segunda-feira, 30 de setembro de 2019

30 SET 2019 - Parabéns, Ritinha, minha neta linda.


Um dia na vida da abelhinha-obreira

Tardava!, finalmente às 13:05 o besouro fez-se ouvir em toda a colmeia obedecendo às ordens superiores da abelha-rainha. As obreiras, que se agitavam impacientes aguardando o sinal de partida, arrumam apressadamente os seus pertences, enceram uma última vez as asas, distendem as longas antenas, miram as patitas se estão apresentáveis, guardam o espelhinho secreto que de viés lhes confirma a elegância da silhueta, se não esquecem a sacola para recolha de mais néctares lá mais à frente. Rodam, então, o botão para outro on, e, confiantes, em enxame compacto, desabelham do conforto da colmeia da manhã esvoaçando esbaforidas para a próxima tarefa, sim, porque a jornada ainda vai a meio.

Cá fora o zangão perscruta por entre as demais um olhar meigo e doce saído de uns olhinhos límpidos tornados rapidamente brilhantes. Um smile cúmplice estabelece o contacto.
Satisfeitos com o reencontro, carrega o zangão, alegremente, a mochila com todos os pólens da colheita da manhã, enquanto conversa com a abelhinha-obreira sobre os pormenores do seu recheio.
As respostas gotejam-se em baixos e curtos zumbidos saídos já de outro plano de voo, e ambos iniciam nova rota com destino prometedor.

Já noutro cortiço, reconfortam-se com o doce mel que a abelha-mestra lhes preparou enquanto azoina com o zangão e, juntas, desafiam-no para brincadeiras por entre sorrisos marotos.
Ainda lambuzando os últimos pingos entremeados com atualizações on line - tentando assim perceber como vai o dia noutras colmeias -, prepara nova camuflagem com que enfrentará mais colheitas de bons pólens, não sem antes produzir alguma cera…

Estou pronta, zangão. -  chama já acelerada para mais uma etapa.

Em voo apressado, mas ainda com tempo de atualizar o diário com a Rainha-das-rainhas e Zangão-dos-zangões, segue para novo floral onde a esperam saborosos néctares, desaparecendo por entre a ramagem.

Enquanto isso, o zangão vela por perto aguardando o desfecho desta investida.

Decorrido um par de horas a abelhinha reaparece sorridente como se ainda manhã fosse, trazendo deste jardim bué de novidades para partilhar com as outras, desde logo com as da colmeia principal.

Porque este dia já está a querer despedir-se, tomam seu último voo ziguezagueando por entre todas aquelas que com o mesmo fim se deslocam para o aconchego noturno dos cortiços-sede, não desperdiçando um derradeiro néctar que sabe existir no favo da abelha-mestra.

São horas de regressar ao cortiço onde repousará deste belo dia. Aí chegada, abraça as abelhas já presentes, acompanhado do relatório detalhado do desgastante dia. Dirige-se então para o seu casulo despedindo-se com um confiante e curto ‘até amanhã, zangão’.

11 Anos
30/09/2019
Parabéns, Rita, minha neta linda.
Teu avô que te adora.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

“Olha a bela sardinha vivinha”, Ó freguês



“Olha a bela sardinha vivinha”, Ó freguês.
         - ecoava o pregão pelas redondezas!

De tão alegre e convidativa, a pregoeira leva atrás de si de imediato todos os glutões que logo logo ajustam seus afazeres e respondem com um siiiiim entusiasmado: vamos a elas.

Cedo começa a vislumbrar-se o carvão a crepitar e a estrelejar no fogareiro anunciando como foguetes festivos que o dia 31 se aproximava.
O cheirinho da sardinha na brasa não se fez esperar: subia, subia, subia. O ar enchia-se dos seus bons odores e, levados por ventos amigos, saltitam de casa em casa fazendo as vezes de aperitivo.

Ainda a uma boa e desesperante distância do dia D, a mesa começa a ganhar forma e o menu clareza.

