quarta-feira, 31 de outubro de 2018

CATARINA DE BRAGANÇA, por Isabel Stilwell

Interessante.
Claramente uma escrita no feminino. E, se distingo o facto, é pelo simples facto - não tão simples assim - de haver menos publicações do género.

Sem pretensões a ver-se incluída na lista dos grandes novelistas - digo eu, e não me refiro à quantidade de livros vendidos ou de leitores (muitos) -, Isabel Stilwell, aborda a vida e o tempo de CdB pelo lado ficcional a que acresce algum talento para a escrita.

Os factos incluídos são do domínio público - a  simples Wikipédia os menciona -, mas reconstrói com eles uma sequência cronológica envolta numa literatura criativa, que se lê sem necessidade de grande empenho. Leitura corrida num ritmo calmo.

Com este seu cunho light, Isabel Stilwell, traz-nos para aqui esta figura histórica retocada com os usos e costumes, virtudes e defeitos de então; os enredos cochichados nas quentes e produtivas alcovas, as intrigas segredadas nos luxuosos salões e nas sombras dos longos corredores palacianos, e as políticas de alianças transnacionais que regiam as monarquias europeias, com destaque para aquelas onde Catarina viveu e/ou reinou.

Aqui e ali um pouco de exagero ao redor de Catarina, mas o essencial, sim, está cá.

A história em si, das mais recontadas entre nós - em especial a do ‘five o'clock tea’ seguida da da geleia de laranja amarga (mais a do uso de talheres, do tabaco, dos pratos de porcelana, da ópera) - não surpreende. A novidade está na forma.

[Ainda hoje se exportam para Inglaterra laranjas amargas Andaluzas (cuja produção observei recentemente na região de Sevilha | 30.000 árvores). Catarina servia esta geleia amarga às inimigas e concubinas, ficando com as doces para si e amigas]

Com sua alma feminina a olhar para a ponta da pena, apresenta a época e CdB numa roupagem sem vincos; dizendo melhor, onde há arestas - e estas décadas (1640) foram turbulentas - a narradora calça a luva da delicadeza e afaga-as. A todas.

Animado por um sorriso-surpresa que o detalhe da leitura provoca, torna-se agradável viajar por estradas de pisos suaves, floridas e rendilhadas, ao volante de uma mulher.
Há certos pormenores - nos adereços, por exemplo ou na caracterização dos personagens -, que um homem desconhece e desmerece mas enriquecem. É um mundo diferente.

O tema é ‘Catarina de Bragança’, Rainha Consorte, sabemo-lo desde a primeira página; isto é, relega outros intervenientes trazendo-a para o centro da ação.
Como um escultor dedicado, vai moldando o seu perfil com as alegrias e contrariedades  de uma Princesa/Rainha em crescimento; elege provações e provocações mais que normais por que passou, doseando-as com espontaneidades da idade, de forma a dar-lhe um carácter temperado mas resoluto para quando mais tarde dele vier a precisar. E é, segundo a escriba (e pelo que se sabe), parte da chave da sua ascensão e longevidade - 23 anos - como Rainha ‘Consorte’ de Inglaterra.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

'Volta ao Mundo', na rota de Andrew Marr

 
Andrew Marr, Jornalista, pessoa portadora de conhecimentos de história invulgarmente alargados e, mais que isso, articulados e sopesados, com um dom também raro de os transmitir (como quem conversa), propõe-se nestes seis livrinhos (tipo pocket books editados pelo Expresso) ser nosso guia numa nova incursão, a sua, pelas causas e consequências que explicam a evolução, a estagnação ou o retrocesso da história do mundo, focando-se, principalmente, nos cruzamentos mais decisivos do andamento da ‘passada’ humana.

Começa bem lá trás desde antes do mundo ser mundo, passa pelo Big Bang, pelo homem caçador-recolector, pela invenção da agricultura e vem, step by step, até aos nossos dias.

Sustenta sua exposição em evidências arqueológicas, linguísticas - com confirmações pessoais em muitos locais -, e em historiadores que respeita mas atento a todos.

Não afirma nem impõe sua visão mas fá-lo de forma tão direta, tão animada, tão informal mas simultaneamente tão catedrática que (aos menos letrados) deixa pouco espaço para a dúvida; anestesia-nos facilmente, 'perigosamente', com a lógica das suas razões e deduções.

