domingo, 20 de novembro de 2022

Viagem aos EAU, com a PLV (29/10_a_05/11/2022)


Viagem aos EAU, com a PLV (29/10_a_05/11/2022)
→ Dubai, Abu Dhabi, Ajman, Sharjah, Fujairah, Umm Al-Qaiwain e Ras Al-Khaimah) ←

A grandiosidade, a opulência que os 7 (sete) Emirados Árabes Unidos (EAU) atingiram nos dias de hoje - de que se orgulham, exibem e ostentam -, com destaque para o estado de Abu Dhabi, o da capital com o mesmo nome, e para o de Dubai -, começaram a acelerar nos anos ‘60 e ‘90, respetivamente, alicerçadas na descoberta na sua área geográfica de abundantes jazidas do ‘ouro negro’, incluindo a do gás.

A máquina industrial do mundo precisava urgentemente de energia para se levantar do chão depois da 2ª guerra, e ali havia-a. A pressão de consumo do precioso líquido foi tal que desencadeou a primeira grande crise petrolífera nos anos ‘70 entre vendedores e compradores, atingindo o valor de mercado inflacionado nos 400%. Os EUA, querendo continuar a protagonizar a liderança mundial, apressaram-se a fazer um acordo com os produtores da área em que o petróleo seria transacionado nos mercados internacionais em dólares (USD), a sua moeda, e em contrapartida oferecia-lhes a segurança de que precisavam para poderem operar. Com esta decisão, obrigaram o mundo a comprar dólares para comprar petróleo, diminuindo, subsequentemente, o valor das próprias moedas. O valor do dólar disparou, a economia americana consolidou-se e os produtores escalaram a riqueza. Estranhamente, ou não, houve, e há, países produtores de petróleo que não quiseram beneficiar deste 'bónus' e distribuir a abundância que a oportunidade dava, e dá, pelas suas gentes.
A China de Mao estava empobrecida e a URSS de Khrushchov e depois de Brejnev, periclitante e sem energias competitivas.
Os EUA cintaram o golfo pérsico então, e desde então, com armas de todo o tipo, principalmente nucleares, quer com meios próprios quer por interpostos acordos com os países satélites. Uma das poucas exceções do não acordo - depois de eliminado o Xá da Pérsia, Rezā Pahlevi -, foi o Irão (e o ex-Iraque) que vai resistindo entre a ameaça e o bluff. Com uma certeza: os EUA jamais permitirão que a veia principal de energia que faz funcionar o coração do mundo e o seu seja entupida. Seja por quem for. Os EUA como superpotência precisa que o mundo continue a drenar para os seus cofres parte da riqueza que produz para alimentar o, até agora, motor económico mundial: os EUA. Até se encontrar uma alternativa ao ‘ouro negro’ assim será. Se os EUA sucumbirem, outro - China, Índia, Rússia - lhe sucederá. Por agora, o seu grande e único opositor é a OPEP, grupo que não domina totalmente. O Grupo é composto por países muito heterogéneos, desde a Arábia Saudita à Venezuela passando, inevitavelmente, pela Rússia, degladiando cada um deles pelo seu maior quinhão. Sem contemplações por ninguém o grupo OPEP gere no dia-a-dia o preço do petróleo e do gás nos preços máximos, mas atento a que a economia mundial não entre em recessão descontrolada e prejudique a sua faturação. Tem assegurado sempre coesão interna, Rússia incluída, e assim vão continuar.

Rockefeller e Gulbenkian, mentes astuciosas, foram no seu tempo os homens mais ricos do mundo sugando e acumulando fortunas no emaranhado mundo deste negócio. Agora são outros a fazê-lo.

E chegamos aos Emirados.
Os ingleses no seu tempo colonial naquela zona tinham-na dividido a ‘régua e esquadro’ e cada um dos 7 (sete) Emíres tomou conta do seu pedaço. Abu Dhabi, o Emirado maior - ⅔ do total - e mais rico em energias fósseis, ensaiou e mais tarde consolidou uma união com os outros 6 (seis) estados, formando os EAU. Cada um deles com o seu Sheik, cada um deles com a sua autonomia, mas sabendo quem é o maestro: o de Abu Dhabi. Abu Dhabi tem sua ‘mina de ouro’ garantida por mais 200 anos e os outros, porque ‘minas’ esgotadas ou em vias disso, ensaiam alternativas económicas, no turismo concretamente, mas não só. Ao que se sabe, em questões de dinheiro, os EAU não têm uma conduta ética como aqui no ocidente gostamos de apregoar. Money, Money, Money é o lema. Receberam de braços abertos, sem pudor ou hesitações para com o ocidente, 5.000 oligarcas russos que lá parquearam suas fortunas.
    
