos nossos dias que se pretende moderna, ou seja, com capacidade para aceitar no seu seio pessoas diferentes e ter serviços sociais tendencialmente gratuitos para todos (saúde, educação, justiça, forças policiais, segurança social…), isso só será possível e justo se todos contribuírem na justa medida dos seus rendimentos. Dito isto, vem agora a segunda parte da questão. Se a CG não tivesse sido concedido um regime de exceção em matéria de impostos, ter-se-ia ido embora com toda a sua imensa riqueza atrás dele, ficando Portugal a olhar para a cauda dourada do cometa que se iria embora para sempre. O país teria perdido muito mais. Pergunta, em qual das duas versões Portugal ficou a ganhar mais? Números exatos para responder a esta questão, não tenho. O que sei é que a permanência dela, da riqueza, em Portugal deixou e continua a deixar por cá imenso dinheiro. Lucramos ou perdemos? Lembro aqui a imperiosa necessidade de, por vezes, deixar que a 'realpolítik' seja aplicada.
Curiosamente e desde sempre, nunca ouvi vozes discordantes em relação a este particular regime de exceção atribuído a CG, incluindo os partidos mais à esquerda. O que vi foi o aproveitamento destes regimes de exceção para a disseminação ad hoc de fundações, com objetivos muitos discutíveis. Mas isso é outra história.
Mais uma nota a propósito do seu relacionamento com a esposa e secretaria, de que direi tão somente: curioso.
Nota final, fica uma pergunta e responda quem quiser: porque não houve até hoje ninguém que pusesse em filme a vida de Calouste Gulbenquian?

quarta-feira, 30 de julho de 2014

... ver-nos-emos por aí! (30JUL'2014 - 17:30H)

Bato-vos à porta, desta vez, para vos dizer que vou reformado.

Ficaria com a minha consciência inquieta e a lealdade de uma relação de anos beliscada se vos fechasse esta porta em silêncio.
E para vos dizer que de todos levo, podem crer, a lembrança de uma boa e sã relação e, de alguns, uma duradoira e vívida amizade que o tempo sedimentou.

Não distingo aqueles que conheci pessoalmente ou apenas através das novas tecnologias; incluo, obviamente, aqueles que estão em geografias mais longínquas e com quem não se chegou a proporcionar o contato pessoal.

Abraço-vos a todos com o mesmo calor, incluindo os que me precederam e os que aqui esqueci.

Seria um gosto continuar a vê-los doravante aqui:
antonioMmagalhaes@Gmail.com

* Despedida Geral dos colegas de profissão.

____
P.S.
(um dia depois)

... desculpem, só mais 2 segundos,

É que as (inesperadas) mensagens recebidas foram tantas, tão sentidas, calorosas e simpáticas, que não resisti a um BEM HAJAM.

Cada uma das v/ palavras foi guardada no meu cofre forte onde, ciosamente, guardo as coisas importantes da vida.

ABRAÇO, duplo,

ABEL ALBINO  |  ABEL ROCHA  |  ABILIO RIBEIRO  |  ADILSON PAULO  |  ADRIANO COSTA  |  ADRIANO PASCOAL  |  AGOSTINHO RIBEIRO  |  ALBERTINA ALMEIDA SANTOS  |  ALBERTO CASTRO  |  ALFREDO ANDRADE  |  ALICE VICENTE  |  ALVARO FERNANDES  |  ALVARO NEVES  |  ANA COSTA  |  ANA MARGARIDA OLIVEIRA  |  ANA MARQUES  |  ANA MOREIRA  |  ANABELA CARNEIRO  |  ANABELA MIRANDA  |  ANSELMO PINTO  |  ANTONIETA MAGALHAES  |  ANTONIO CARVALHO  |  ANTONIO JORGE RAMOS  |  ANTONIO JULIO PEREIRA  |  ANTONIO PEDRAS  |  ANTONIO PEREIRA  |  ANTONIO VERISSIMO  |  ARMINDO TOMAS  |  ARSENIO INGUANE  |  ARTUR MESQUITA  |  ARTUR RODRIGUES |  AURA ROCHARTE  |  BACK OFFICE ANGOLA  |  BELINA MIGUEL  |  CARLA BRITO  |  CARLA MARQUES  |  CARLOS DIOGO  |  CARLOS FERNANDES  |  CARLOS FRANCISCO  |  CARLOS PIRES  |  CARLOS SAMPAIO  |  CLAUDIA REGINA PRADO  |  CONCEICAO MOURAO  | CRISTINA MIRANDA  |  DALIA ALVES  |  DANILSON DE SANTANA  |  DELFINA FRANCISCO  |  DORA MATEUS  |  EDUARDA BAPTISTA  |  ELISA COSTA  |  ELISA COSTA  |  ELISABETE RODRIGUES  |  ERIKA FAUSTINO |  ERNESTO BELO  |  ESTER SANTOS  |  FERNANDA OLIVEIRA  |  FERNANDO ROCHA  |  FILIPE LIMA  |  FLORBELA JESUS  |  FRANCISCO LOBO  |  GONCALO ALVES  |  HECTOR MATANA  |  HELDER CUSTODIO  |  HELENA SOARES CARNEIRO  |  ISABEL DIREITO  |  IVONE SOUSA  |  JAIME ANTUNES  |  JOANA ZANATTI  |  JOAO BARREIRO  |  JOAO LEITE  |  JOAO RODRIGUES  |  JOAQUIM CACHEIRA  |  JOAQUIM CASALEIRO  |  JOAQUIM KITTLER  |  JOAQUIM MENEZES  |  JOAQUIM RESENDE  |  JOSE AFONSO  |  JOSE AZEVEDO  |  JOSE DUTRA  |  JOSE GUEDES  |  JOSE MARUJO  |  JOSE NAVES  |  JOSE PINHEL  |  JOSE REBELO  |  JOSE SOUSA  |  JOSE VIANA  |  JOSE VICENTE  |  JOY FRANCISCO  |  LEMBA FILIPE BENTO  |  LINA BATISTA  |  LIZETE COSTA  |  LUIS BAPTISTA  |  LUIS CORREIA  |  LUIS FERNANDES  |  MANUEL ALEIXO  |  MANUEL DIOGENES BARROS  |  MANUEL LINDO  |  MANUELA COUTO  |  MANUELA MADEIRA  |  MARCIANO CARDOSO  |  MARCO PAULINO  |  MARIA COSTA  |  MARIA FERNANDA LEITAO  |  MARIA ISABEL GRACA  |  MARIA LUCINDA FORTE  |  MARIO CARDOSO  |  MARIO FONSECA  |  MARIO JANEIRO  |  MARIO POUSINHA  |  MARTIM BISPO  |  MAVILDE GOMES  |  MEIRELES CARDOSO  |  MONICA PENA  |   NELSON ERNESTO  |   NUNO ESTEVES  |   NUNO OLIVEIRA |   OSMAR SANTOS  |   OSVALDO CABRAL  |  PATRICIA AUGUSTO  |  PAULA CRISTINA DUARTE  |  PAULA SILVA  |  PAULA SOTTO MAYOR  |  PAULA VIRA  |  PAULINE SIMBA  |  PAULINO MOREIRA  |  PAULO ALMEIDA  |  PAULO BASTOS  |  PAULO BRITO  |  PAULO CASTRO  |  PAULO CORREIA  |  PAULO FAUSTINO  |  PAULO FREITAS  |  PAULO MAMEDE  |  PAULO SOBRAL  |  PAULO XAVIER  |  PEDRO MURCA  |  RICARDO AMARAL  |  RICARDO MONTEIRO  |  ROSA REBELO  |   ROSA SOARES  |   ROSSANA BATISTA  |   RUI BALCA  |   RUI CARVALHO  |  RUI MOURA  |   RUI ROSARIO  |   SALOME BENCHIMOL  |  SANDRA GOMES  |  SARA OLIVEIRA  |  SILVIO SILVA  |  SONIA BARROS  |  SONIA SEGUNDO  |  SUCURSAL DE MACAU  |  TATIANA SEQUEIRA  |  TERESA GONCALVES  |  VANESSA PESTANA  |  VITOR ALMEIDA  |  VITOR PINHO  |  YARA FURTADO  |  YOLANDA CARVALHO  |  ZOLA TOCO  | 