Pega em toda a amplitude histórica até onde consegue ir (milhões de anos) - até onde existem vestígios conhecidos e analisados - e a cada passo cruza-a com os dias de hoje, com comparações ou colagens intrigantes; ou não.

Apreciei particularmente a descrição (que retive como informação) que carreou para aqui entre os séculos V e XV (fim do império romano e início dos descobrimentos) por ser um tempo que não me tinha despertado especial curiosidade - exceto para o período negro da Peste Negra - mas que de futuro acompanharei com mais atenção.

Uma escrita viva, ágil, coerente, concisa mas abrangente, com o léxico certo ao contexto; dispensa o floreado literário a favor do foco na narrativa.
E o leitor agradece.

Ajuda a recolocar os acontecimentos de hoje na linha do tempo do caminhar das sociedades.
Valoriza os ‘binóculos’ e os ‘trióculos’... com que retro-olhamos tudo o que nos envolveu (e envolve).

Dá:
Outras perspetivas, menos imediatistas e menos aceleradas;
Mais compreensão para o assentamento das suas causas e consequências;
Equidistância do frisson das notícias que poluem a espuma dos dias;
Mais, fica aumentada a noção de inclusão e pertença, de agente e de passageiro.

Sublinho a sua tão tenebrosa quanto verdadeira asserção - com demonstração milenar - de que “a seguir à guerra vem a prosperidade”!
Tal conclusão, barra, alerta, deixa qualquer um pensativo, inquieto e mal disposto; ou não.
Ao que parece é uma verdade histórica confirmada com a qual teremos de lidar.

No fim desta longa e trepidante viagem pelos quatro cantos deste nosso planeta, uma afirmação categórica posso publicitar: foi uma bela viagem, uma viagem muito vívida, por uma outra rota da história do mundo e do homem.

O último livrinho, o VI - já sobre o século XX e XXI, mais sobre os nossos tempos, os dias de hoje - tem capítulos verdadeiramente esclarecidos.

Os factos para ali selecionados resultam quase sempre:
do rolar imparável da nossa bola de neve coletiva, umas vezes;
do caimento das pedras do dominó, tantas vezes.
Raramente são fruto do acaso ou da genialidade de alguém; antes da distração ou alheamento de muitos.

A China justifica uma nota especial.
Desde sempre a China teve uma posição cimeira no pelotão mundial e por várias vezes abocanhou a camisola amarela em muitos domínios.
Mais recentemente, e depois do período negro Maoísta - lá, nessa era, morreram de fome 38 milhões de pessoas -, abriu as portas da economia ao exterior para não mais as fechar.
A expansão subsequente é galopante; a dependência mundial da sua pujante economia é preocupante.
Oxalá não se torne asfixiante!

Prevê-se que já em 2020 a economia chinesa ultrapasse a americana (hoje, a americana é quatro vezes maior que a chinesa).
A sua percentagem do PiB para o reforço do armamento militar cresce todos os anos… e é já o segundo maior orçamento mundial para este fim, depois dos EUA. A sua capacitação nuclear, militar - sobretudo aérea e naval - tem crescido exponencialmente.

Lembra Andrew Marr:
"A seguir a uma derrocada económica ainda fica dinheiro para a guerra".

Este crescimento desmesurado chinês, sim, é um problema para terceiros.
A ausência de democracia como o ocidente a entende (imprensa livre, controlo eleitoral aberto, pesos e contrapesos institucionais que a calibrem), um presidente todo-poderoso - Xi Jinping / comunista(?) - a torpedear o modus operandi mundial -, está a levar o ocidente em geral para a sua dependência e subserviência.
Até que ponto?
O ocidente ainda irá a tempo, já não direi de inverter, mas de atalhar o advento do descalabro?

Andrew Marr reserva as últimas páginas onde se esforça por libertar algumas notas de otimismo e esperança no futuro; não melhor, por não ser mais viável, mas pelo menos igual ao que temos.

Para isso, todavia, muitas e muitas ações concertadas e visionárias a nível mundial têm de ser implementadas.