Aquela grande região do golfo Pérsico, ou Arábico como os Emiradenses preferem dizer, sempre andou nas bocas do mundo. Desde os tempos mesopotâmicos, passando pelos de Laurence d’Arábia e agora da Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait, Catar, Emirados… sempre assim foi. Dos anos ‘60 para cá porque reenergizados pelo ouro negro.

O que pensar dos atuais Emirados?
Reduzir a opinião a aplausos ou críticas é seguramente precipitado e redutor do muito que por ali se pode observar. E manieta dimensões importantes e interessantes. Opto, outrossim, por os ver nas suas múltiplas facetas. Algumas aqui ficam, muito longe do todo. Desde logo cada um de nós os vê de acordo com a sua sensibilidade, seus conhecimentos, sua abordagem cultural, em suma, de acordo com as idiossincrasias que nos cabem.

• Visto do lado deles
Fruto da dinâmica do mundo, os Emirados foram bafejados com a existência dentro de portas de uma commodity muito cotada nos mercados internacionais. O mundo precisa dessa matéria-prima para funcionar e vai lá comprá-la. Em resultado, oleoduta e gasoduta diariamente para lá biliões e biliões. O que fazer com tanto dinheiro? Não têm direito a usufruir dessa riqueza? Quem não desejaria ser rico assim? E os Sheiks, precisando do apoio dos seus súbditos, de proteger e aumentar suas fortunas, de se porem a salvo da inveja e cobiça das numerosas famílias, vão distribuindo ‘algum’ por todos, acrescido de cargos políticos pelos seus muitos irmãos. Sim, aquietar 50 irmãos, filhos de prolífera poligamia, não é tarefa fácil. Não é raro haver quezílias, lutas intestinas, familiares e fratricidas pelo poder, pelos diversos níveis do poder. Para com a plebe, a dádiva de uma casa, manutenção incluída, carro e 20.000 USD no casamento, tem sido suficiente até agora. Mas sempre atentos às reações populares e familiares. O culto de descendências numerosas mantém-se em alta: 90% dos residentes são estrangeiros. Estimular a descendência é prioridade. Porém, um regime de monarquia absolutista, tem as diversas grelhas de proteção criadas - segurança, economia, externa… -, bem oleadas, de forma a manter todos sossegados. Até agora com sucesso.

• Visto de outros lados.
Um mundo estranho este! Um mundo de exageros. Um mundo invejado. O que dirá a África profunda? Será que sabe da existência deste outro mundo? E se souber?
O deslumbramento e a revolta caminham a par, mas em rota de colisão. Estas desigualdades tão abissais magoam. E ferem mais por se saber que sempre assim foi, assim é, e assim continuará. Coexistem em nós sentimentos contraditórios a cada passo. Será que nós portugueses seríamos mais generosos? Noutro tempo, no tempo em que fomos império, repartimos os excessos com alguém? E agora, abdicaremos da oportunidade do lítio?

 ‘Frame’ (2018), Dubai.
Lentamente, por entre Ghafs (árvore nacional) que por ali sombreavam os quentes e húmidos 34°, fomos especando à aproximação da ‘Frame’. O que é isto? O que estou a ver!? Que arquitetura é esta? Atento a todos os novos detalhes e ladeando o conjunto a fervilhar de entusiasmo - era o início da aventura Emirada -, fomos elevados aos seus 150m. Já lá, encadeados ainda pelo brilho dourado que a Frame lá fora devolvera, pasmamos e embasbacamos com a primeira grande frame assim conseguida do Dubai, aquela que circula pelo mundo. Contorcendo-nos em 360° fixamos entorpecidos todo aquele cativante panorama. Uma visão inédita, real e absorvente. Soberba. Extasiante. Foto, foto e mais fotos, tudo engavetamos na caixinha mágica. Arriscamos olhar o chão térreo bem lá em baixo pela transparência do chão lá de cima e, mais que isso, num gesto timorato, pé-ante-pé - houve quem não -, tateamo-lo num misto de ousadia e euforia para afugentar medos. Uff! O coração arritmou mas logo sossegou contagiado pela alegria reinante. A descida célere descomprimiu alguma tensão, esconjurou receios, completada já em solo seguro num banco corrido do jardim sobranceiro ao lago de águas límpidas azul-turquesa que atapetam a Frame. Sucumbimos a tanta grandeza, a tanta beleza, mas, logo, logo arribamos para a próxima.

