sexta-feira, 8 de abril de 2022

Rússia 🇷🇺 / Ucrânia🇺🇦: Desumanidades

Nasci nos anos ‘50, ainda a escutar os ecos do troar dos canhões a reverberar nos corações, nas almas e na vida das gentes, da minha gente, e de cujas bocas saiu a morte de milhões. De pessoas como nós. Fui poupado, então, às incertezas que fustigavam o renascer dos adultos.

Habituou-se essa minha tenra idade a aceitar sem queixumes as precariedades existenciais que as sequelas da II guerra semeou até ao mais recôndito recanto. Até aqui. Míngua que se alongou no tempo por mais umas décadas.
Habituei-me, também, a temer como possível outras novas guerras em horizontes vários, quando comecei a percepcionar que a vontade de abocanhamento continuaria voraz. O caos generalizado, a desestruturação em que ficaram mergulhadas as nações e as sociedades, as indefinições e fragilidades políticas, nomeadamente em zonas apetecíveis às partes famintas, enfeitavam o bolo e aguçavam ainda mais os apetites.
Por via das armas, obviamente…

Os países democráticos de um lado e os ditatoriais do outro degladiavam-se, tantas vezes em campo aberto, à conquista de mais territórios para incremento de zonas a influenciar: Coreia (1950-1953); Argélia (1954-1962); Mísseis Cuba (1962); Vietname/Laos/Camboja (1964-1973); Israel (1967); Afeganistão URSS (1979-1989); Irão-Iraque (1980-1988); Malvinas (1982);  Golfo (1990-1991); Chechênia (1994-1999); Países colonizados (estive num deles)... estavam na wishlist. Em escala regional, é certo, mas numa escala de guerra, certo também.

O fim da URSS nos anos ‘90, destronava(?) a crença comunista. O lado liberal apressava-se na corrida. Timonava o mundo. A China de Mao Tsé Tung redefinia-se também.

Uma onda de otimismo varria o mundo e imprimia nas suas gentes uma outra onda de acelerada mudança em vagas regionais sucessivas. A Paz e a prosperidade eram o alvo. O simples cidadão sentia-se convertido em Cidadão do Mundo. E andou pelo mundo.
Os ‘filósofos’ sociais - everyday, everywhere - entusiasmavam as gentes e os mais perspicazes advertiam para a falsa solidez do bem estar geral, ao acompanharem com mais astúcia e distanciamento os centros de poder em formação.
Os alertas dados não foram, contudo, suficientes para retirar as pessoas do conforto em que já viviam, anestesiadas por uma imprensa acéfala que lhes aumentava a cegueira.

Na antiga Jugoslávia (1991-2001) - zona de nacionalidades difusas - a clarificação demorava e levaria à morte muita gente.
Afeganistão EUA (2001-2002) e Iraque (2003–2010), - permeadas pelas Twin Towers (2001), estremeceram as crenças dos ‘Bon Vivant’, mas a avidez pelo usufruto dos dias e pela alegre vontade de bem viver, rapidamente fez esquecer as suas causas e reconduziram as grandes maiorias ao conforto.

Putin, qual chinês paciente, escondido no silêncio dos inocentes e dos incautos, ia tecendo meticulosamente o ardil onde iríamos cair. Com o poder do dinheiro, rodeou-se de ‘gente boa’ e todos urdiram a teia. Peça a peça. 
(um dia se saberá melhor o conteúdo da teia)

E chegou o dia G

   Guerra
      Guerra
         Guerra

O que há décadas nos habituamos a pensar como inadmissível, impossível mesmo, bateu à porta do mundo com um estrondo tal que acordou toda a gente.
As imagens que nos chegam são...

... não há léxico bastante para expressar o turbilhão dos sentimentos humanos há muito destreinados.

Ao acaso, ou talvez não, seleciono este

              desumanidades

Ansiosamente, fico à espera do Day After.