Até já! (30JUL'2014 - 17:30H)

Como alguns saberão, diariamente tenho o hábito, desde há anos, de fazer caminhadas com a m/ mulher, principalmente depois do jantar, agora ali no calçadão de Matosinhos. Aproveitamos essa hora para ouvir o sussurro das ondas do mar a fazer a cama nas areias da praia para o descanso noturno, para ouvir o silêncio, pensando apenas com os nossos botões, ou para falar soltamente sobre tudo o que a cada um ocorra nesse dia: assunto do dia, do mês, do ano, dos anos, da vida…

Eram meus netos mais pequenos e perguntávamo-nos então que apports os avós lhes poderiam dar? Qual o nosso papel no s/ crescimento? Respondi eu (não sei ainda se bem):

. A avó Branca, dá- lhes o lado prático da vida, o custo das coisas, o valor do dinheiro, levando-os às compras, ao supermercado, ao talho, à peixaria;
. O Avô Tó Maria, como desafiantemente me chamam, dá- lhes o encantamento dos contos de fadas: castelos, reis e rainhas, príncipes e princesas, para a Rita; cavernas recheadas de tesouros, florestas inexpugnáveis para desbravar, Cristiano Ronaldo para o entusiasmo desportivo, para o Simão;
. A avó Margarida, estimula-lhes a mente, nomeadamente com jogos criteriosamente selecionados;
. Dos três, naturalmente, imenso amor.

A vocês todos, só os não levo no coração porque os vossos de tão grandes lá não cabem, mas selecionei para levar comigo os bons apports que ao longo dos anos graciosamente trouxeram ao meu dia à dia e que conservarei, garanto.
Defeitos, todos nós os temos e deles por mim não falará a história. Interessa-me sobretudo o lado positivo das pessoas.

Rocha
Se tivesse de lhe oferecer o cartão de um club (do FCP não porque já o tem há muito), oferecer-lhe-ia, com ironia, o cartão do ‘Club da Febra’.
Quantas vezes as nossas papilosas Pavlovianas não foram ativadas com as suas divagações de gulosas e cobiçadas iguarias!?
Quando quiser saber onde comer bem, é com ele que falarei.

Anselmo
Espero que, asap, alcance as suas metas profissionais, políticas e/ou desportivas.
Dele levo a vontade e a persistência com que enfrentou o curso, quiçá ainda a tempo de um outro recomeço.

Resende
Truculento, assertivo, convicto (mais vale uma opinião convicta - quiçá errada -, que uma opinião certeira mas insegura). Fino no humor e contagiante na boa disposição. Levo seu gosto de viver e conviver, a facilidade com que frequentemente brinca com todos.

Antonieta
Reservada e todavia mais solta nos últimos tempos, parece até ter recuperado mais alegria de viver, mais compreensiva e melhor companheira no dia-a-dia.

Dália
Da Dália levo o seu lado reservado mas também frontal, tipo silêncio ruidoso.

Paula
A nossa menina …
Porque a mais novinha, um desejo: estabilidade, mais e mais rápido sucesso profissional.

Teresa | Conceição
The last but not the least, refiro-me agora a estas duas Senhoras: a Teresa e a Conceição. Perdoem-me a pública demonstração da maior proximidade mas a verdade é que ao longo dos últimos anos e fruto de imponderadas circunstâncias, compartilhamos as nossas vidas um pouco mais. Com elas também aprendi ou reaprendi muito; com elas os seus filhos e meus netos estão a crescer, muitas vezes ancorados em princípios triados nas muitas conversas que noutro tempo tivemos a caminho do nosso restaurante ‘preferido’, o do Sams, ou o de agora Império. Conhecemos as famílias de cada com mais pormenor.
Vivemos mais alegrias e tristezas também.

Delas e de todos vocês fica desde já uma grande saudade e a vontade de continuar a partilhar – de futuro mais virtualmente – similar vivência. Até porque a vida continua.

A todos gostaria de dar o céu e as estrelas, o sol e a lua; por todos distribuir os fabulosos tesouros da caverna de Ali Baba.
Na impossibilidade fica a ambição.

Gosto e vou continuar a gostar de todos apenas o expresso de forma diferente.

Evitando alongar-me mais para vos poupar, direi então que levarei de todos vocês, de cada um, o que cada um tem de bom e muito é, podem crer. Levo a lembrança de uma boa relação e uma duradoira e vívida amizade.

Abraço-vos,
António Magalhães

* Despedida dos Colegas de trabalho da Área

Reforma, (30JUL'2014 - 17:30H)

Ao longo dos anos a ideia de Reforma era por mim tida como algo longínquo e de contornos pouco definidos, indesejada e até rejeitada. Observá-la a acontecer com os outros era tema tenuemente tangível circulando apenas num subconsciente mais distante.
Não era uma meta a atingir mas a tropeçar.

A dinâmica empresarial onde me insiro encarregou-se de, com tempo, ir preparando as circunstâncias para o inevitável e, na parte final encaminhar o processo para um desfecho mais acelerado. Houve, porém, tempo, o que foi ótimo, para almofadar o status de ativo para reformado.

Percecionando o que incontornavelmente aí viria, a natureza cuidou de ir mudando aos poucos as agulhas, redirecionando-as e moldando-as para novos rumos. Começou crescentemente a ser assunto e sub-repticiamente foi ocupando o dia-a-dia, usurpando espaços cada vez maiores. Neste momento uma grande parte de mim já incorporou a nova ideia. A outra, a restante, a seu tempo se verá.

Conheço pessoas reformadas em que, umas se deram bem, outras, nem por isso e outras ainda bastante ou muito mal. Sei que essa nova etapa, nomeadamente na sua fase pós-inicial é exigente e pode vir a ser perturbadora. Se se deve ou não salvaguardar esse tempo com medidas profiláticas?, tenho algumas dúvidas! Pensar que o tempo de ocupação mental profissional e rotinas associadas deva ser substituída por uma outra qualquer ocupação, parece-me indiscutível. Deixar que o vazio se instale e tome lugar dominante é perigoso. O que fazer antecipadamente, não sei, porque o que quer que seja não tenho por certo que possa vir a ser aplicável ou eficaz. Necessariamente tem de haver novos projetos que ocupem a mente; isso é certo e disso estou avisado.

Parto pois com o espírito aberto e com uma única certeza: a de que a mente tem de continuar ocupada tão intensamente quanto possível a fim de evitar hiatos que, esses sim, poderiam vir a tornar-se de gestão complicada.