Sheikh Zayed Grand Mosque, Fujairah, 2014
Sheikh Zayed Grand Mosque, Abu Dhabi, 2007
Ferrari World Abu Dhabi, 2010
Souq Al Jubail, 2015, Sharjah Corniche
Louvre, 2017, Abu Dhabi
Burj Al Arab, 1999, Dubai
Palm Jumeirah, 2008, Dubai
Burj Khalifa, 2010, Dubai
Museum of the Future, 2015
Sharjah Museum Islamic Civilization, 2008

De tanto que se pode destacar, do muito que há para admirar em cada um dos 7 (sete) Emirados, seleciono, exausto, a lista acima.

• As Mesquitas paralisam-nos de tão bonitas e grandiosas (pormenores: tapete persa manual com 40 Ton da lã. A Mesquita de Abu Dhabi acomoda inside 50.000 fiéis).
• As Burjs honram a celebridade que lhes é atribuída.
• A Palm Jumeirah, bem lá do alto, oferece-nos uma visão inteira deste novo mundo.
• O teto do Louvre cobre-nos com a sua gigantesca abóbada suspensa.
• O Museu do Futuro concretiza sonhos e arquiteturas irrealizáveis.
• O Ferrari Shopping e o Souk, dos maiores do mundo, também em arquitetura, cor, marcas, ordenamento, limpeza… Um luxo.
•  O interior do Museu das Civilizações encanta.

Arquitetura
Surpresa. Estava à espera, confesso, de uma arquitetura mais arrojada, plus nouvelle, mais original, mais médio-oriente, mais árabe. Mas não, à parte a eminentemente árabe - que a há - encontrei uma opção futurista, sim, mas de matriz europeia ou ocidental. E com uma linha evolutiva notória. O desenho e os materiais dos atuais arranha-céus, distam anos-luz dos anos '60/70. E dos recentes gostei francamente. Não tanto pelas alturas anormais, mas mais pela estética e pela nobreza dos materiais usados, numa competição desenfreada pelo look final mais surpreendente.

Desert Safari Sunset Watching
Destino 'com emoção' (expressão popular do mesmo métier, em buggy, nas dunas do nordeste brasileiro que aqui recuperamos).
Depois de 45" em estrada corrida, eis-nos chegados ao deserto. À areia sem fim à vista. Às dunas a tomar conta dos horizontes. À vegetação escassa e a suplicar por água. À aridez pura e dura sem vestígios de vida.
O condutor não leu as nossas apreensões, hesitações e dúvidas bem audíveis em cada palavra dita ou por dizer. Depois de retirar, como recomendado, alguma pressão dos pneus para garantir melhor aderência, surdamente concentrado na sua função, mas sem hesitar um segundo, carregou a fundo no acelerador. E aí vamos nós à aventura.
Veloz, mais do que imaginávamos, mas o necessário para assegurar (será!?) a estabilidade e tração do Jeep, voou para o desconhecido. Duna acima, duna abaixo, guinada à direita e à esquerda, descida íngreme, sabíamos lá até onde?... parecia querer provocar-nos. E o Jeep mais parecia um brinquedo de um jogo de consola nas suas mãos. E nós, novatos em desertos, marionetes descontroladas, tipo boneco teimoso, bamboleando-nos uns contra os outros e contra as paredes e tejadilho do carro. Veio-me por instantes à memória o boneco que outrora se colocava na traseira do assento dos carros a abanar a cabeça e o corpo hirto pregado à alcatifa como se não fosse nada com ele. Diferentes do boneco, cada um de nós se agarrava ao que tinha à mão tentando garantir estabilidade e controlo de riscos, como se isso estivesse ao nosso alcance. Mas o carro não queria saber das nossas angústias e galgava frenético por dunas e vales. Quando é que isto acaba? - ouvia-se em surdina. Respira, respira fundo, acalma o ‘gregório’ - ouvia-se do silêncio. Será que isto vai correr bem? Ainda faltará muito? O sol lá longe, embora bonito, ameaçava despedir-se da última duna e de nós, até que… o carro atascou. Oooh! Bonito! E agora? - perguntava o silêncio. O silêncio estava muito falador naquela tarde, vá-se lá saber porquê. Calma, o condutor resolve, - desejamos todos. O acelerador fez roncar o motor, seguido de guinadas no volante. Nada, o bicho não se mexia. Nova tentativa: marcha atrás, para a frente, para o lado e… nada. Será, será que vamos pernoitar no deserto? Olha que… O que nos passa pela cabeça!? Menos pressão nos pneus, - decidiu quem sabe. O condutor do carro que nos fez atascar, também atascado - bem feito! - veio opinar, melhor dito, veio bitaitar, mas logo virou costas. Restava por companhia ou solidariedade, como sabê-lo?, um terceiro carro parado à distância pouco animadora de 50m, que não sabíamos se atascado também. Bonito! Coragem, coragem, isto vai. Há-de ir. Era bom que fosse. Mais uma manobra, mais uma aceleradela e… aí vamos nós felizes e contentes. Uff, Uff, desta escapamos. Decorrida uma hora, agora que estávamos ases em safaris, avistamos o grupo no ponto de chegada. O ritmo cardíaco foi desacelerando, devagarinho, como o motor do Jeep, ajudado por um pôr de sol bonito, mas já expirando uns enfraquecidos últimos raios. Raios brilhantes, apesar de últimos, e compridos que chegavam até nós. Por onde passavam tonificavam as areias do deserto com uma coloração matizada de tons castanhos, ocres, avermelhados, cinzas e azuis-claros. Estes sim, são bonitos. Brincamos às fotos, sentamos na areia ondulada e macia, rimos, gargalhamos. What Else? Criamos momentos e recordações que perdurarão.