Outros títulos que daria a esta mesma obra:
Sinopse da história do mundo
História do mundo concatenada
Time-Lapse da história do mundo

Copy/Paste dos livros:

«[...] a história [...] é o tédio interrompido pela guerra.»

Derek Walcott

«Escrever uma história do mundo é algo ridículo. A informação é demasiado [...] as probabilidades de erro tremendas. [...] não ter uma ideia da história do mundo é ainda mais ridículo»

Andrew Marr

«Da Yu (2.059 a.C.), rei dos Xia, China
Tornou-se rei dos Xia porque adquiriu esse direito ao organizar o povo para seu próprio benefício. [...] em geral Reis e imperadores trazem a opressão [...] grupos de operários a erguerem represas, mas avançam para muralhas fortificadas, exércitos e cobradores de impostos. [...] esta imposição de autoridade continua a ser melhor do que a desordem. [...] os monarcas são melhores do que a alternativa»
Andrew Marr

«Ninguém é suficientemente louco para optar pela guerra em lugar da paz - na paz, os filhos sepultam os pais, mas na guerra são os pais que sepultam os filhos»

Heródoto, séc V a.C.

«A história, no seu sentido convencional, é sobretudo feita fora de casa. Lá fora, os generais montam seus cavalos e os marinheiros içam o seu velame. Nas oficinas, os inventores retalham, torcem, mordem o lábio e garatujam. Na rua, pregadores vociferam e os negociantes exibem constantemente algo de novo. Contudo, a história não fica verdadeiramente feita até ser sentida dentro de casa. As grandes mudanças são as que se sente em volta da mesa de jantar, ou no leito do enfermo. Por vezes a casa fica num novo continente, arde de alto a baixo ou é abandonada. As grandes descontinuidades da vida humana, a que, tomadas no seu conjunto, chamamos «História», são aquelas que têm um impacto direto no modo como nós - a massa dos humanos - vivemos. E onde vivemos, em geral, é em casa»

Andrew Marr

«Uma vez derrubada a velha autoridade - por mais intolerável, surda à mudança, esclerosada e desprezível, raramente está disponível uma nova ordem educadamente à espera nas alas, mais racional, mais humana, mais virada para o futuro»

Andrew Marr

[O século XX] foi um século de notório e imenso paradoxo. A matança
foi maior do que nunca. Em números absolutos, ultrapassou até as dos Mongóis, todas as catástrofes epidémicas decorrentes da invasão europeia das Américas e todas as guerras precedentes. Esta matança deu-se porque houve líderes a afirmarem-se com a promessa de aperfeiçoarem radicalmente a humanidade, e poderem exercer um poder quase total. O «século mais sanguinário da história» tornou-se lugar-comum da disciplina. Contudo, é contestado, entre outros, pelo cientista Steven Pinker, que faz notar que os números terrivelmente elevados de mortes decorrem em parte dos muito maiores números de pessoas vivas: não se podem matar pessoas que não existam. Se a contagem de vítimas for ponderada pela população, os tempos modernos já não parecem tão maus. As conquistas Mongóis (já descritas), a revolta muito violenta na China do século oitavo, as conquistas de Tamerlão, a queda da antiga Roma e a derrocada final da dinastia Ming - todos estes eventos mataram proporcionalmente mais do que a Segunda Guerra Mundial.
Além disso, o nosso conhecimento da violência recente, fotografada, contabilizada, filmado e registada em diários, memórias e discursos, é mais pormenorizado e mais vívido do que o nosso conhecimento da violência da África do século XVI, por exemplo, das aldeias medievais franceses ou dos impérios da antiga Coreia. Esta «miopia histórica», defende Pinker, encoraja-nos a ver o passado com demasiada brandura e a nossa história recente com mais emoção. Por razões  especificamente históricas, com fracas probabilidades de se repetirem, o século XX assistiu a uma guerra de aniquilamento entre Alemanha de Hitler e a Rússia de Estaline que, tendo-se alargado a grande parte do mundo, terminou com recurso a armas nucleares.
Tal não significa necessariamente que as pessoas se tenham tornado mais violentas ou perversas. Na verdade, afirma Pinker, quando se contabilizam pequenas guerras, violência doméstica, violência contra crianças e a velha crueldade para com os animais, os sacrifícios religiosos, a escravatura e o crime violento, as pessoas estão pelo contrário a tornarem-se menos violentas e «melhores». O mesmo acontece em África, que tem sido particularmente atormentada por guerras nos tempos recentes. Sociedade de direito, nas quais as mulheres dispõe de mais autoridade e que estão vinculadas por tratados internacionais (e dissuadidas de desencadearem guerras tremendas com armamento nuclear), produzem estilos de vida mais afáveis. Em apoio de Pinker, o investigador norte-americano Matthew White, que cunhou o termo «atrocitologia» para explicar a sua graduação de acontecimentos mortais, chama a atenção para o facto de, ao longo do século XX, mais de 95% de todas as mortes se deverem a causas naturais.
Trata-se de um aspeto crucial, que deverá ser enfatizado desde o início. A grande maioria de nós passa a maior parte da vida no que chamo «as calmarias», esses períodos prolongados de tranquila estabilidade social. Depois, morremos de doenças na velhice. Medicina mais avançada e melhor alimentação, água mais pura e um policiamento mais eficaz promoveram um enorme aumento da esperança de vida, bem como um imenso (e insustentável) crescimento populacional; assim, também as calmarias se prolongaram por mais tempo. Para dar só um exemplo: diz-se que, sem a descoberta de Fritz Haber, em 1919, de como fixar o azoto para produzir adubo sintético, dois mil milhões de pessoas hoje vivas não estariam cá. E nalguns países que sofreram fomes medonhas - sendo a China o exemplo mais gritante -, o século XX testemunhou uma explosão de prosperidade material e oportunidades. Muito mais gente levou vidas melhores e mais pacíficas no século passado do que em algum momento anterior. A par da chacina das guerras industriais do século XX e da ameaça da guerra nuclear, temos de ter presentes os tempos bons proporcionados a centenas de milhões de pessoas que viveram a paz e a abundância numa escala sem precedente histórico, nem mesmo durante a «Paz Romana» do antigo Império. Por isso, também o melhor dos tempos.