Nova etapa? Estou certo que sim.
As envolvências profissionais e pessoais e rotinas de anos vão ser bruscamente interrompidas. Os incentivos pessoais recriados, então necessários, para uma melhor resistência à demanda e aprumo profissionais caem naturalmente. Um conjunto de âncoras que os sustentaram deixam de fazer sentido, pelo menos em parte.
Mas soçobra o engenho com que foram inventados, engenho esse que se mantém bem vivo e de onde brotarão novas soluções que suportem o novo status. Estou certo que daí virão boas ideias, renovadas, que assegurarão um bom futuro.

O pelotão onde até agora estive integrado com gosto e orgulho e que agora abandono vai continuar a sua rota e, sair dele, é deixar essa frente onde me senti bem, principalmente porque aí as exigências funcionais aconselhavam-me a acompanhar um sem número de questões – profissionais e não só – e que me mantinham na linha da frente de tudo (?). Deixar essa linha da frente é talvez a parte que mais pesará no novo estatuto.
Mas entrarei noutro, diferente, onde espero outros desafios também estimulantes.
Estou confiante.

Post Scriptum
Desde os primeiros passos em direcção aos bancos da escola fomos gradualmente entrando em carga e assumindo compromissos com a vida para não mais desligar: estudo/trabalho, trabalho/estudo, serviço militar, casamento, família, filhos, trabalho, trabalho, trabalho, ...
Com a reforma chega finalmente (?) o momento da descompressão.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Quando Nietzsche Chorou", de Irvin D. Yalom

Foi este livro, 'Quando Nietzsche Chorou', o meu livro de 'mesinha de cabeceira', melhor dizendo, de leitura no ‘Metro’ durante a primeira quinzena do mês de Julho nas minhas habituais e rotineiras deslocações para o emprego. A sua leitura foi sendo retardada na justa medida em que aumentava o prazer na sua degustação. O tema era profundo e inabitual e aproveitei a oportunidade para o (re) visitar calmamente. Apanhei-o da estante da minha filha/genro, não foi pois compra deliberada minha, e veio-me cair nas mãos assim um pouco de paraquedas. Não sabia de todo o que me esperava. Vi na capa que era best-seller em 20 países, li os diversos comentários (todos elogiosos mas pouco específicos) espalhados nas capas e fiquei entusiasmado não só com o grande acolhimento que tivera em muitas latitudes como pelo agrado que provocara em tanta gente.
Comecei a lê-lo como se de um simples romance se tratasse, presumivelmente igual a muitos outros. À medida que caminhava, a cuidada fraseologia aplicada, as ideias grandiosas vertidas, a profundidade do pensamento atingida, os nomes sobejamente conhecidos envolvidos, foram-me pondo em estado de alerta e inflacionaram o meu interesse.
No primeiro terço da viagem estava rendido.
Parei e fui investigar os nomes mencionados para eventualmente redimensionar a abordagem, o que aconteceu.

Não sendo a Filosofia, por princípio, um tema que me interesse especialmente, é todavia um assunto que desde os tempos de estudante, logo aí, me despertou atenção e desde aí também a comecei a acompanhar, embora esparsamente, por ter então percecionado ser uma parte intrínseca e importante no equilíbrio da vida de qualquer ser humano. Penso até que a nenhum é indiferente independentemente do seu nível académico ou cultural. Variará no grau, mas ninguém terá grau zero.
Este livro serviu para avivar esse lado muitas vezes em 'freeze', como os informáticos de agora gostam de dizer, e foi efetivamente bem inebriante sentir o despertar e até fervilhar mental que a sua leitura provocou. Tenho, sempre tive, admiração por 'cérebros', pela sua dimensão intelectual extra normal, capaz de levar os outros a novos patamares do conhecimento, a zonas onde os 'normais' sozinhos não chegam, mas que apreciam conhecer. A componente cognitiva é insaciável. As sociedades precisam destas mentes iluminadas, das autênticas, como de pão para a boca, capazes de clarificar, postumamente por vezes (para utilizar um termo do livro), futuros inatingíveis por gente mais comum.

Brilhante!
Irvin D. Yalom (EUA), o escritor deste livro, um artífice da palavra e do pensamento, ele próprio um eminente intelectual, conduz-nos através de uma dramaturgia singular e num jogo de espelhos e contra espelhos no mundo dos filósofos e dos psicanalistas. Percorre com as teorias ‘póstumas’ (visionárias) de Friedrich Nietzsche, filósofo, e Joseph Breuer, fisiologista e psicanalista, os labirintos da mente, viajando pelos seus nano capilares até então de desconhecida existência. Habilmente recria um romance pondo a falar, lado a lado, dois importantes pensadores - alemão e austríaco, da segunda metade do século XIX e primeira do XX - Friedrich Nietzsche e Joseph Breuer (que em vida não se conheceram pessoalmente), confrontando e dirimindo entre eles as teses que defendiam das respetivas áreas.

Não é normal haver um livro com tantas expressões lapidares, daquelas que nos obrigam a parar para conferir e refletir. Exemplo, chave de viver: ‘primeiro, desejar aquilo que é necessário e, depois, amar aquilo que desejado’. E com imagens de estilo inovadoras. Simples exemplo: ‘mandíbulas devoradoras do tempo’ (apreciação de quem, já mais na velhice, olha para trás e sente que o tempo passou rápido).
… e tantas outras!

Respiguei esta meia-dúzias de frases atribuídas a Friedrich Nietzsche:
"O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são."
"Há homens que já nascem póstumos."
"A diferença fundamental entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas assegura. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada."
"Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida mas no "além" - no nada -, tira-se da vida o seu centro de gravidade."
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."
"Sem música, a vida seria um erro."
"A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo."
"O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno."
"Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos."
"Quanto mais me elevo, menor eu pareço aos olhos de quem não sabe voar."
"Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras."
"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."
"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
"Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar"
"Acautela-te quando lutares com monstros, para que não te tornes um."
"Da escola de guerra da vida: o que não me mata, torna-me mais forte." 
Irvin D. Yalom

Friedrich Nietzsche
Joseph Breuer

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"O Homem de Constantinopla", de José Rodrigues dos Santos (JRS)

Estamos em presença de mais um livro de JRS, dos mais fáceis de ler que lhe conheço, na linha, aliás, da maioria dos seus livros. Escrita e ação expostas de forma corrida, escorreita e amigável. Não exige do leitor qualquer esforço mental para acompanhar a história, história que não é mais do que uma pseudo-biografia de Calouste Gulbenkian. Admito que o enredo que a suporta possa ter um pano de fundo verdadeiro, porém ficcionado e romanceado. De toda a maneira, trata-se de uma leitura agradável, um passatempo leve, pouco exigente, como referi.

Enquanto JRS mantiver este tipo de abordagens ligeiras nas suas histórias, não será nunca um candidato ao Nobel; longe disso. Também não é caso para dizer que seja um escritor ‘menor’; isso não. Sabemos que está traduzido e é lido em muitas geografias mas tenho para mim que o é devido a esta ‘simplicidade’ com que escreve e, principalmente, por o fazer servindo-se de temas que são do conhecimento de grandes públicos. Ao fazê-lo e de forma acessível, capta evidentemente muitos leitores.

Incorpora nas narrativas bastantes saberes que são do conhecimento geral, o que acaba por ser interessante e até importante; contextualizados, relembram aos leitores como funcionam as coisas por detrás do palco.