- Uf, estava a ver que nunca mais se chegava a esta parte?
          - surdinavam algumas vozes.

As tarefas foram rapidamente assumidas sem tréguas para ninguém:
01. Carla Rodrigues - bola carne e doce;
02. Grace - paté de atum, tostas, azeitonas;
03. Carla Guedes - mousse de chocolate e pudim;
04. Carla Silva - fruta;
05. Branca - sardinhas, tomate e pimento;
06. António - idem;
07. Madalena - mousse de manga e salgados;
08. Jorge - vinho verde tinto, branco e broa;
09. Eduarda - idem;
10. Envergonhado(a) - idem;
11. Maria - casa e logistica;
12. Raquel - boa vontade.
* numa disputa acesa - já o homem do gong levantava o braço - a corrida pelo caldo verde foi ganha pela dupla Grace/Jorge em que o Jorge se comprometeu em levar o chouriço.
Nota
Lamenta-se que a Eduarda, o(a) Envergonhado(a) e o António tenham sido tão sobrecarregados e logo com o mais difícil de se conseguir.
… é que não foi nada fácil encontrar o tal de ‘idem’!

- Assim sim, assim está melhor e já se começa a ver qualquer coisa ainda que longe. 
- Demasiado longe, aliás!      
          - barafustam, de mãos nos bolsos, os mais afoitos.

Entrementes, continuavam a ouvir-se os pingos fumegantes das sardinhas a sumir abafados na cinza quente e o cheiro das assadas a colar-se aos convivas, mantendo incandescentes os olfatos e alvoroçados os apetites.

… e os dias iam-se arrastando penosamente, com os recipientes XL a aparar os excessos salivares.

- nunca mais é sexta!?
          - ouvem-se vozes em crescentes decibéis já próximas do desespero (e mãos nos bolsos).

Depois de longa espera, muita saliva desperdiçada, menus feitos e refeitos e acertos de última hora (viva o WhatsApp), eis chegado o grande dia.
Finalmente!

Uma correria desenfreada acelera os disputados UBER para o vernissage que as anfitriãs amigas em boa hora dispensam. Sem grandes delongas ou conversas fúteis, apressam-se para a mesa a fim de  resgatar apetites já descontrolados, sim, porque o almoço fora estrategicamente frugal.

Olhares de águia, quiçá de abutre, inspecionam as iguarias expostas e, confrontados com tamanho requinte e qualidade, paralisam na indecisão: começo por onde?
          - hesitam, depois de um curto ah! de incredulidade (e mãos a sair dos bolsos).
A dúvida, porém, rapidamente se dissipa e a mão tremelicante alcança sorrateiramente a primeira prova, seguida de um ah! de descompressão.

Os profissionais da grelha, com indumentária desmerecedora do ofício, tomam conta do seu posto e de lá, com um olho na grelha e outro na mesa, imitando a sentinela (deixemos o cigano em paz), vigiam o movimento das tropas… não vá alguém, explorando distrações alheias, adiantar-se na conversa, sim, porque os acepipes tentavam e estavam ali mesmo à mão de semear.
Todo o cuidado é pouco
          - como soi dizer-se.

- Sai-te, melga!
          - esconjura-se.

Inesperada e vindo diretamente do IEFP aparece o Miguel, ainda sem carteira profissional, para aprender com os mestres este difícil ofício de Assador. Todavia, as lições recebidas foram tão superiormente ministradas que recebeu logo ali o diploma e o aplauso do júri.
Júri que, de copo numa mão firme e outra a gesticular para disfarçar o pedaço surrupiado, atentava no fogareiro e no aprendiz. E, ao ritmo do abanador,  abanavam-se dicas científicas sobre a ‘arte de bem assar sardinhas’:
… o abanador?
… o carvão está a morrer.
… está muito forte!
… cinza, onde está a cinza?
… mais carvão.
… aquela está a queimar!
… alecrim.
… estão a ficar no ponto.