Andrew Marr

domingo, 30 de setembro de 2018

10 Anos! Que idade mais linda.

10 Anos!
Que idade mais linda.
Olá, minha Ritinha, minha neta linda.
Parabéns com 10 Bjnhs na tua bochecha rosada e Um Xi - tamanho 10 ou maior - no teu coraçãozinho, maior a cada novo dia.
Vou revelar-te um dos meus segredos e fazer-te uma proposta.
O segredo:
que tenho algumas dores com o teu crescimento.
A proposta:
que fiques aí nos 10 anos.
É verdade, os grandes têm, por vezes, desejos bem estranhos.
Estes teus 10 primeiros anos foram super alegres e animados, sempre muito preenchidos por momentos bons e bonitos;
… e tantas coisas aconteceram! 10 Anos cheiinhos delas!
(tu, melhor que eu, saberás enumerá-las e guardá-las)
… mas aconteceram muito depressa! Até me aparecem como um daqueles vídeos que fazes em time-lapse!
Foste sempre uma menina muito querida.
Estar por perto, acompanhar cada milímetro do teu crescimento, tem sido muito criativo, divertido e com momentos muito vívidos e felizes.
Daí o segredo e a proposta.
10 Anos!
Que idade mais linda.
Sabes? que dou comigo - como fez Gepeto com o Pinóquio - a querer fazer de ti uma escultura, não de madeira como a dele, mas de cera, assim menina, e esculpir bem devagar cada traço desse teu rostinho tão lindo onde gosto de repousar o olhar.
E o que eu tento melhorá-lo!?
… mas olha que não consigo. Já desisti. Cheguei à conclusão que não se pode melhorar o que já é mais que perfeito e que qualquer retoque, por mínimo que fosse, poderia alterá-lo; e isso não: está muito bem assim.
Por ser de cera, não durará muito: vai derreter-se rapidamente e dar lugar aos poucos a uma menina a sério, sempre bonita, que vai continuar a crescer e a encontrar coisas muito giras e interessantes que te vão cativar mais e mais.
E vou procurar estar sempre por perto para assistir a todas essas descobertas.
E, já sabes, my iPhone is always on.
10 anos!
Que idade mais linda!
Mais um Bjnh e um Xi do teu Avô ‘chato e irritante’, que te adora.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

18 Anos | Parabéns Gonçalo

My Goodness! 18 anos! Como é possível já teres chegado aqui!?