Por último, 
Sabemos bem de que lado está o ocidente - salvo algumas estranhas excepções - e o porquê.
Sabemos bem o porquê do tocante acolhimento dado aos ucranianos.
Mas aqui apetece-me elevar bem alto a 

   bondade
      irmandade
         generosidade
            humanidade 

bem audíveis nas expressões vocais e melhor vistas nos gestos abnegados de tanta gente.

Há esperança.
Dias melhores virão. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Lapónia & Pai Natal, c/ PLV

12/18 Dez '21

Não, não encontrei o Pai Natal! Em boa verdade, também não o procurei. Tivesse eu feito esta viagem há alguns anos e tê-lo-ia abraçado com todo o entusiasmo da criança que na altura havia em mim. Ai dele que, então, não aparecesse.
Sendo certo que nunca o abandonei totalmente. Fomos grandes amigos e ainda somos. Fui, entretanto, crescendo a seu lado e metamorfoseando-me contra ele, aceitando boamente suas visitas de companheiro sazonal. Aproveitamos esses encontros para afinarmos nosso relacionamento, nem sempre muito regular - queixa-se ele.
Conservo dele, contudo, uma bonita ideia. Hoje, é um bom amigo que revejo quando visita meus netos e, antes, sempre que visitava minha filha. Na sua noite, espero sempre por ele e, mal chega, abro-lhe a porta até trás para o receber como deve ser: de braços abertos, a escutar o seu inconfundível Oh! Oh! Oh!. Seu sorriso, sua alegria, sua boa disposição, são os melhores presentes que traz no seu grande saco. Que aceito e redistribuo com gosto.

Noutro tempo, no meu primeiro tempo, preocupava-se em alegrar e adoçar o melhor que podia os dias da visita. E conseguia. Trazia sempre o saco bem cheio, tão cheio como agora, apenas com surpresas diferentes e distribuições mais escassas; bastante mais escassas, aliás. Parece ter guardado as melhores prendas para mais tarde. Agora, sim, tem mãos largas. Trás o saco bem cheio, com muito de tudo, que distribui fartamente. Tem vezes que até exagera!

Lapónia e Pai Natal coexistem como inseparáveis siameses. Não se fala numa sem lembrar o outro. No local, na sua terra natal, visita-se uma e continua-se a falar e a procurar o outro. Com algum sucesso, o digo. Como num jogo de esconde-esconde o entusiasmo na sua procura aparece, não esmorece, anima e recrudesce, entretendo-se ele a semear sua magia por quem queira jogar o jogo. Eu joguei. E gostei.

A viagem foi ainda um tudo-nada ensombrada pela pandemia, agravada pelo número crescente e recente de atingidos um pouco por todo o lado. Felizmente que ele, o Pai Natal, está imune e com forças qb para afrontar o bicharoco.
Far-se-á a viagem? Em que surpresas tropeçaremos? A PLV e os Guias lidarão bem com os imponderáveis?
Estas interrogações que mancharam o pano de fundo que antecedeu e questionou a sua realização, não foram, ainda assim, empecilhos bastantes para a travar.
Vestidos com as capas dos cuidados em vigor e da imprescindível confiança - e reforçados pela 3ª dose da Pfizer -, aí fomos nós ao encontro do Pai Natal e da Lapónia.
A pandemia seguiu connosco; não nos largou um minuto, nem mesmo lá em cima, resguardados nas asas do grande pássaro e escondidos por trás das diversas camadas de nuvens. Mas nós barramos-lhe a entrada com os meios que levávamos no rosto e no bolso.
Fomos eficazes e mais fortes que o nefando monstrinho.