Não obstante tratar-se de uma ficção (não investiguei até que ponto são verdadeiros os factos alegados), destaco as formas ‘ilícitas’ - mas pelo vistos ‘normais’ - como enriqueceram algumas personagens desta história, refira-se, à custa do erário público dos diferentes estados. Destaco ainda a corrupção usada para o atingiram: subornos ministeriais ao mais alto nível.
Conclusão: hoje como ontem o sistema mantém-se.  

(não resisti a um smile quando o ‘magnata’ vendedor de submarinos historiava o seu sucesso vangloriando-se das suas vendas de, um primeiro - velho e avariado -, à Grécia, de, dois segundos, ao Império Otomano e de, meia dúzia, aos Czares russos. E babando de orgulho terminava: ‘com as minhas comissões, fiquei rico, muito rico’)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A vida em movimento...

No post http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2013/03/retalho-de-vida-familiar-vida-campesina.html falava em certo ponto dos meus parceiros de brincadeira: o Gervásio, o Quim, o Manel, a Teresa …

Ontem, precisamente – 27MAI -, fui ao funeral de um dos irmãos, do mais velho(?) do grupo, o Zé. Minha irmã tinha apanhado a notícia no JN e combinamos ir lá, a Valbom, fazer uma surpresa, não ao falecido (…humor negro) mas aos outros 10.

Foi um encontro com 55 anos de intervalo, inesperado para eles, mas gostosamente comovente e rejuvenescedor para todos. Para alguns justificou-se uma reapresentação tal era a evolução física, agora de cabeças algodoadas quase todos, para outros foi uma mera continuação, apenas com aquele pequeno intervalo de 55 anos…

Passados, porém, os primeiros momentos já nos sentíamos todos novamente vestidos de calças curtas e fraldas de fora a brincar com as memórias dos nossos 6/8 anos. E muitas foram. Cada um de nós chegou rapidamente ao baú das fotografias e fez-se logo ali uma bonita longa-metragem, fazendo inveja ao Manuel de Oliveira.

Não, não estamos a pensar vender os direitos, por isso ninguém tente aliciar-nos com as avultadas verbas que tais histórias renderiam em bilheteira.

Foi um encontro curto mas duradoiro que continuará a ameninar a saudade futura.

"CEM ANOS DE SOLIDÃO", de Gabriel Garcia Marquez (GGM)

1.
a)
Principalmente depois da morte do seu autor, Gabriel Garcia Marques (GGM) (14ABRI’2014) o meu interesse e até entusiasmo para ler este livro disparou definitivamente e tornou-se inadiável.
Era sim uma leitura adiada mas perfeitamente pendente. Sentia uma necessidade imperiosa de o ler.
Sei que no ranquing mundial da preferência dos leitores pelos seus livros, este - ‘100 Anos de Solidão’ -, seguido do ‘Amor em tempo de cólera’
(http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2013/06/o-amor-nos-tempos-de-colera-de-gabriel_15.html), está destacadamente em primeiro lugar. Também sei que foi este não só o seu ‘Grande Livro’ como também aquele que lhe abriu a porta do Nobel, e, no meu entender, ainda bem, com inteira justiça. GGM a par de outros escritores da américa latina aportam à literatura mundial o lado humano com uma dimensão claramente superior à de outros oriundos de países mais ricos ou ocidentalizados. Os escritores desta parte do planeta são motivados pelas realidades sociais, económicas e estatutárias dos seus países perpassando pelos seus escritos um certo grito de revolta e de alerta pelo que por lá se passou, passa e, sabemos, continuará a passar-se. Sabendo disso, que num futuro longo continuarão a ser países ex-colonizados ou colonizados mesmo, vão fazendo avisos aos líderes mundiais que conduzem os nossos destinos, tentando redirecionar e recentrar as suas políticas para as pessoas.
b)
Um outro exemplo destas envolvências e alertas humanizadoras está a ser-nos dado pelo atual Papa Francisco, ele também nascido nessa banda do globo (Argentina). Com a sua eleição e sua prática doutrinal e ecuménica, está a ser mais valorizado o lado humano das sociedades. Os líderes políticos mundiais estão mais tensos e sentem-se mais manietados na suas ações estando a retardar a implementação das tradicionais e sempre tentadas políticas extrativas por temerem estar a governar contra a onda por aqueles protagonizada. Algo, portanto, aquelas pessoas estão a conseguir: tornar o homem o centro de tudo, o mais importante. Chega? Obviamente que não, mas, step by step, o caminheiro segue sua viagem. O caminho faz-se caminhando, alguém dizia.   
c)
Alguma gente abafa, revoltada, o impulso espontâneo de manifestação contra o fato de GGM ter aderido e ter promovido políticas de esquerda e ter tido amigos dessa área, o mais visível dos quais Fidel Castro. Como poderia ser de outra maneira, pergunto? Como poderia GGM obliterar da sua vida, as vidas da sua família, do seu povo, das suas gentes e dele próprio?
Já estive na terra de Fidel e pude apreciar in loco as possibilidades que aquele regime tem de singrar nos nossos dias e digo que é impossível (já o disse noutro apontamento aqui mesmo neste blog (http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2010/02/cuba-fui-la-ver.html). Disse e digo também que as suas gentes, gerações, (desde 1959) estão a passar por maus momentos por causa disso. Porém, e no caso cubano, estamos perante um exemplo (cada vez mais raro) de exagero. Se descontarmos o excessivo temos de dizer que as políticas de esquerda valorizam mais as pessoas. Têm-nas no centro das suas preocupações. E isso é importante que se continue a defender. Outra coisa é a teimosia, o hermetismo com que alguns países as implantam e sustentam, ‘orgulhosamente sós’, e para esses vai o meu desacordo.  

2.
Aqui deixo a minha homenagem póstuma a um Homem que compreendeu e trouxe mais para o centro do palco da política mundial o presente e muito futuro das sociedades e muitas idiossincrasias do homem, oferecendo-no-las com um ‘realismo mágico’ que entusiasmou e modelou gerações.
Um abraço latino para GGM.

3.
E agora o livro.
A leitura deste livro inspira, abre os horizontes e aporta à literatura em geral uma nova abordagem e roupagem. A expressão ‘Realismo Mágico’ atribuído à obra de GGM e principalmente a este s/ livro ‘100 Anos de Solidão’, é uma expressão feliz que aceito sem reservas, por fazer uma boa síntese da sua obra.
Não esquecendo suas origens latino-americanas e destacando a sociedade de praticamente toda a américa do sul, acrescenta-lhe uma dimensão nova que a torna mais apetecível de ler e conhecer, e nos coloca mais próximos desses povos. Não pinta os seus quadros literários apenas com as cores escuras com que alguns outros o fazem mas, mantendo-os, acrescenta-lhes um colorido mágico ou irreal – pró-psicadélico – a que todos somos sensíveis. Ler este seu livro, apesar do que antes disse, é, não obstante, exigente. Quero dizer com isto que para podermos entrar em pleno no seu mundo ‘real/mágico’ obrigamo-nos a algum isolamento para uma melhor concentração, evitando a distração. A concentração é indispensável para que o leitor não descarrile ou se perca nos caminhos, novos a cada passo, que GGM delineou e por onde nos conduz.
Ao ler que para o escrever se isolou e demorou 18 meses a concluí-lo, admito que não lhe terá sido fácil manter-se alheado das novidades do mundo e ao mesmo tempo incluí-lo em cada página; ou então já tinha do mundo uma ideia tão minuciosa, abrangente e conclusiva que se limitou a dar forma de letra ao muito que seu cérebro tinha trabalhado e s/ memória arquivado. Da primeira à última linha a sua concentração é total; até parece que o escreveu num só dia de tão coerentes serem a narrativa e as imagens ou figuras de estilo com que brilhantemente emoldura, recheia e complementa cada ideia. 
As cenas de promiscuidade e incesto inseridas fazem lembrar o filme de boa memória ‘Feios, Porcos e Maus’ de Ettore Scola. A ambiência é muito similar.
Obra sem data, intemporal em que muitas características do ser humano são não só lembradas como destacadas.
É um livro bem recebido universalmente pois contém (como diz no verso da capa) uma boa parte dos ingredientes que animam e impulsionam a vida do homem, do Pólo norte ao sul, de leste a oeste: ‘milagres, fantasias, obsessões, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condenações e ainda o mito e a história, a tragédia e o amor’.