Ainda ontem! na praia do Barril eras a nossa mascote de serviço preferida e, imitando as brincadeiras dos graúdos - que com o teu ar de bebé, os teus caracóis louros e olhos azuis encantavas -, gaguejavas: “Pinto da Costa olé [...] Pinto da Costa vai pró c…”.

Hoje já dizes o slogan completo ou melhor preferes outro porque esse, ao pintá-lo de azul, fizeste por esquecê-lo.
E que cor feiosa essa; há outras tão mais bonitas!

Sabemos que tens uma segunda cor de opção: branca e preta; não axadrezada mas riscada e no pavilhão desse clube tens crescido não só fisicamente (faz favor de parar de crescer: 2,01 m está de bom tamanho.), mas como gente. Até a tua Câmara ao eleger-te como ‘Atleta Revelação do Ano’, reconheceu tua progressão. Ficamos muito orgulhosos por ti e por nós.

Estás um Homem.
A penugem de pêssego que espreitava e aloirava o lábio superior e que até agora te ameninava, deu lugar a essa promessa de bigode que ajuda a confirmar a tua chegada à adultez.

Pois sê muito bem-vindo.
Nós que aqui estávamos por ti aguardávamos.
Não esperes, porém, que te abramos as portas, até porque lhes desconhecemos as chaves. Tu próprio o farás e vais ver que lá dentro encontrarás novidades bem interessantes. Um mundo delas.
A cada dia haverá nova chave para abrir nova porta. Com a tua inteligência, tua garra e teu bom senso, estou seguro que descobrirás sempre a certa.
Atenção ao aviso no chaveiro: ‘aqui não há chave mestra’.


Lembra-te da tua bisavó Ana: o quanto teve de procurar até encontrar as chaves certas? e quantas portas com elas abriu? para chegar feliz aos seus, quase, 101 anos.
E não estavam em bolso alheio.
Não esqueças também teu bisavô Avelino: ‘foi milagre ter nascido no meu dia d’anos’, repetiu até aos seus 95, orgulhoso e vaidoso de ti.
Gostavam ambos muito do seu primeiro bisneto.

E chega de lenga lenga pois o dia é de festa.
Vai e festeja até mais não poderes.

Lá mais para o final do dia, antes de tombares para o lado exausto de cansaço mas ainda com o Sol bem alto para aquecer os próximos:

i) Tira uma bonita foto sozinho no primeiro dia dos 18 pois essa foto falará com o futuro e mais tarde com o passado. Quem sabe se não regressarás a ela muitas vezes;

ii) Tira outra com os Papás e o Mano pois foram e continuarão a ser teus grandes amigos e main suports para tudo.
A tua Mãe ficou bem? Satisfaz lá a vaidade dela por ter um filhote como tu: ‘bota’ aí um special smile, vá;

iii) Mais uma, bonita também, com teus quatro avós para quem nunca crescerás e ao colo de quem sempre caberás (faz uma fotomontagem e inclui o que se ausentou).
Vê se a avó Mila fica bem. Sabes que depois de a mostrar a todos a vai encaixilhar e pôr na mesinha de cabeceira por um bom tempo; e que adormecerá muitas vezes contigo aconchegado naquele grande ninho açucarado - também chamado coração - onde estamos todos.

iv) Vai mais uma? Bonita, claro.
Então pede aí a alguém que tire uma em HD, um Wallpaper com todos nós, os m&c, os 35. Fica aqui no nosso meio pois os carinhos são hoje, merecidamente, todos para ti.
Hoje és o maior; duplamente.
… não não não, não te baixes, não é preciso, nós já estamos em cima do banco.

v) Ainda falta a dos amigos.
Tira uma em formato panorâmico para que os apanhes a todos, mas deixa um espaço em branco para que novos possam entrar.
É que uma foto dos 18 anos abraçado por todos eles tem mais piada.
Claro que amanhã haverá mais, mas os abraços de hoje sugiro que os guardes num local secreto e seguro, como de um tesouro se tratasse, e reusa-os se precisares. O meu está lá de entre os primeiros.