Mil e uma Noites
Recuperamos da literatura e do cinema a magia das ‘Mil e uma Noites’ num típico jantar árabe permeado com a dança do ventre de uma contorcida bailarina e com os acepipes coloridos dispostos abundantemente em longas mesas. A temperatura amena amaciava o lusco-fusco do entardecer e este, por sua vez, libertava os espíritos noctívagos vagabundos, enquanto as mentes mundanas se transportavam para os interiores das tendas árabes, recebidas à entrada pelas chamas ondulantes saídas dos archotes pendurados e mais danças do ventre na penumbra do interior! Por momentos o 'Lawrence d'Arábia’ esteve entre nós e trouxe com ele todo o acervo mágico arábico do seu tempo, 1888/1935. [(filme épico de 1962 (vi na altura) de David Lean, com elenco de luxo: Peter O'Toole; Omar Sharif; Alec Guiness; Anthony Quinn…)

Por último, e podia ter começado por aqui, o meu regozijo pela companhia da Branca, minha mulher, e de duas grandes companheiras destas andanças: a Carla Guedes e a Carla Silva (saudosamente, lembramos amiúde os amigos viajantes do “Por esse mundo fora”). Sempre animadas, sempre bem-dispostas, comunicativas, de smile espontâneo, sempre à procura de mais e mais, da descoberta de coisas novas, de novas emoções.

O grupo PLV não se chegou a agrupar, ou nós ao grupo, com duas pequenas exceções para a Mafalda e para a Lenita. Se por um lado se descuidaram novas relações, por outro estreitaram-se as nossas. E foi bom. Bom mesmo.


https://photos.app.goo.gl/mNYfDf2LhM6Z8Cpq8

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Parabéns, Ritinha, minha Neta Linda.


Parabéns, Ritinha, minha Neta Linda.
Parabéns, FourTeen
    Estás 
    Tão alta
    Tão linda
    Tão bonita
    Tão encantadora
Olhar para Ti é
        Incansável
        Um orgulho
        Uma alegria
        Uma fixação
        Uma vaidade

A Minha Menina, a Menina que me fez explodir o coração há quatorze anos, faz hoje Anos: 14 precisamente.
Essa explosão de estrelas libertou emoções e afeições até então adormecidas; germinaram, cresceram e se multiplicaram, sempre com o mesmo brilho, fermentadas numa proximidade ininterrupta.
E agora, que percorre a linda idade teen atapetada de novidades, a sua Estrela-Guia continua lá em cima, cintilante, a olhar para Ela, bem segura pelo cordel.