Lapónia…
   Pai Natal…
Os sons do pronunciamento destes nomes ecoam pelos mais finos capilares dos tempos, e invadem o nosso com a mesma intensidade e candura com que as camadas desse mesmo tempo os foram revestindo e protegendo.
Seja por motivos comerciais, seja pela promoção da brandura humana, o certo é que o culto ao Pai Natal se generalizou. E ao consegui-lo, gerou um intervalo de Paz e Concórdia Mundial que valoriza e acalma a alma coletiva.
Lá chegados, acrescenta-se-lhes apenas a dimensão que faltava: a terceira. E que dimensão! O contacto com o real em nada ofusca o brilho do imaginário. Pelo contrário: dá-lhe consistência, corporiza-o e ainda o engrandece.

Correndo o risco de deturpar ou manchar as imagens do que vi pela falta de engenho literário, vou atrever-me, ainda assim, a uma pequena resenha.

Aldeia do Pai Natal
A parte mais impressiva, seguramente. Não só por corresponder exatamente aos postais HD que circulam pelo mundo e gravados bem no fundo da nossa memória, mas, sobretudo, por despoletar sensações visuais, musicais e climáticas (-4°, nesse dia) que acordam a alma juvenil e ameninam a adulta.

Fomos recebidos - onde a terra acaba e a neve começa - num imenso tapete de neve, com minúsculos flocos em suspensão ondulante, como quem quer ganhar tempo para poisar sem ser notado ou para melhor receber quem chega.
Encandeados por essa beleza e leveza, espontaneamente de rostos levantados, sentimos a suavidade do primeiro contacto.
Que agradável!
Tanto que o rosto permanece levantado e inerte a pedir uma paragem do tempo; as pálpebras, suavemente cerradas, fecham-se ao mundo; escuta-se o silêncio dúbio do ‘bate leve, levemente...’ (Augusto Gil); os pés encoturnados retraem-se, encolhidos pela fria temperatura exterior; o corpo, euxumaçado de camadas intermináveis de roupa quente, sente o frio a trespassar a pele e a beliscar os ossos; os braços estendem-se para sopesar o mundo e, assim abertos à natureza inclemente, pede-se mais e mais para dar tempo a que o coração e a alma se recomponham e ambos viagem sem pressas para onde livremente desejarem ir.

Ainda fascinados e sob o impacto deste primeiro deslumbramento, seguimos por ali e por ali à procura de outros êxtases, guiados pelas luzes multicolores a iluminarem o caminho atapetado de macia brancura.
Ao caminhar por entre as sebes-guias bem algodoadas de neve, deixamo-nos tocar pelo aconchegante calor humano que por ali se respira e que a todos envolve, enquanto as gentes derretem outras neves trazidas de longe.

E são tantos os pontos chamativos a saltitar à nossa frente que a cabeça tonteia ao encontro do próximo.

Lá está a fogueira de brasas vivas e chama animada a desenhar sombras curvas nas paredes das cabanas, enquanto aquecem os corpos mais carentes;
Lá está o emblemático iglo, seguro em grossas paredes de gelo, a lembrar o frio do ártico;
Lá está a rena esforçada a puxar o seu trenó cheio de crianças e adultos felizes;
Lá está a pequena ponte elevada para uma captura mais abrangente;
Lá está o fio azul que lá do alto informa do início do círculo polar ártico;
Lá está o termómetro a aconselhar mais agasalhos aos desprevenidos;
Lá está a alegria das crianças a atirarem-se leques de neve fofa e a deslizar nos trenós de ocasião;
Lá está a WebCam para saudar quem ficou longe;
Lá estão os casais enamorados a eternizarem seu amor;
Lá estão os grupos de adultos a mimosearem-se com brincadeiras infantis;
E nós os seis - Dulce, Manuel, CarlaS, CarlaG, Branca e eu -, aderimos rapidamente ao espírito que pairava,
   e brincamos,
     e divertimo-nos.

Entretanto, o Santa Claus, dono e senhor da sua Village, espera-nos pacientemente no recesso de sua casa.
Era grande a nossa vontade de o ver pelo que, sem mais dispersões, fomos entrando. Pelos longos corredores, escadarias e salas, por todos os cantos, caixas e caixinhas, enfeitadas e fechadas, atulhadas até ao teto, despertavam em nós a curiosidade de adivinhar que prendas esconderiam.
De caixa em caixa, chegamos à porta em que o Duende de guarda ao salão nobre se afastou para uma primeira visão do Pai Natal.