De todas as vezes que ouvia de alguém referências a este livro ‘100 Anos de Solidão’, notava que poucos o faziam com o entusiasmo que (pelo menos que eu) esperava. As suas expressões lidas nas suas reações faciais, eram (são) indefinidas. Ficava a (in) expressão como que em suspenso, contida ou inconclusiva e não entendia (antes de ler este livro) exatamente porquê.
O sucesso mundial deste livro foi tal que neutralizou ou mesmo anulou a espontaneidade de opinião. Esmagou-a. Até na edição deste livro isso é verificável (Publicações Dom Quixote). Normalmente as capas e contracapas são profusamente recheadas de opiniões de leitores; aqui não, nenhuma.
E, das duas uma, ou porque não têm coragem de opinar face à grandeza esmagadora da obra e do seu autor ou, e inclino-me mais para a que vou referir a seguir, porque não consigam encontrar a forma adequada. E isto tem a ver, a meu ver, mais com a inclusão do lado ‘mágico’ do que com a evolução da narrativa do lado do ‘realismo’. É que, nem sempre é fácil absorver por inteiro esse lado mágico, de tão inesperado e intenso que é. É corajoso dizê-lo mas por vezes há ‘magia’ a mais, quiçá relacionada com o enorme pendor para o místico que as gentes da América Latina assumem no seu dia-a-dia. Faz parte intrínseca das suas vidas.
Pode haver ainda uma outra que a explique pelo lado do intimismo que envolve a obra. Admito que não se queira simplesmente partilhar a intimidade vivida, reservando-a em exclusivo para o próprio.
Mas, quem sou eu para ousar beliscar esta obra? Tenho até alguns pruridos em comentar GGM e em particular este livro.
Entendo ser um livro que espelha e dá extensão à complexidade do comportamento do ser humano em muitas das variáveis que o animam.
Entendo assim o porquê da atribuição do Nobel a GGM através deste seu livro: a complexidade do ser humano em livro.

GGM é um brilhante contador de histórias interessantes, com um domínio singular das idiossincrasias do homem.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

'O CODEX 632', de José Rodrigues dos Santos (JRS)

1.
Os meus parcos e dispersos conhecimentos sobre a história de Portugal, incluindo este período dos descobrimentos e mais concretamente sobre a verdadeira identidade de Cristóvão Colombo - tema do presente livro -, não me autorizam a comentar a versão aqui apresentada; porém, sempre direi, que o orgulho português fica bem mais polido com ela. A tentativa de JRS amarrar CC à cidadania portuguesa, é no mínimo estimulante, carecendo todavia de confirmação. Penso que JRS não pretende com esta sua ficção apresentar uma demonstração cabal da sua identidade mas tão-somente recriar um simples romance usando como tema uma dúvida secular e enigmática que alimentou e continua a alimentar gerações, nomeadamente académicas. O uso de técnicas mais recentes, incluindo as do ADN, reavivou a polémica e deu-lhe mais espaço e oportunidade para eventuais e novas conclusões. Não fiquei particularmente motivado em saber exatamente qual a sua verdadeira nacionalidade, confesso; o importante mesmo foram as novidades e as possibilidades que a suas descobertas trouxeram ao mundo que foram, como sabemos, gigantescas.

No decorrer da leitura do livro e no confronto com as diversas pretensões ou até reivindicações da nacionalidade de CC (portuguesas, espanholas, italianas e judaicas) veio-me à mente a recente viagem que eu e minha mulher, mais um casal amigo, fizemos a Madrid (MAR’2014). Como ficamos alojados na Calle Goya e andamos muito a pé, passamos várias vezes na Praça Colon; praça que a cidade (penso que povo espanhol) honrosamente lhe dedica. Mesmo no seu centro, com alguma pretensão e imponência, é ali bem destacada e exibida a sua estátua. Ao lado e também num espaço bem amplo, o ‘Jardines del Descubrimiento’. Ou seja, Espanha liga assim de forma enfática CC aos descobrimentos espanhóis, como que pretendendo, no mínimo, nacionalizá-lo ou identificar nele as boas caraterísticas do povo espanhol; se se quiser, ter nele mais uma bandeira de identificação e união do povo espanhol. Recorda-se que seus restos mortais estão em Sevilha (?).
Quando há uns anos passei por Génova, Itália, este tema passou despercebido nem o guia sequer o referiu; porventura devia tê-lo lembrado a bem de toda a verdade sobre o caso.

Acabado o livro, fica clara a ficção de JRS, ou seja, inventando um pretexto – uma presumível rasura num documento importante – cria a partir daí esta trama envolvendo CC e o eterno tema da sua verdadeira identidade. Honra lhe seja feita: está bem imaginado, conseguido, todavia extenso em demasia.
O livro não só não resolve o enigma mas, sobretudo, alimenta-o e potencia-o. Terá sido essa a intenção de JRS? Creio que não; tenho para mim que usou o tema enquanto inspiração literária e fonte comercial.

2.
Fica aqui confirmado, mais uma vez, de que a forma de escrita reflete o ADN de cada escritor. JRS é, ele também, fiel a este princípio: os temas variam mas a forma, o clima e a densidade narrativa são idênticos para não dizer iguais; gravitando à volta dos assuntos, expõe-nos da mesma maneira.
Este, como os outros, apetece-me dizer, está ‘limpinho’: sem gafes, bem ligado e com uma lógica narrativa que não suscita discussão. Para quem acompanha JRS como escritor chegará à conclusão que a inovação está apenas nos temas. Quanto ao resto é de fato muito igual.
Leitura fácil, agradável mas sem empolgar. Diverte, ocupa os tempos livres mas sem grande valor acrescentado. Pura diversão.

terça-feira, 18 de março de 2014

1989: Europa adentro...

Há uns anos atrás, em 1989 exatamente - já lá vão 25 anos - fiz, com a minha mulher, uma ‘grande viagem’ pela europa: 17 dias.
Proponho-me agora, desafiando-me, repeti-la virtualmente, percorrendo os labirintos da memória, testando-a e tentando descobrir o que lá ficou. (1)

Fomos daqui, numa excursão, até à antiga Checoslováquia, passando por Espanha, França, Suíça, Liechtenstein, Áustria, Checoslováquia, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e novamente França e Espanha. 
Percorremos mais de 7.000 Km, km a km, step by step.
Pagamos nessa altura 70 contos (350€) / pessoa.