Parabéns, Amore Mio

Um Xi enorme
do avô que te adora


quarta-feira, 27 de julho de 2022

Parabéns, Simão, Meu Neto Lindo

27JUL'22

Parabéns, 
                 Simão, 
O Neto mais ‘incrííbéél’ (expressão dele) à face da terra.
11 Anos
De pura magia
De pura alegria
De enorme entusiasmo
De garra desmedida
De paixão em tudo que faz
De abraços circulares
De sorrisos lindos
De lágrimas inconformadas nas quedas
De autoestima contagiante
De amigo do amigo
De gerador de amizades
De desportista invencível
    Futebol
        Voleibol
            Patins
                Xadrez
(exceto c/ o Avô que perde sempre...)
De aluno brilhante
De apreciador de boa mesa: Bom garfo.
Quem assim fala é o Avô (nota-se?), mas Avô não mente… especula, talvez.
Quem tem um Neto assim não precisa de mais nada… mas uma Netinha igual, compõe bem o ramo, não é Ritinha.
Daqui a pouco vou aí levar-te(vos) um abraço, tamanho 11 (e 13).
Até já.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Viagem à iSlândia, c/ a PLV (04_a_12 JUN 2022)


Antes da viagem
Depois de um tempo em que o mundo exterior me entrou em força pela porta dentro através dos media, chegou a hora de retribuir a visita e ir ter com ele pessoalmente. Levo comigo, inevitavelmente, o puzzle informativo e sentimental que nesse mesmo tempo fui construindo. Verificarei em trânsito os níveis de dramatismo de uma, a pandemia, e os da crueldade da guerra, a outra. Esta viagem à terra da abundância

das auroras boreais

 do gelo   

  da neve

   da lava 

    dos vulcões     

das placas tectónicas

dos ríftes

 das lagoas

  das cascatas

   das crateras

    das quedas d’água 

     das piscinas naturais

da central geotérmica

 dos vales  

  do canhão

   dos fiordes

    dos geysers

     dos glaciares

      das planícies      

dos prismas hexagonais

 das grutas

  das baleias

   da diamond beach

    dos banhos termais

das povoações dispersas

                  do bacalhau!!!

foi marcada com bastante antecedência, pelo que durante esse tempo tudo o que de novo se passava na Islândia/IceLand (omq terra de gelo) foi-me caindo em pequenos pedaços como as partículas de neve que por lá esvoaçam até poisar. Ao conhecimento que tinha do país outros se lhe juntaram: o que chega à grande imprensa no dia-a-dia e o disponível na net. Para não especialistas ou, por outra, para quem se empenha em agarrar um pouco de tudo em tempo útil, encontra na Wikipedia - mesmo c/ a falta de rigor que esta fonte possa conter - uma resenha que o posiciona no essencial, dotando a pessoa de um background informativo e aproximativo que a capacita a abordar o país, já in loco, com uma abrangência razoável e tornar, assim, o tour mais rico, mais emotivo e mais empolgante.

Como lá está dito, o país tem a sua própria história, secular, recheada de sucessos e insucessos, de avanços e recuos, de fome, guerras, vulcões, epidemias, emigrações… igual a muitos outros, mas também lá é dito, e nós sabemos, ser dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo (6° - PiB nominal per capita: 72.000 USD. PT: 26.000 USD. Ucrânia: 3.500 USD. - indicadores de antes desta guerra Rússia/Ucrânia).

Para não ir muito atrás, partamos do pós segunda guerra, e ficamos a saber que, step by step, se tornou num país do primeiríssimo mundo.

Retiradas as tropas aliadas inglesas que lá se posicionaram durante a II guerra e financiado também - como tantos outros - pelos dinheiros do Plano Marshall, iniciou a lenta ascensão económica baseada essencialmente nas pescas e na agricultura, apesar desta última ser ali bem difícil e trabalhosa. Com a entrada na EEE (1994) e com a liberalização da economia - mais tarde se veio a revelar excessiva -, atingiu níveis de desenvolvimento e riqueza impressionantes.  

A crise de 2008, porém, atingiu-o violentamente, tendo provocado o colapso bancário e forte contração da economia, muito alavancada pela descontrolada liberalização bancária.

Passou tempos de aflição, como o mundo em geral. Então em Portugal!!!!… foi um sufoco, um sofrimento e um pesadelo, acrescido do que se seguiu à bancarrota de 2011, com o inevitável resgate pela Troika e as inesquecíveis imposições draconianas ao nosso modelo económico.

Mas na Islândia foi apenas um intervalo para a retoma. Socorrida, também, pelo FMI, aos setores tradicionais instalados - serviços, finanças, indústria (alumínio), (menos) pesca e agricultura, muito suportados em energias renováveis, mais baratas, incluindo principalmente a geotérmica (recurso ao magma terrestre) - acrescentou o Turismo. Com esta reconfiguração da economia e políticas estruturais assertivas, ascendeu outra vez aos melhores rankings.