Ei-lo! Ali mesmo à nossa frente, sentado no seu confortável cadeirão, como recomenda sua vetusta idade. Vestido a rigor com o seu fato célebre - incluindo frágeis lunetas a segurar a ponta do nariz curvo e longas barbas brancas a poisar pelo regaço (alguém perguntou: serão verdadeiras? Obviamente, respondi: tudo aqui é autêntico!) -, convidou-nos a entrar com o seu esperado oh oh oh.
Respondemos em coro com o entusiasmo acumulado de anos que levávamos, acrescentado do que ele ali mesmo nos transferiu. Já próximos (separados pelo acrílico Covide-19), conversamos um pouco. Perguntou de onde éramos - ouvimo-lo pronunciar ’Porto’! e despediu-se com um surpreendente 'Bem-Vindos à Lapónia'. Despedimo-nos também, para dar vez à enorme fila. Isto, depois de olharmos de fugida para todas as caixas que enchiam a sala, na vã tentativa da descoberta da nossa prenda. Estavam, porém, convenientemente aluquetadas, pelo que tivemos de conter a ânsia e adiá-la por mais uns dias.

Ainda há quem não acredite no Pai Natal!

Ir à Aldeia do Pai Natal é voltar à meninice, para quem assim a viveu; para quem não, será a descoberta de um mundo cheio de cor, de música, de harmonia e de magia. De momentos de comunhão de um lindo sentimento humano.

Lapónia
Região que ocupa boa parte do norte da Noruega, Suécia, Finlândia e da província da Rússia, Kola, com 388 mil km². É na parte finlandesa - e só -, em Rovaniemi, que existe o culto ao Pai Natal.

Turistar pela Lapónia nesta altura do ano - solstício de inverno - é descobrir um mundo novo (para mim). Original e bem bonito.

Longe da faxa terrestre do trópico de câncer e mais ainda da faxa equatorial, ou seja dos raios solares mais quentes, a natureza reage com o que aqui tem disponível, criando um ecossistema próprio: neve, gelo e frio, com vida animal e vegetal adaptada às circunstâncias, mas abundante, apesar de tudo. Os seres humanos são mais escassos (Lapões, ou Sámi como querem ser conhecidos: 70 mil no total dos quatro países).

Usufruir do prazer de caminhar pontapeando tufos de neve fofa;
Calcorrear pela neve em raquetes por entre árvores de ramos descaídos submissos ao peso de grossos novelos brancos;
Conduzir trenós puxados por huskies frenéticos e barulhentos;
Guiar as pequenas renas mansas e pachorrentas;
Galgar em motos de neve por extensos montes alvos, por colinas iluminadas pelos compridos raios dourados do sol poente. Ou será nascente?;
Descer aos vales desertos;
Furar pelos túneis emparedados de abetos, hirtos como sentinelas;
Tomar um inesperado chuveiro de neve que nos cai das árvores;
Experimentar no rosto o vento gelado do ártico;
Perfurar o gelo grosso do lago à procura de peixe;
Boiar em água aquecida no mesmo lago com fatos térmicos;
Comer biscoitos e beber chá quente ao calor e à luz da fogueira numa cabana solitária;
Comer salsichas assadas e marshmallow aquecidos a tarde horas da noite;
Ver o sol nascer às 11:00 e ir embora às 13:30;
Sair do almoço e dar com o olhar na noite escura;
Não ver pessoas na rua;
Saber que deverão tomar a vitamina D;
Ver (bons) prédios e casas sem varandas enfeitadas com estalactites;
Pressentir as pessoas no quentinho dos seus lares;
Ver o comércio a funcionar em Shoppings aquecidos;
Ver os transportes a funcionar normalmente mas, obrigatoriamente, a ter de mudar de pneus a cada solstício;
Andar de autocarro, sempre em cima de neve, ladeados de árvores pingantes de branco;
   . . .