          … dicas aproveitadas para um popurri de divertida cavaqueira.

As sardinhas colaboram e apressam-se em dar por terminado o assamento… não vá dar o chilique a alguém!?

Ouve-se a curta distância:
- Saia uma ali para o canto!
- Mais outra para a ponta!
- A dali, sai ou não sai, carago?

- Uf, até que enfim!
- Sardinhas para a mesa (ó mãos para que vos quero?).

E o ataque às ditas começa, cada qual competindo como melhor sabia. Uns preferiram vê-la pingar na broa e lambuzar os dedos, outros empunham faca e garfo, não se sabe ao certo se para comer mais, se para manter em sentido um ou outro atrevido!... (a sentinela continuava em estado de alerta).

Os copos rodam e tilintam à passagem, e o verde fresquinho cumpria sua nobre função  de temperar os mais acalorados.

Nota:
Dizia um velho receituário popular, entretanto desaparecido - um dia o Borda d'Água (1929) far-lhe-à menção! -, que 'não se deve beber água, tão-pouco chá, coca ou sumos nestas ocasiões', por não ser boa companhia para as sardinhas. Fartas de água andam elas!
          - Diz-se por aí à boca cheia que o povo tem sempre razão!!!...

Como que por magia, instalou-se de repente um prolongado silêncio gustativo…
- Jorge, diz qualquer coisa!?
          - interrompeu o desmancha-prazeres.

One by one, sardinha sim conversa não, ficou o mar mais desfalcado... e estas foram-se porque estavam, como dizer, de estalo.
Ah, e os glutões saciados, pois claro.

Mais uma Nota
melhor dito, três, para referenciar o i)tamanho e qualidade dos tomates do António por ii)contraponto com as minudências mas bonitos dos do seu neto e iii)pela surpresa do chouriço do caldo verde: afinal o Jorge não trouxe o dele por, alegadamente, não estar própria para consumo. Desculpas?

Era chegada a hora de escalar o patamar da degustação. Atiram-se com a gulodice inicial para os doces prazeres e frutas altera-paladar, já antes marcados pelo olhar de águia… ou abutre, conforme o caso.

- 'Alto e pára o baile': quais foram as mãos de fada que prepararam estes pitéus?
- Beijamos essas mãos, Senhoras.
          - ouve-se em coro afinado.

Foi um 'vê se te avias'. Pouco resta ou não fossem estes comensais afamados bons garfos com provas dadas por ‘terras do fim do mundo’, - esse mesmo o de Preste João.

O cafezinho reanima e leva a conversa para locais distantes e quem sabe se por lá não se encontrarão.

Um tchim tchim tardio selou o dia com um sorriso colectivo e projectos no ar, oxalá que para breve (Novembro).

Aconselhados por outras estrelas que lá em cima já cintilavam, recolheram-se estas ao seu espaço habitual de onde continuarão a brilhar.

Bjnhs à Maria Inez e à Raquel pelo trato principesco e pelo prazer proporcionado nesta linda tarde de verão.
Abraço para todos nós que elegemos a alegria como condimento certeiro e indispensável de Bem Saber Viver.

Um forte Viva aos 'Viets e Associadas' - v&a


sábado, 27 de julho de 2019

Parabéns, Meu Pequenote.


8 Anos! 
Parabéns Simão, meu Pequeno-Príncipe, meu neto lindo e dono de uma boa parte do meu coração. Tens lá, imagino que já saibas, um lugar cativo nas poltronas da frente. Ou preferes ficar esparramado como em casa? Ok, seja.

8 Anos não é nada, mas é tanto…
Ficaste grande muito depressa, meu pequenote!, mas estou a gostar e muito de te ver crescer e crescer contigo, embora no meu caso crescer… bem, deixa isso para lá.
É verdade: remoço contigo todos os dias e, quantas vezes, até amenino; mas observo, com um misto de alegria e contrariedade, que cada dia menos pois tu estás a fugir-me a olhos vistos. É que uma parte de mim quer que cresças e outra nem por isso.
Vá lá entender-se os grandes, não é!?