“Quem tem pouco dinheiro não tem grandes vícios” e como o desejo de conhecer a Europa se tornava inadiável, fomos mesmo de excursão e numa opção que a futura Pinto Lopes Viagens (http://www.pintolopesviagens.com/plv/) proporcionava: campismo. Não fiquei dessa vez a conhecer o circuito turístico hoteleiro mas em contrapartida fiquei a conhecer este outro; com inconvenientes, certamente, mas sob um ponto de vista também agradável e igualmente bastante completo e proveitoso.

O então guia da viagem era o Sr. Pinto Lopes, ele mesmo, o pioneiro da empresa que começou, numa aposta quase inédita, este sistema de viagem em campismo. Em boa hora o fez, pois proporcionou, com esta solução mais acessível, a oportunidade a muitos que no sistema normal não o conseguiriam. Fiquei muito agradado com a postura e dinamismo que imprimia e com a confiança e segurança que espalhava pelos turistas; bem como com a logística de que dispunha para resolver as exigências do dia-a-dia, quer ao nível alimentar quer de pernoita.
Confecionava todas as refeições, e servia-as completas, incluindo bebidas (com vinho e café) e disponibilizava tendas e colchões para a noite.
Muito conhecedor do terreno que pisava incluindo a aproximação cuidada, então necessária, nos complicados e obscuros países de leste. Conhecia a palmo todo o caminho. Na sua qualidade de guia, falava muito sobre tudo, principalmente sobre a história dos diferentes países que íamos descobrindo. “Se um de vocês me for a ouvir, já vale a pena eu ir a falar”, dizia, quando o ronronar e monotonia da camioneta nos cansava e embalava para um sono irresistível e retemperador. Lembro também com agrado a alegre companhia do inconfundível cozinheiro, o ‘nosso Frade’ (2), assim o chamávamos. Uma figura. Um cromo raro. Sempre bem-disposto, comunicativo, divertido, um contador de histórias insubstituível, inultrapassável e inimitável, além de uma assinalável veia fadista.
Tinha um dito de entrada, que usava como bordão, muito peculiar e sempre prazenteiramente repetido e com uma musicalidade irreproduzível: “sabem quantos me vieram ajudar? Nem um!?”, brincava sorridente.


(1) Diz quem sabe que se deve exercitar a memória para afugentar o Alzeimer: estou a fazer a minha parte; espero que a natureza faça a dela e não me atraiçoe.
(2) Era um homem bom de fácil e agradável convivência. Antigo frade na África colonial portuguesa de onde ‘retornou’ nos idos e turbulentos anos de 1974/75.
Habituado à liberdade africana (3) não conseguiu lidar com o ascetismo e clausura dos conventos tradicionais portugueses. Pendurou o hábito e foi cozinhar para a Pinto Lopes Viagens, aproveitando ainda para fazer seus negócios de arte. Soube recentemente numa viagem à GB e em conversa com o Rui Pinto Lopes (filho), que estava bem, apenas debilitado fisicamente. Desejo-lhe daqui boa saúde.
(3Alguns amigos meus se questionam e me questionam como é possível falar em mais liberdade em África!? Concordo que para quem não conhece África, esta ideia parece afrontosa e descabida; mas não: em África vive-se mais e melhor. Quem duvidar que ponha pés ao caminho e vá até lá tirar a prova real.
Embora amarrado e muito condicionado pelo rígido regime militar ao serviço da guerra colonial (72/74) e mais tarde (2000/01) pela guerra civil angolana (Jonas Savimbi seria morto em 2002), tal não impediu que saboreasse o prazer da liberdade africana. A liberdade não se esgota na de opinião, circulação de pessoas e bens ou económico-financeira; essas eram (e são) aí limitadas como sabemos. Refiro-me à possibilidade do usufruto das muitas potencialidades que aquelas terras, ares e clima tropicais propiciam; ao contacto com a natureza selvagem, muitas vezes virgem.
Há ainda uma outra razão e talvez a mais facilmente entendível, que tem a ver com a dimensão territorial dos países africanos em geral e em especial com aquele que melhor conheço: Angola. A diversidade geográfica, paisagística, climatérica, da fauna e da flora, muda com surpreendente e inebriante facilidade e ao percorremos aquela imensidão (14 vezes maior que Portugal), saboreamos de tudo um pouco o que o nosso planeta do seu estado mais original e puro tem para oferecer. E, mais, e aqui entra a maior das razões: sentimo-nos longe, muito longe de tudo e de todos, entregues a nós próprios, ao (s) nosso (s) mundo (s) e à natureza numa relação a dois: nós e a natureza selvagem. E, perceção importante, fora do raio de controlo de qualquer tipo de poder. O Bilhete de Identidade é dispensável. Interioriza-se a sensação da não ligação a ninguém. A união àquela natureza comparável à que se fala do paraíso bíblico, é tão intensa que chega a ser alucinogénia. Absorve-nos por completo os sentidos.
Acresce que, quer da primeira (oficial do exército) quer da segunda vez (bancário), era beneficiado com algum desafogo financeiro, o que não era despiciente.


Os participantes na excursão foram paulatinamente criando um saudável espírito de grupo alicerçando o princípio da boa disposição colhido nos diversos convívios em comum, espírito esse que veio a favorecer e muito um melhor usufruto da viagem, agilizando e facilitando a resolução das novas questões que sempre se colocam nestas circunstâncias.
O enfoque e entusiasmo na descoberta dos novos mundos que a todos ia tocando e moldando, também ajudou a esbater a importância relativa das pequenas questões. Por outras palavras, todos tínhamos os ‘complicómetros’ desligados e isso foi importante.
Este espírito e ambiente consolidaram-se, prolongando-se até ao final da viagem.



À medida que íamos entrando Europa adentro - recordo o ano:1989 -, a nossa boca então ainda semicerrada pelos longos anos de clausura política salazarista, por questões culturais ou simplesmente de ordem pessoal, começou a abrir-se aos poucos, aumentando mais e mais à medida que novas descobertas iam sendo assimiladas.



Espanha
A começar pela nossa vizinha e mais conhecida Espanha. Foi um bom começo.
Espanha ainda no rescaldo também da era franquista sofria de alguns males endógenos e muitos deles similares aos nossos.
A democracia dava aí também os primeiros temerosos passos.
(A Constituição do país foi então salva - FEV’81- por Juan Carlos quando se opôs nas cortes às intenções golpistas, com ‘direito a tiros’).
Filipe González (1982/96) - depois de Adolfo Suárez (1976/81) ter ensaiado os novos ares da liberdade -, tentava a consolidação democrática e o progresso económico e social do país.
Espanha contudo, pela sua dimensão, importância e cultura - deixando de parte o portuguesíssimo olhar soslaio bem traduzido na expressão ‘de Espanha nem bom vento nem bom casamento’ - exercia grande fascínio nos portugueses. Gostávamos (e gostamos) de ir a Espanha. Soubemos in loco da história do rico país basco e da luta das suas gentes (?) pela autonomia total. A sua luta armada remetia-nos para os avisados cuidados a observar quando circulávamos por entre eles.
Bastante de passagem - assim determinava o programa da viagem – ainda deu para ver a Catedral de Burgos, passar pelo Santiago Bernabéu e pelo Vicente Calderón.