Um encanto esta Lapónia de inverno.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

18! Parabéns, Bernardo. 18!


18! 18! 18!
Parabéns, Bernardo.
18! Ups. Quem os não quer!?

Conservo dos meus um tempo vívido e ebulitivo a que não me importaria de regressar… ora aqui está a piada do dia!
Nos meus dezoito, as energias masculinas eram muito concentradas e canalizadas depois para bem longe. Não obstante esse desígnio, carregado de cinzentos sombrios e contornos indefinidos, foi aceite como desafio. Com temor, naturalmente, mas de peito inchado, insuflado de coragem.
“A opção é avançar quando não dá para recuar”, - era o lema.

De lá para cá o mundo mudou e tu apareceste num outro, com pontos de contacto com os anteriores, sim, mas muito diferente e igualmente desafiante. Se não mais, ainda. Desafios que o teu periscópio foi detetando e o teu radar te ajudará, doravante, a optares pelas alternativas mais certeiras.
Aliás, sem desafios, isto é uma seca - como se diz.

O tempo de sofá esgotou-se em 2020. Já levantados e mais uma vez de peitos feitos, encorajamo-nos: venham lá esses novos desafios. Para ti e para todos.
(usei várias vezes a palavra ‘desafio’, eu sei)

18 Anos!
É certo que até agora estiveste a construir o teu mundo, pedra a pedra, para ficares melhor capacitado para entrares no de todos. E é com o que preferiste e amontoaste que o enfrentarás. É certo também que este mundo grande muda a cada segundo e o teu percurso, que está lá bem delineado mas escondido, terás de o descobrir sozinho na floresta das incertezas.

A chave da independência pessoal que te estava destinada é-te agora entregue. Recebe-a com galhardia e confiança. Sem deixar nada para trás, vai fixando lá longe os horizontes mutantes e ajustando o percurso sempre que necessário. Porém, se a chave emperrar - e pode acontecer -, sabes que tens nos m&c os artífices para a tentar desbloquear.
A força centrípeta dos m&c sempre te atrairá para o seu núcleo onde, de resto, sempre estás.

Lá está este meu tio-avô com ares de sabichão!, - rirás. E tens razão no desdém; mas é que os que vão mais à frente têm a ambição, mania talvez, de deixar as pedras bem postas no caminho para que aqueles de quem gostam encontrem, não o mesmo, mas o seu caminho mais facilitado e se magoem o menos possível. Enfim, presunções que relevarás, - te peço.

E chega de filosofias baratas, se é que tiveste pachorra para chegar até aqui.
Vai, pois, e diverte-te mais ainda. Sem diversão isto é pouco interessante. Fica mais esta dica, mas prometo ser a última.

Com certeza já recebeste um abraço mais que forte e apertado dos teus pais, que te amam como ninguém mais.
Recebe agora um abraço também forte e apertado dos teus avós, para quem continuarás a ser o seu menino.
Outro, igual, de todos nós, os m&c.
Dos teus amigos.
Falta alguém, digamos… especial?

Teu Tio-Avô,
que te tem sempre por perto,


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

42! Parabéns, Raquel. 42!


Gosto de dedilhar à volta dos nossos Encontros.

E começo pelo avant, sim, porque, como noutros, houve, também neste, um tempo de stand by feito de animação. Escolhemos para o efeito o ‘Reco’ que funcionou como mascote. Serviu o pobre coitado de ingrediente para agitar a imaginação e criar cenários divertidos.


Os ‘maduros’ entusiasmaram-se com a treta e os ‘menos maduros’ - concedo: jovens - também, mas mais conformes com suas ocupações.