E como gosto de te ver assim alegre mesmo que a fugir-me!

Como gosto de te ver correr atrás da bola a disputá-la a todo o gás como o Cris! Ou será Dybala?
-Está a chover, Simão, põe este agasalho! - preocupo-me.
-Não, gosto de andar à chuva! - atalhas.
E como gosto de te ver todo molhado e sujo de lama, correndo indiferente, sem medos, contra as bátegas perseguindo a pinchona!

E como gosto de te ver arrancar, travar, deslizar nos patins, com todo o ringue e companheiros no radar, de olhos colados na bola já dominada, a avançar veloz como um raio e stickar forte e certeiro para o fundo da pequena baliza!... e ver a rede impotente a desmaiar!
E com que regozijo contagiante colhes os louros dos golos a todo o campo!
Aquele teu rodopiar triunfante, braços abertos, olhar suspenso na felicidade, o beijo repenicado no stick apontando às estrelas… está demais! Hilariante e contagiante.
Sabes que nas bancadas todos sorriem ao ver-te festejar assim e vibram contigo?
‘Bravo, Simão’! - ouve-se em coro.
Claro que sabes.

-Sai, não quero ajudas. - reclamas.
E como gosto de te ver a querer caminhar sozinho!

E como gosto de te ver sair da porta da escola com o kimono todo aberto, ponta abaixo ponta acima, transpirado, a escorrer água, exausto, fralda de fora, mochila e casaco a varrer o chão, quase descalço… a atirar tudo em voo para mim, abraçando-me sorridente e cansado mas ainda com (muita) força para um directo que, aliás, encaixo sem te dar hipóteses!
E logo: vamos? Vamos p’ró hokey? - reanimas-te!
E logo, logo: trouxeste o  lanche d’Avó?
E no caminho contas-me tuas histórias, as piadas novas, as peripécias do dia e de outros dias, os cromos trocados, os golos conseguidos no recreio ou mais um check-mate obtido numa jogada de mestre!

Como gosto de te ver assim!

-Hoje chorei na escola e nem sei bem porquê! - deixas sair.
E como gosto da tua espontaneidade!

-Eduardo, esta é a minha avó… que funciona muito bem.
E como gosto do teu humor desconcertante!

-Põe na TSF.
-tchiu. - pedes para ouvir o relato de futebol.
Ah!, prometo que da próxima vez que me levares ao Dragão não abrirei o bico.

E como gosto que tu gostes!

-Fazes-me uma massagem nos pés, Avô? - pedes. -Não sou massagista, Simão, mas posso tentar. - e faço.

E como gosto de ouvir-te cantar relaxado, no volume máximo, pela casa toda!… mas parece que tens faltado às aulas de canto!

Diz-se por aí que há avôs exagerados...
Será o meu caso?
Mas também quem não o seria tendo por perto um gaijo como tu?

Parabéns, meu lindo.
Sei que vai ser um grande dia e que o vais viver por inteiro com aquela garra e entrega total que te conheço.
Pois que assim seja.
Estarei por perto se não mesmo perto.

Abraço grande, meu pequenote, daqueles que dão a volta completa, enlaçam, apertam e fazem tremer a alma e o coração, como tão bem sabes dar,

8 Anos
27/07/2019
Parabéns, Simão, meu neto lindo.

Teu Avô - ‘El Inchadito’ - que te adora.






terça-feira, 16 de julho de 2019

'Pérolas do Báltico', com a PLV


Pérolas do Báltico, com a PLV  - 22 a 28 JUN 2019


Ora aqui está uma viagem que não preparei para além do mínimo indispensável: geografia, tamanho territorial, respectivas populações, PiBs e PPC.
De resto, a informação que me acompanha sobre eles não me motivaram o bastante para ir mais além. Por um lado a Finlândia, um déjá vu, tem uma visibilidade maior nos mídia e mais fácil de seguir, por isso; a Estónia, Letónia e Lituânia, por outro, são pequenos países, com a sua respeitável história, naturalmente, mas que não acrescentam interesse especial. Sabe-se que a Finlândia teve outrora problemas de monta com a Rússia czarista e comunista e que os três últimos, a acrescentar a isso, foram recentemente as estâncias balneares e refúgios da elite soviética, vivendo agora suas vidas agregadas à UE.