Depois da viagem
Não exageram nos termos, particularmente os veiculados pelos agentes turísticos para a promoção da Islândia enquanto dinamizadores do próprio setor, quando elegem classificativos redundantes, dos quais me sirvo para melhor expressar o tanto que vi, senti, colhi e trouxe.

   Belo

   Um deleite

   Deslumbrante

   País de exageros

   Uma aposta ganha

Apaixone-se pela Islândia

Paisagens avassaladoras

Ambiente fantasmagórico

Muitos lugares maravilhosos

Quedas de água monumentais

Mil e um lugares extraordinários

Não há nenhum lugar como a Blue Lagoon

    Invulgar

    Imperdível

    Preciosidade

    Impressionante

    Espetacularidade

         Delícia

         Surreal

         Paraíso

         Fabulosa

         Magnificente

         Encantadora…

Adotei todos eles. Fiz com eles uma lente especial que acoplei às polaroid e às de longo alcance que sempre levo para estas andanças. Raramente as tirei, não por serem necessárias, mas para tornar tudo ainda mais eloquente.

Desta vez, prescindi do poeta que costumo levar a tiracolo. Nem lhe senti a falta.

Islândia é um poema.

Mais que um poema intangível

                 é um hino à natureza

    no seu estado original e puro.

                             Sem mácula.


Liberto da adrenalina que antecedeu e animou a viagem (mas já em posse de outra), é agora o tempo de a degustar em pequenas porções, acondicionar os ingredientes colhidos e fixar a receita, com a certeza de que à sua confeção recorrerei amiúde.


Onde a noite não chega a ser criança.

Fomos recebidos pelas 01:00H com um pôr de sol lindíssimo de tons pastel, pincelados por longos traços cinza-escuro cujo objetivo parecia ser o de enfeitar o horizonte e a planura raiada que jazia serena a seus pés, como uma oferta de boas-vindas e promessa de uma bela semana. Aceitei a oferta deste tónico cujos efeitos senti de imediato e que duraram até ao final da viagem.

Apesar de avisado da possibilidade das quatro estações poderem ocorrer a cada dia, o clima revelou-se generoso e bom sem grande necessidade de rebuscar o fundo da mala à procura de roupas mais quentes.

Despojado, então, da mente urbana, afastado do frenesim que agita o dia-a-dia e deixada a capital, Reiquiavique, para o regresso, o grupo fez-se à estrada com espírito limpo, aberto às novidades que por certo o aguardavam.

E não demoraram.


Serras geladas, outrora nevadas, moldavam o horizonte umas, furavam o céu para picar as estrelas ou as auroras boreais, quem sabe?, outras. Umas tantas, desnudavam-se imponentes à passagem e mostravam-se tal e qual como nasceram. À vetusta idade de muitas acrescentava-se alguma fraca vegetação, alternante com a lava escura a lembrar a sua origem secular. Perfilavam-se e ladeavam o transeunte em jeito de guarda de honra, ora em vales longos, ora em vales profundos mesclados de verdes clareados por um sol hesitante, vales esses que lhes suportavam o peso. Seguíamos intimistas com mente milenar, intemporal, de serra em serra, de planalto em planalto, de planície em planície, de fiorde em fiorde, de praia em praia… sempre encaixados entre montanhas majestosas.

Estradas de pisos suaves serpenteavam pelos incontáveis fiordes que ao penetrarem terra adentro mais pareciam uma rede de canais coletores e condutores de água a drenar para o mar.

Mais longe ou menos longe as neves eternas dos grandes glaciares pintavam as sombras do horizonte de um branco irregular e vivo, enquanto agarravam o nosso olhar com força hipnótica. Quedas d’Agua, menos ou mais caudalosas, borrifavam umas e salpicavam outras; outras molhavam, quem, sedento de proximidade, delas se abeirava. Um banho era garantido aos audazes que ousaram desafiar e contornar os 360° da SeljaLandsFoss… (private joke: honra e glória para 'os bravos do pelotão': à CaraR, CarlaS, Dulce, Manuel and MySelf: molha completa).


Quedas de Água: uma das supremas demonstrações da grandeza incontrolada e simultaneamente bela da natureza. E tantas eram; abundavam e surpreendiam. Umas pela quantidade de água que brotava lá do alto e se precipitava ensurdecedoramente no abismo; outras que jorravam de altura de queda inatingíveis; outras pelo penteado ondulante que deixavam na queda ao serem desviadas pela força do vento… 


Cascatas, essas filhas menores das Quedas, correm encostas abaixo, saltitando alegremente de socalco  em socalco, de pedra em pedra, de areia em areia até se saberem filtradas de impurezas, oferecendo-nos à chegada o precioso líquido pronto a saborear, límpido e fresco.