Cada qual assumiu a sua tarefa de selecionar um sabor, de forma a incendiar os apetites e a garantir o prazer da mesa que, neste ínterim, íamos pondo à distância; e, por arrasto, duplicar o prazer da companhia a todos.


Chegado o dia, não só não faltou ninguém à chamada como trouxeram dos melhores petiscos das suas redondezas. Este popurri de paladares, regados com colheitas de boas safras, atearam o rastilho para uma noite que se adivinhava participada.


À chegada, a anfitriã, recém dona e senhora da propriedade, recebeu-nos com o seu habitual e sonoro Olá!, envolvido pelo seu sorriso alegre e franco que tão bem conhecemos. Franqueou-nos toda a casa, argumentando que, que, que… e recebendo, em troca, o elogio geral pela escolha. Acreditamos que aqui somará lindas memórias, desejando estar nelas incluídos.


Encaminhados para a mesa, aí distendemos os apetites, tão amordaçado pelos longos dias de espera.

E foi um regalo saltitar de iguaria em iguaria e agradável viajar pelas suas origens.

Qual o mais saboroso?

Cada um reterá o seu preferido. Quanto a mim, opto por todos. É que estou numa fase em que tenho dificuldade em rejeitar sabores. Treinei as papilas, não para a rejeição, mas para a degustação. Salvo raras excepções o estratagema está a resultar. Por outras palavras: “topo (quase) a tudo com’ós polícias”.


Terminamos com os Parabéns à nossa querida Raquel - como é possível haver alguém a fazer 42 anos!!?? - e com um Xi bem merecido e sentido.


De vez em quando sabe bem fechar as portas ao mundo exterior, esquecer, ainda que por pouco tempo, a agitação que o move, e abrir as do mundo daqueles a quem queremos bem.


Parabéns a Nós.



quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Em Dia de São Martinho!



Belo dia este:
Dia de São Martinho!
Até faz esquecer a água 
A quem gosta mais de vinho.

A chuva fez intervalo 
Para o Verão de São Martinho, 
Logo à pressa fui buscar
As assadas, as cozidas e o vinho.

As adegas já estão cheias do líquido 
Que faz mais bem que mal!
Bebendo-se um pouco mais que a conta,
Fica-se em vinha-d’alhos até ao Natal.

No dia de São Martinho 
Vai à adega e prova o vinho.
Toma nota que ‘provar’
É só beber um copinho.

São tão quentes e boas 
No fogareiro a estalar. 
Venha de lá um do tinto
Para melhor as saborear.
 
“São tão quentes e boas”,
Canta-se no refrão do velho fado.
Come, come glutão 
Até ficares saciado
 
Ao passar à tua janela 
Pedi-te uma castanha assada
Distraída com a treta, brincaste: 
Já está estragada!

Desconsolado com o sucedido
Ali permaneci de pé
Aguardando pelo menos 
Um copito de água-pé.

Por não querer ‘ficar a seco’
Pedi-te então um queijinho
De olhar maroto e a sorrir
Atiraste-me um beijinho.
 
São Martinho, meu bom santo,
Atira-me a tua capa; 
E mantém este Sol bonito,
A ver se da chuva a gente escapa.

Para quem trabalha, São Martinho, 
Tem especial consideração; 
Não lhes negues o que te peço
E dá-lhes um belo dia de Verão.

E para os demais também,
Sê amigo e satisfaz-lhes o desejo.
Para não ficarem em casa
E preferirem o arejo.

Para os meus amigos te peço hoje:
Sol, água-pé, castanhas e vinho;
Não me obrigues a pedir segunda vez,
Pois não te peço, nem baixinho.
 
Ai de ti se não me atenderes?
Não venho mais ao engano!  
Ficas virado para a parede, 
De castigo até ao ano.



domingo, 10 de outubro de 2021

“Chamada para o Morto”, by John Le Carré


“Chamada para o Morto”
by John Le Carré

trad.: J. Teixeira de Aguilar

Tema: Espionagem, crime, mistério.