França
Deixados os ‘olés’ espanhóis e ultrapassados os frios e míticos Pirenéus, chegamos à influente e não menos mítica França: França da Tour Eiffel, do Moulin Rouge, do Arque de Triumphe, dos Champs Elisées, do Quartier Latin, Sorbonne, do Sena, do Bateau Mouche, do Sacre Coeur, de Monparnasse e dos seus, ainda, boémios artistas, do Bosque de Bolonha...
França da Revolução Francesa (1789) e da Liberté, Fraternité, Egalité.
França que nas décadas anteriores tão bem tinha acolhido os necessitados emigrantes portugueses.
Andar pelas bem cuidadas autoestradas francesas, observar todos aqueles ícones que o turismo nos passou ao longo dos tempos, serviu para validar toda a imensa informação que a história despejou nas gentes de todo o mundo e de mim também, claro.
França de François Mitterand de que era o seu presidente e foi até 1995 (1981/1995). ‘François Mitran’, na fonia caraterística de Mário Soares. Presidente que haveria de ser importante nas negociações para a adesão de Portugal à U.E. Presidente carismático e detentor de muito poder, também a nível internacional. A sua opinião era então tida em consideração.
O objetivo do programa não era ainda Paris, o que aconteceria apenas no regresso. Passamos ao largo, em direção à Suíça. Até lá foi conhecer França vista de fugida. Observamos sobretudo a performance da produtiva agricultura francesa, elevada a níveis latifundiários inimagináveis então para Portugal (pelo menos para mim). Enormes e pujantes produções agrícolas a perder de vista, de todo o tipo de produtos. O horizonte eram campinas e mais campinas! (mais tarde, com a negociação da entrada de Portugal na Europa, o peso dessa agricultura haveria de ser determinante não só para a sua manutenção mas principalmente para a anulação da portuguesa. O peso da França impôs-se nas negociações e ficamos a perder totalmente).
A limpeza, o asseio, as cuidadas bermas das autoestradas, constituíam um aviso para o que deveríamos perseguir mais tarde em Portugal quando começamos também a construir as nossas.

‘Massacre da Praça Tiananmen, China’
Durante a viagem acompanhamos (tivemos tempo para isso) toda a evolução do que viria a ser o ‘Massacre da Praça Tiananmen - 04Junho - (Praça da Paz Celestial).
Vivíamos então por essa altura, nós portugueses, ainda, o rescaldo do fervor revolucionário do 25ABR’74. Todos os turistas em geral viveram bem de perto o que então se tinha passado em Portugal e alimentavam o desejo de um desfecho ocidentalizado para os estudantes de Tiananmen. Pura ilusão: foram mortos pelo governo chinês, conforme as versões, entre 400 e 7.000 estudantes e ficaram feridos entre 7.000 e 10.000. Todo o mundo democrático ficou deveras consternado e revoltado com a violência aplicada.


Suíça
A caminho da posterizada, endinheirada, fria e bela Suíça e também do país que tantos portugueses acolheu e acolhe ainda.
A curiosidade sobre este país era grande. Conhecê-lo inside; apreciar os efeitos de todo o dinheiro que ali é mundialmente depositado – o mealheiro do mundo - ; o comportamento político dos seus governantes e das suas gentes; o seu comércio e indústria, eram os focos da minha atenção.
Encontrei efetivamente uma Suíça calma, politicamente neutra – como se sabia -.
De Genebra a Zurique todos os recantos, todo o país é um wallpaper. Nada lhe falta: uma paisagem soberba de um verde luxuriante; garridas flores atapetam cada canto. As casas na sua grande maioria cuidadas, adornadas e ajardinadas, bem floridas em cada parede, em cada janela. Numa simples frase se pode dizer que todo o país é um jardim natural; as suas gentes levam esse jardim para as suas casas.

Entramos por Genebra e saímos por Zürich, percorrendo o país de ponta a ponta.
Genebra, a cidade, todos as cidades aliás, harmonizam com o resto do país. Desta - limpa, organizada e cosmopolita - fica o postal do lago Léman e do seu “Jet’Aux” (130m Altura) e do seu relógio florido;
Berna com o seu emblemático fosso do urso e dos caraterísticos tróleis;
Lucerna e a sua estação de comboios e a famosa e turística ponte da Capela com a sua Torre d’Água (anos mais tarde viria a arder e também viria a ser reconstruída).
Apreciamos a Zurique banqueira e seus primorosos prédios, o saboroso chocolate, o metro de superfície e os obrigatórios relógios suiços.


Liechtenstein
Passamos ainda pelo pequeno Liechtenstein, por Vadus, com o seu castelo altaneiro e dominante. Tomado o café na rua principal e depois do momento Kodak, entramos enfim na sonhada Áustria.
Não conhecia a existência deste pequeno país.


Áustria
Começamos pelo Tirol - procurando sua música e chapéu tirolês e onde mais tarde (1991) viria a ser descoberto o esqueleto milenar (5.300 anos) de Ötzi, o ‘homem do gelo’ - a entrada no país sede do ex-império Austro-húngaro; no país da boa música clássica: de Mozart, de Haydn, de Schubert, dos Strauss; das valsas (… quem nunca dançou o Danúbio Azul! Dancei-a lá, num dos seus bonitos salões numa incursão noturna); do ‘Música no Coração’ (…quem não viu o filme? Eu viu-o muitas vezes...); do país da bela imperatriz Sissi (…tão bem recriada no cinema pela também belíssima e malograda Romy Schneider!)...
Passando pelas pistas de gelo de Innsbruck, que avistamos ao longe, pelos Alpes, chegamos à famosa, romântica e mundialmente conhecida cidade natal de Mozart: Salzburg.
Aqui acrescento que sou um apreciador de Mozart – para mim, o expoente maior de toda a música clássica. Tinha já escutado e apreciado muitas das suas obras e nutria (e nutro) por ele enorme admiração. Encantam-me as composições para clarinete. Foi pois com este sentimento que entrei na sua casa, nos seus aposentos e beber um pouco do espírito musical de Mozart, também junto do seu cravo.

Passando por Linz, encaminhamo-nos para Viena d’Áustria.
A Áustria, toda a Áustria, é um país belo e fascinante, mas Viena d’Áustria, a capital, é uma cidade encantadora. Tendo sido a sede do ex-império Austro-húngaro, para lá foi levado pelo imperador Francisco José a grande e melhor fatia do império. Na altura da visita a cidade tinha 200 edifícios não só classificados como exemplarmente conservados. Catedrais e igrejas feitas com o melhor e mais requintado mármore de Carrara e desenhadas pelos mais famosos arquitetos da altura. Foi aí que pude apreciar o peso e a riqueza do império dos Habsburgo. O Palácio de Schönbrunn (1643) (Palácio de Versalhes de Viena) com a sua cor amarelo-ocre, retrata bem a opulência daquele tempo.
Fiquei pesaroso, até hoje, por não ter entrado na Ópera de Viena; mas deslumbrei-me a passear pelas alamedas floridas e bordejadas pelas expressivas estátuas de Mozart, de Schubert, de Strauss, ouvindo ao vivo as orquestras que aí tocavam graciosamente para o grande público.
Almocei debaixo das arcadas do estádio do Prater onde o FCPorto ganhara (1987) a primeira taça de Campeão Europeu com o inesquecível golo de calcanhar de Madjer. Andei na roda gigante do parque de diversões do Prater (1897/64 m) com vista panorâmica da cidade.

É arriscado fazer esta apreciação, mas ouso dizer que há dois países neste planeta que encantam pela sua beleza e história e que ficam para sempre na retina: Suíça e Áustria.