Todas, Quedas e Cascatas, despertam em nós um efeito encantatório verdadeiramente impressivo. Intenso. Quiçá pela proximidade que permitem, quiçá pela interação que facultam, quiçá pela bela estética que traçam no espaço, quiçá pela harmonia que emprestam ao conjunto… que sei eu!?, o certo é que a elas todos se querem chegar e delas todos se demoram a afastar trazendo no fio do olhar, na ressonância auditiva, no fundo da alma e bem mais perto do coração aqueles cenários deslumbrantes.


    Apetece aprisionar estes momentos de êxtases.

    Apetece partilhá-los com o mundo.

    Apetece esticar o tempo.

    Apetece imergir neles.


A alma humana cede perante esta imensidão incompreensível. Apequena-se humildemente. Busca explicações mas refugia-se no limbo contemplativo. Contenta-se com a anestesia que recebe das gotículas aspergidas.


Mais à frente, depois dos pequenos, o grande Geiser aguardava-nos e nós esperançávamos pelo Geiser. De objetivas apontadas, obviamente. Delete take one, take two… novo take. Muda-se de posição, de lugar, de estratégia - sempre de câmaras apontadas - e nada.

Aproximávamos o olhar da cratera, investigávamos minuciosamente o borbulhar da água, seguíamos o fio do vapor expelido, atentávamos às alterações na caldeira, sempre de ‘olho em riste’. Alterações repentinas na boca da cratera indiciavam, ou não, movimentações lá embaixo nas profundezas. Talvez. Talvez. ‘O que eu andei para aqui chegar’ robustecia a paciência; um dichote para o vizinho do lado compartilhava e aliviava o frisson da espera.

Et voilá! 

Uma explosão inopinada saída das entranhas daquela terra fervente atira-se ruidosa e vaporosa para o espaço num crescendo apoteótico. As entranhas de todos nós, comprimidas pela longa demora, explodiram em sincronia num ah! ah! ah! gritado de Happy End.


Caça (fotográfica) à Baleia.

Ato heróico para uns, aventura frenética para poucos.

Não foi unânime a vontade para navegar  'por mares nunca antes navegados' e, menos ainda, flutuar em águas alterosas como se dentro de cascas de noz estivéssemos. As dúvidas fizeram-se ouvir. O que estará Vasco da Gama a pensar destes seus filhos? Fazendo jus à coragem dos nossos bravos marinheiros quinhentistas e na sombra da sua  gesta, todos se fizeram ao largo, com uma prece a Neptuno, uma benzedura adicional, um olho em estado de alerta a investigar o paradeiro das baleias e outro, em alerta também, atento às manobras do barco e à agitação marítima.

Onde andarão elas? - Era a pergunta surda que todos se faziam.

O radar de cada um varria toda a área na busca do chafariz identificador do cetáceo, enquanto o barco furava o mar agitado. Sentia-se, a bem da verdade, a arte de bem navegar aos comandos do leme. Conduzida com sábia mestria, a embarcação sulcava as ondas com vigor, enfrentava-as destemida,  galgava-as com indiferença, surfava-as com agilidade.

A bonança, desejada por alguns, não aparecia aumentando o desespero dos aflitos.

E as baleias?

O barco seguia seu rumo, rodando às ordens do El Comandante para as 10:00, para as 03:00, para as 06:00h, sempre na busca do fugidio gigante dos mares.

Os 'filhos menores' dos nossos marinheiros heróis, também conhecidos por 'marinheiros de água doce', começaram a ceder à inexperiência da navegação. Sentados ou amparados por ombro amigo, com o mesmo olho na baleia e outro no estômago revolto, rezavam pelo fim da aventura. E o estômago nauseado continuava a ceder aflitivamente, a tal ponto que… bem, vamos ultrapassar esta parte.

E o cetáceo que não aparece!?

Ali, Ali.

Gritos uníssonos na proa e dedos em riste a apontar para a 'baleia à vista', acordaram os entorpecidos e abriram o olho vigilante, o mesmo, dos encostados à popa ou na meia-nau. ‘Tarde piaste’, a baleia tinha submergido.

Atento, o Mestre, rapidamente reorienta o barco com movimentos bruscos e persegue o rasto do mamífero encorajado pelo bruaá dos ansiosos. 