Por oferta de mão amiga cheguei finalmente a John Le Carré. Em boa hora pois assim ainda posso ler o livro à sombra do seu autor, falecido recentemente 20/dez.

Sucede-lhe o tamanho do seu nome que chegou a muito mundo, ocidental sobretudo, e ao meu também. A oportunidade de o ler é que só chegou agora.


Sendo, embora, seu primeiro livro, 1961, é um livro agradável de se ler. Não tanto pela trama ou pela história algo datadas (oportunidade revivalista), mas pelo rigor literário e minúcia narrativa, às quais dou particular valor.

Acresce uma boa tradução, não sei se perfeita, que nos envolve bem no ambiente em que decorre a ação, nomeadamente usos e costumes da época, recorrendo para o efeito à nossa terminologia e expressões conhecidas.


Prendi-me, entusiasmado, à sua prolifera imaginação, tão bem desenhada nas entrelinhas da sua escrita. A aparente simplicidade na forma prende, ab  inicio, o leitor. Utiliza uma linguagem singela, escorreita mas que vai logo ao ponto.

Um léxico não muito elaborado - o que o obriga ao uso de mais palavras -, mas bem escolhidas, alinhadas e seguidas com entusiasmo.




quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Parabéns, Ritinha, Minha Neta Linda


13 Anos!
Parabéns, Ritinha.
Parabéns, Minha Neta Linda.

Todas as idades são bonitas - a minha, 70+, também - mas a idade ‘teen’ (13/19) em que agora estás, é das mais-mais:
mais livre, mais solta, mais espontânea, mais criativa, mais inconsequente, mais arriscável logo, mais intensa, mais inebriante, mais marcante.
Mais feliz.
Daquelas em que as novidades acontecem a bom ritmo, empolgam e se guardam.
Para sempre.
Eternizam-se.

Minha Doce Neta, Menina que em meus olhos habitas, o que mais quero é que agarres este tempo com vontade e alegria, e que nele vivas, por querer teu, muitas experiências, experiências essas que informarão, sementarão e cimentarão teus próximos anos.

Os adultos são uns tontos. Vê lá tu que até aqui queria ver-te sempre pequenina, sempre ao alcance de um braço e de um abraço, mas agora, ao olhar-te assim como estás, contenta-me bem mais ver-te crescer e a olhar de frente, confiante, tudo o que acontece.
Não te vejo mais como uma menininha, mas como uma menina adolescente que aos poucos toma conta de si.

Uma Menina,
Que com uma mão afaga as bonecas e com outra folheia um livro;
Que com uma mão constrói bonitos castelos e com outra refaz outros;
Que com uma mão  comanda e com outra executa;
Que com um pé tateia caminhos novos, com outro corre lesta e confiante;
Que com um olhar compõe um arco-íris, com outro perscruta horizontes;
Que se olha no espelho e sorri satisfeita com o que vê;
Que com um ouvido sussurra os primeiros(?) segredos e com outro atenta em tudo o que a rodeia;
Que brinca com os tachos de faz-de-conta e condimenta nos da cozinha a sério;
Que com a porta do quarto fechada se isola do exterior e com a da casa  semiaberta espreita o mundo;
Que cresce amparada à mãe e ao pai mas desafia-se contra eles;
Que xinga com a ‘peste’ do ‘baixinho’ mas sabe que ele será sempre seu incondicional amigo;
Que abraça as avós e adora seus mimos e carinhos;
Que dá um Xi ao de leve ao avô e a pensar noutra coisa…
Que se entusiasma com os m&m e m&c e quer estar no meio deles;
Que se esgueira com as amigas e se diverte com elas;
Que com um sorriso naquela cara linda encanta e com uma cara fechada contraria.
Em suma,
que experimenta e vive seu tempo-adolescente.

E são todas essas Ritinhas que me encantam, sempre, e se apresentam ao amanhã.

Adoro-te, minha Princesa.
Avô