Preferi, pois, libertar espaço para a descoberta.

Não obstante a repetição relativamente à Finlândia, voltou a ser interessante reolhar alguns icons finlandeses da capital até porque as perspectivas das coisas alteram-se com os sedimentos que o tempo sempre trás.

Ver ou rever países do primeiro mundo, depois de conhecidos alguns do terceiro, redimensiona as perspectivas e reposiciona a escala valorativa. Enquanto que os primeiros se permitem viver a vida em estádios para além do valor da riqueza, os segundos labutam e lutam diariamente pela subsistência. Dos quatro, a Finlândia é o melhor exemplo disso (PPC 40 Mil), enquanto que os do terceiro definham exaustos, uns, e reinventam-se corajosamente, outros, para chegarem amanhã.


A Igreja da Pedra, símbolo da liberdade criativa arquitetónica e submersa na rocha para ficar indetectavel a guerras aéreas futuras, a Praça Central e a Igreja Luterana que de lá do cimo da colina a domina, as áreas lagonais, o jardim de homenagem a Sibelius (ícone nacional), continuam a ser os highlight em destaque a quem visita Helsínquia.
O ausência de movimento citadino - inesperadamente meio deserta provocado pela fuga das suas gentes para alternativas que os feriados das festas populares locais entusiasmam (ou a debandada habitual para a Estónia à procura da cerveja mais barata - via Ferry/2 Horas) -, foi um pouco desoladora. Gosto de sentir o pulsar do modus vivendi das pessoas e isso não aconteceu na medida desejada.


Estónia, Letónia, Lituânia
De há 70 anos para cá o mundo vive um período de acalmia e paz sem precedentes na história da humanidade sustentadas no equilíbrio militar nuclear existente entre as grandes potências.
Em alternativa à então habitual conquista territorial por via das armas, ficou mais dinâmica a via económica planetária com a abertura ao livre comércio feito em acordos bi ou tri-laterais entre grandes blocos. A luta de titãs que acompanhamos diariamente entre a China e os EUA - com a Europa meio adormecida a tentar entrar no ringue -, lembra-nos a cada minuto o funcionamento da ‘coisa’.


Os países com fronteira marítima e com portos de águas profundas sempre foram objecto de cobiça de terceiros quer para fins de lazer quer, sobretudo, como propulsores de ambição e poder com negócios de grande dimensão sempre em pano de fundo.
Os exemplos distribuem-se pelos quatro cantos do mundo e pelos séculos, com aceleração rápida a partir de 1.500 com a navegabilidade intercontinental e, mais tarde, com a capacidade construtiva de enormes e sofisticados barcos. A que acresce nos nossos dias os jumbos aéreos com capacidade e rotas transatlânticas.

As costas do Índico, do Pacífico, do Adriático e Bálticas, só para referir estas, foram das ‘eleitas’ para o assalto e com melhor relato histórico, também.

A independência de Portugal - com fronteira marítima - sempre foi um espinho cravado na ambição hegemónica peninsular Espanhola. Com o crescimento e consolidação do império colonial português o espinho aumentou a pressão e Espanha tentou na era Filipina a fusão dos dois impérios coloniais para, juntos, melhor concorrerem com o Britânico.

Estes três países bálticos não foram excepção. Com um rasto histórico muito similar, sempre pertenceram a alguém, nomeadamente Alemanha, Polónia, império Czarista e Soviético, o último.