À distância do disparo de um click, aliás muitos, um corpo fusiforme e volumoso descreveu à superfície uma curva suave para logo desaparecer. Mais à frente noutra aparição respirou um jato vaporoso, frondoso e sonoro, seguido de novo mergulho. Seguimos expectantes a superficie das águas e valeu a pena: fomos agraciados com pequenos recortes acrobáticos num último adeus enquanto se afastava para sempre.

Foi curta a aparição. Tão depressa apareceu mais depressa se foi.

Refeitos e satisfeitos com a visão deste animal milenar, regressamos à serenidade com a sua imagem na retina e forte ambição de que continuem a ocupar o seu lugar no nosso ecossistema. 

Já de regresso, ainda houve tempo para que os 'filhos maiores' dos nossos marinheiros, marinheiros de provas dadas e experimentados como eles, honrassem a sua coragem e bravura brindando-os com uma chávena de cacau quente, aliás duas, e um bolo gostoso, aliás dois. 

"Quem vai pró mar avia-se em terra".


Blue Lagoon

Já no final do Tour, em jeito de Fim de Festa, e como corolário de uma bela semana, fomos a banhos. 

- Onde? 

- Blue Lagoon

E que belo banho.

De repente tudo ficou reduzido ao tamanho da Lagoon. Que importa o que se passa fora daqui se aqui se está tão bem?

O Grupo fechou-se ao mundo e dentro da sua bolha viveu o momento. Entusiasticamente. Vibrantemente. A bolha foi ajustando o seu tamanho para que lá coubessem a alegria contagiante, a transfusão da amizade, o gosto de viver, o prazer da descoberta de outros ambientes. Não foi necessário furá-la para aceder a uma bebida revigorante ou disfarçar as rugas do rosto com argila rejuvenescedora. Ou submergir nas águas sulfurosas em busca da eterna juventude. Houve quem (private joke) se amarrasse à chave do cacifo - e disso desse aviso público - com receio de não ser reconhecido quando emergisse… Houve espaço ainda para um duche na cachoeira, uma sauna e banho turco. Saudamos a vida, o futuro e a amizade com um brinde sonoro, efusivo, partilhado e feliz, a tal ponto que a bolha rebentou e dela saímos para a etapa seguinte. What Else?

  • Obliterei, deliberadamente, os dias de pandemia e guerra que por estes dias nos assolam e atormentam.  Uma pausa. Será?

  • Uma palavra de satisfação pelo companheirismo pronto, franco, comprometido e amigo da CarlaR, CarlaS, CarlaG, Dulce, Branca, Eduarda, Manuel e Jorge.

  • The last but not the least: uma palavra de desolação por à última hora um elemento muito querido da Equipa ter ficado retido ainda em Portugal por motivos ponderosos. Sei que está bem e isso importa. Haverá uma próxima, Raquel.


Considerações finais

Este nosso mundo é tão desigual!

                                  tão desigual!

no que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento Humana (Islândia 4°, PT 38°, Camboja 144°, Moçambique 181°!).

Tantas vezes dou comigo a olhar para este nosso mundo - mais atento e sensível àqueles que conheço - e a tentar compreendê-lo… como se isso fosse acessível a um terráqueo!? e experimento, para conforto próprio, ordenar um raciocínio aplicável a todos: não o consigo.

Seria um desafio bem, bem difícil - porque mundos conflitantes - meter numa mesma tela os diversos africanos, os diversos americanos, os diversos asiáticos, os diversos orientais, os diversos da oceania (não conheço nenhum), os europeus.  Uma tela para cada um? Talvez, mas resultaria, mesmo assim, sempre imperfeita. Muito imperfeita.

O fosso entre um europeu e um africano, p. ex., é tão intransponível que se vão manter assim irremediavelmente afastados. Até quando? Ad eternum, uma vez que as forças que os animam são antagónicas porquanto auto-protetoras e umbiguistas.

Não me refiro, obviamente, enquanto seres humanos, raças ou credos pois aqui os mundos são inextricavelmente iguais - apenas com rituais diferentes -, mas sim enquanto seres aspirantes ao bem estar e à satisfação das necessidades primárias como beber, comer, vestir, saúde…

A riqueza muda de mãos, de zona, de continente até - quantas vezes com recurso a guerras -, mas haverá sempre quem fique esquecido atrás das masmorras da indiferença do mais forte.

Estarei a ser pessimista? Infelizmente e com muito pesar, acho que não. A história diz que se manterão distantes.

Sempre.