Checoslováquia
Sair da Europa ocidental e entrar na Europa de Leste fazia parte do desejo secreto ou menos secreto de toda a gente e minha também. Ver a funcionar o mundo comunista para depois o poder comparar com o capitalista, era ambição geral adiada. Falar disso agora, num outro tempo, em que a história fez o seu curso, parece risível. Eram, confirmo, tempos bem complicados; era o mundo comunista com uma dimensão existencial agora inimaginável.
Ao aproximarmo-nos da fronteira da então Checoslováquia começamos por notar a diferença que mais adiante se veio a revelar enorme. Desde logo e nos controlos de fronteira a segurança era blindada. Os nossos temores eram visíveis. Os guardas, muitos guardas, entraram intimidantemente pela camioneta adentro e vistoriaram tudo. Nós, os turistas, atentos, acompanhávamos silenciosos a sua evolução. Nada de significativo, felizmente, aconteceu. O Sr. Pinto Lopes com a sua avisada experiência e proverbial boa disposição, resolveu a questão dos guardas com umas garrafas de Vinho do Porto. Aliás, o excessivo aparato era o cenário previamente montado para amedrontar e extorquir os turistas. Paga essa taxa extra diretamente aos interessados, o problema deixou de o ser.
Já dentro do país, agora República Checa, e contrariamente à postura ostensiva dos militares e forças militarizadas nomeadamente dos da fronteira, observamos que éramos observados minuciosa, tolhida e tristemente por cidadãos com aparência de má nutrição, magros mesmo, e bastante descuidados, inclusive esfarrapados. Os locais de frequência pública - cafés, wc's - eram pobres e sem oferta de produtos e serviços com o mínimo de qualidade, embora pagos.
Seguimos nesta atmosfera de míngua e com os sentidos bem despertos até Brno. Embora esta cidade tenha pertencido ao Império Austro-húngaro até ao fim da primeira guerra mundial, o certo é que na era comunista, por falta de dinheiro, não foi feita a necessária manutenção dos edifícios da era imperial; pelo que o estado de degradação era perigosamente sentido. Muitos deles estavam estacados à espera de melhores dias para a sua reabilitação. Fomos numa pequena incursão pedestre até ao despovoado e desinteressante centro histórico da cidade, sem outro interesse especial a não ser para a recolha de elementos comparativos.
Debaixo deste clima pouco respirável e por estradas tipo as nossas locais, seguimos para Praga, a capital. Embora se mantendo aqui parte do que observamos até Brno, havia porém uma outra parte bem diferente e bem mais agradável e turística.
A começar pela sua histórica Praça da Cidade Velha onde ‘aconteceu história’, nacional mas com impacto internacional - Primavera de Praga, 1968, com Alexander Dubcek e a sua tentativa de abertura democrática (“A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera). No seu centro a referência religiosa e fundacional do País através da estátua de Jan Hus.
A Torre do Relógio, a Ponte Carlos, o Castelo de Praga, a Catedral de S. Vito, foram os locais de passagem selecionados e obrigatórios. A visita ao Cemitério Judeu, foi um momento especial e tocante, remetendo-nos a sua vista imediatamente para o Holocausto. Os Cristais da Boémia eram outro foco de interesse que perseguíamos. Não podíamos deixar a República Checa sem uma visita a uma fábrica da famosa cerveja Pilsen; foi o que fizemos deliciando-nos com a novidade. Não queria deixar a República Checa sem destacar as igrejas e catedrais do tempo do império: dignas de nota embora algumas ainda degradadas. (admito que já tenham sido convenientemente recuperadas, até para a exploração turística).


Alemanha
Da Alemanha não ficou grande recordação. Retenho a famosa, densa e bonita ‘Floresta Negra’, a cidade de Nüremberg e de resto foi fazer quilómetros até ao próximo destino. Aproveitamos essa grande travessia de quase toda a Alemanha - oriente / ocidente - para as fotos de ocasião e entretenimento coletivo no interior da camioneta, com fados do nosso Frade, anedotas e campeonato de sueca (por acaso ganhei-o com um parceiro de ocasião do Fundão e como troféu tive direito a uma garrafa de Vinho do Porto da coleção particular do Sr. Pinto Lopes).
Mais tarde (AGO/2013) regressei aqui para uma visita de 10 dias, e aí sim, fiquei com uma ideia bastante mais plena do que é a Alemanha.
(http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2013/09/o-melhor-da-alemanha-com-plv.html)


Belgica / Luixemburgo
E chegamos à Bélgica a que se seguiu Luxemburgo.
Foram passagens por estes países e cidades não tendo registado algo especialmente recordável, exceção para os icons internacionais incluindo o Centro Atomium. Nem na altura estes dois países, nomeadamente a Bélgica, tinham a visibilidade dos nossos dias.


França
Reentramos em França por Reims. Aqui sim, já ficou a sua catedral, o famoso champanhe de Reims (que não provei) e o imenso e emblemático cemitério de Reims, recordando suas incontáveis cruzes brancas (12.000) e a sua enorme dimensão de tapete verde a tragédia do que foram os mortos da 1ª guerra mundial. Esta visão provocou um impacto memorável.

Paris!
Se há cidades e locais que todos desejam visitar um dia, Paris será das primeiras senão mesmo a primeira. Paris é, também o confirmo, A Cidade.
Não é fácil, em pouco tempo, ficar-se com um overview à altura.

E aqui entro com um argumento que me levou no futuro à fidelização na PLV. É que esta empresa tem uma filosofia comercial que me agrada especialmente. Refiro-me especificamente à facilidade e franqueza que disponibilizam aos clientes para que realizem os seus sonhos, observando o máximo de coisas no tempo ao dispor. O Sr. Pinto Lopes, ele próprio, passeou-nos de dia, a primeira vez, e de noite, a segunda, por todos os cantos de Paris, sem faturar mais por isso; (em 2004(?), no regresso de uma viagem aos Países Nórdicos, o Fredy surpreendeu, brindando-nos com um city-tour surpresa de 3/4 horas pela cidade de Frankfurt.

Não faltou naturalmente a Torre Eifel, o Cartier Latin, a Sorbonne, o Sacre Coeur, o Trocadero, o Arc Triumphe, os Champs Elisés, o Moulin Rouge, Monparnasse,  os Bateau Mouche …
Ou seja, apesar de pouco tempo – dois dias – foi contudo o bastante para querer regressar. Elegerei a subida à Torre como o momento especial da viagem. Ver Paris a partir daí numa abrangência de 360º é um momento único.
Mais tarde regressei a Paris – 8 dias - para refrescar a memória e conhecê-la ainda melhor (inclui Poitiers, os Castelos do Loire, a Disneylândia e o Futuroscope).


Sei bem que este método de turistar condiciona o conhecimento dos países. Sei que por esta via entramos no túnel turístico previamente selecionado e se fica a conhecer pouco mais que aqueles high lights. É certo. Mas esses, os mais significativos, ficam minimamente vistos. Selecionar uma opção, um circuito, é eliminar outros, sabemos. E para quem muitos dos lugares visitados são lugares a não mais regressar – por impossibilidades financeiras, por preferências ou outras – esta solução ajuda a resolver a questão.

Chegado aqui e voltando ao início deste apontamento, fica-me a dúvida: terei sido atraiçoado pela memória? E se sim, em que sentido e em que medida, por excesso ou defeito? Admito que por ambas: aqui e ali por defeito e mais além por excesso. De qualquer maneira não procurava o rigor mas tão só a sua aproximação, e isso tentei. Levo este texto à conta da diversão ou ocupação dos tempos livres. Perdoo a mim mesmo alguma leveza na sua abordagem.
Foi contudo um bom exercício de memória.