Nos anos ‘90, com o colapso do comunismo, iniciaram seus processos de independência.

O trajeto das sociedades e do mundo - territorial e social - terá sempre um formato temporário: o futuro acontecerá com o passado por perto mas mutante. De que forma? Não há guru que o saiba.
Pensar que a Lituânia já teve um tamanho territorial de 1.000.000 km2 e que agora tem 64.000, é bem difícil de conceber senão à luz da rotatividade do poder. Mas assim foi e assim é. Portugal, no auge da era colonial, foi o primeiro império colonial mundial...
Pode-se apenas conjecturar sobre o que foram e o que são hoje: do resto a história falará.
Até porque o mais normal é olharmos para tudo isso com a força da vida vivida por cada um de nós e menos secular, portanto. O que foi, foi, o que será, será.


Voltando aos bálticos.
Em resultado desta interseção civilizacional ou colonial, a definição da sua arquitetura edificada e traço das cidades são marcas notórias que vão dos castelos medievais, passando pelos emblemáticos prédios soviéticos, aos modernos arranha-céus envidraçados dos grandes grupos hoteleiros, empresariais TI e financeiras mundiais.
Ou seja, para o bem e para o mal, coexiste uma panóplia assinalável de diferentes arquiteturas e culturas, bem visíveis em zonas específicas das maiores urbes.
Portugal neste ponto é bem diferente. A independência secular de quase 900 anos torna o país em geral mais homogêneo. As marcas deixadas por arquitetos estrangeiros são menores, mais dispersas e recentemente os nossos arquitetos dominam mais no panorama nacional (Portugal é o segundo país europeu com mais arquitetos).
A composição étnica de suas gentes, inevitavelmente, é uma mescla destas influências, com clara tendência para uma identidade física comum, mas ligeiramente diferente de país para país. O look de rua dos lituanos, principalmente das lituanas - porque o país é o mais rico dos três - é bastante mais cuidado e bonito.
Uma outra característica generalizada, muito em resultado deste passado, é o multilinguismo; a que acresce uma necessidade imperiosa do seu uso por força do crescente fluxo turístico internacional que a eles aporta.


Evidentemente que gostei desta viagem e de conhecer estes pequenos países tão pretendidos ao longo do tempo, mas… vem aí um mas!, ficou aquém das minhas expectativas quanto a novidades surpreendentes.
‘Pérolas do Báltico’ - slogan que as agências de viagens escolheram para propulsar a indústria do turismo - peca por um exagero de imagem. Os espaços entre cidades são excessivamente desertos no sentido desumanizado do termo e as ditas ‘pérolas’ são localizadas.
As ‘pérolas’ deixadas pelos invasores ao longo da história estão razoavelmente bem conservadas. Não sendo fácil a sua manutenção apenas pelos próprios, tendo em conta as suas pequenas dimensões territoriais e populacionais por contraponto com o enorme acervo existente, a Unesco e a UE estão a ajudar significativamente.
Obviamente o Mar Báltico, sua costa e suas águas a banharem todo o litoral poente é, de per si, a maior das pérolas como o é para Portugal o atlântico.


De toda a maneira estamos em presença de países do primeiro mundo e, para quem tem uma visão bastante abrangente e assente deles, não causa admiração este ou aquele aspecto por se tratar ‘mais do mesmo’, apesar de ligeiras e interessantes diferenças. Ainda bem que assim é mas, repito, não deslumbram em originalidade. Países ‘bien propre’ como dizem os franceses.

O turismo é um sector da economia florescente e com peso importante no PiB. Lá, como cá, há muita gente nele envolvida e atenta em prestar bom serviço. Ruas e praças são cuidadosamente ajardinadas surpreendendo quem chega com acolhimento florido, quase engalanado. Aqui, sim, são minuciosos.
      
Noites brancas
É nova e interessante esta curiosidade geográfica que os países mais nórdicos propiciam, pese embora o ritmo deste tipo de turismo lidar mal com noites em branco mesmo quando há ‘noites brancas’. Poder vaguear pelas ruas da cidade com crepúsculo tardio, noite adentro sem ajuda de candeeiros, ainda com luz do dia no ocaso, transmite uma sensação bem agradável de bem-estar, de não-noite, de continuidade, de sem-fim. E assistir ao reabrir do dia após um curto fechar de olhos, ainda mais.


Sem montanhas
Quando se quer olhar de cima estes países para ter deles uma visão mais ampla, esbarramos na planura da sua morfologia: sempre baixa. Esta observação parece tonta, mas não ter tido um ponto alto de onde pudesse captar uma visão encimada e panorâmica, mais global, criou uma vontade não satisfeita. Sem desmerecer, não obstante, as imensas e bonitas campinas verdes bem cultivadas ou os inúmeros lagos bem delineados.


Castelo de TraKai, Lituânia
Desilusão e encanto.
Tinha comprado a ideia que o turismo promove em imagens de um local idílico, paradisíaco: Castelo dos Contos de Fadas. E são-no, indiscutivelmente. Está lá tudo e muito mais que é necessário para isso: isolamento em ilha, acessos controlados, a imprescindível ponte, cercado por águas virginais, vegetação circundante de luxo, fortificação medieval em bom estado, torres de menagem perfeitas incluindo as janelinhas onde as princesas sonhavam e faziam sonhar, cores vivas da época… um encanto.
Então, o que é que desiludiu?
As falsas expectativas resumidas num único ponto: a foto ilusória que corre mundo para promover a visita.
A foto é aérea e mostra todo o castelo e ilha, tudo, num só look tridimensionado e encantatário.
Imaginava eu, então, vir a ter esta imagem real: descendo uma qualquer colina começariam, o castelo e a ilha, a revelarem-se aos poucos, resgatando eu o encanto em zooms sucessivos até à foto final, esta já ao nível térreo. E não, só pude aceder à final e de repente!

Pessoas
Quer pela ausência dos seus locais habituais de residência, quer por imposição da rota da viagem que levava, houve pouca aproximação e menos contacto com as pessoas e, por via disso, fica-se com uma ideia difusa e incompleta sobre o que são, como são; como agem no dia a dia. Apesar dos PPCs serem relativamente altos - bastante mais altos que o português - a sua distribuição pelas pessoas é menor, excepto para o setor TI. Os ordenados mínimos são na ordem dos 500€+ e os superiores pouco ultrapassam os 1000, incluindo funcionários públicos. Sendo que o custo de vida é superior e está, como aqui, inflacionado pelo turismo, o que obriga muitas pessoas ao duplo emprego.
Os apoios sociais são bons.


Segurança
Não é tema. Ao melhor nível.


Mercados
Espaços que gosto de visitar por aí colher mais alguma informação sobre o funcionamento dos países e das vidas das suas gentes.
Destaco o da Lituânia: vários e enormes pavilhões segmentando os produtos. Não são bonitos mas a boa luz disfarça-os e salienta os produtos expostos de onde destaco a variedade de peixe fumado.
Muita gente os frequenta o que me leva à ilação da sua preferência ou menor existência de shoppings.
Não é região para variedade de frutas. Vêem-se à venda essencialmente fruta vermelha importada: morangos, mirtilos, cereja, pêssegos, amoras, framboesas...
No exterior a ‘feira de custóias’ está em todo o lado.

Âmbar báltico ou prussiano, o ‘autêntico’.
São precisamente estes três países a principal fonte mundial do âmbar, com manufaturamento a precisar de restyling e comercialização por todo lado.
Uma alegria para a senhoras…


Se recomendo a viagem?
Sim, claro, principalmente para quem começa a conhecer mundo.

Um abraço para os casais Ana/Gordon e Mina/Manuel pela companhia animada, alegre e divertida.