Gonçalo ou Gonçalão? Hoje para nós serás … ão e … inho; e GoGó. Gostamos de todos, todos te ficam bem. Amanhã: Gonçalo, simplesmente. … ah, e continuarás a ser o Maior.
    —                     —
| 18 | Parabéns | 18 |
    —                     —

Bj do Tó
Hoje também quero um abraço forte e caloroso; para guardar.


quinta-feira, 26 de julho de 2018

26JUL'2018 - Dia dos Avós (Post FdQ)

“Eu gosto muito dos meus avós.
Eles são muito fixes e muito meus amigos. Brincam comigo, são alegres e divertidos. Ficam felizes de me verem a fazer o que gosto e fazem comigo, mas eu faço melhor.

São muito valentes, têm muita força, dão-me um colinho bom e também passeiam sempre agarrados à minha mão. Mas eu escolho sempre o melhor caminho para eles.

A avó faz comida muito boa (melhor que o avô, mas não lhe digo para não ficar triste), que como toda, até a sopa. E gosto que sejam eles a dar-ma enquanto espreito a televisão. Dão-me os bocadinhos melhores e mais doces que eu bem vejo.

Quando chego a casa deles ficam tão contentes que até parece que já não me vêm há imenso tempo.
Gosto muito do meu quarto porque tem tudo o que gosto, mas não eram precisas tantas fotografias minhas nas paredes...
Durmo muito bem ali na minha cama pequenina. Antes de dormir contam-me e leem-me histórias, muitas vezes as mesmas e eu gosto porque nunca as contam ou leem igual. Já as sei de cor e até fazemos, à vez, teatrinhos com elas. E gosto de adormecer com a mão deles na minha. Quando ‘chove’ de noite não ficam zangados comigo.
Também contam muito a mesma adivinha - aquela: ‘branco é galinha o põe’ - e rio-me sempre. Se calhar não sabem mais nenhuma mas eu quando for maior vou ensinar-lhes outras.
Cantam comigo as minhas músicas preferidas (um bocadinho mal), são muito carinhosos e dão-me abraços que doem e beijinhos barulhentos.

Eu sei bem a idade deles que é parecida com a minha só que eu não tenho brancas e eles não têm pretas, menos os da Avó que às vezes mudam de cor.
Põem os óculos quando estou com eles que desconfio que seja para me verem bem.

Mas não gosto e faço birra quando não me deixam ver iPad e televisão mais tempo pois acho que não é preciso apanhar tanto ar puro ou brincar tanto lá fora.

Mas eu gosto deles na mesma.

E hoje é o dia deles, por isso sou eu que os vou abraçar e beijar forte, como eles me fazem, só para eles verem o que é doce…
E também os vou proibir de ver iPad e televisão a ver se gostam…

Parabéns, Avós, gosto muito de vocês”

terça-feira, 26 de junho de 2018

… e foi noite de São João, no Porto.

Sem grande alarido, por desnecessário, a noite de São João foi chegando como uma lembrança agendada que chega ao fim e que traz na embalagem algo de ‘inevitavelmente’ a fazer, primeiro, para, depois, dar lugar à elaboração de um programa capaz de animar o folião e justificativo da longa espera.

Nas antevésperas escreveram-se as quadras ao Santo, regaram-se os manjericos, ‘perfumou-se’ o alho porro e a cidreira, encomendaram-se as sardinhas vivinhas e os pimentos, temperaram-se as febras e as bifanas;
montou-se o grelhador e comprou-se o carvão;
enfeitou-se o pátio e experimentou-se a iluminação;
subiram-se os adereços;
os palcos quase prontos, da estereofonia vai saindo: alô, alô 1, 2, 3 experiência;
os artistas da noite pigarreiam as gargantas para clarear a voz e driblam os últimos passes de dança;
afinam-se os instrumentos e testa-se o som.
Tudo visto e revisto: nada pode falhar.
Chegou o dia.
Vamos p’ra noite.


‘da Ribeira até à Foz’, aconselha o cantor.
Quisemos mais e, numa nova experiência sanjoanina, desenhamos um roteiro mais ambicioso: de Matosinhos até ao Metro da Trindade, pelas marginais.


Talvez porque o sol ainda fosse alto, nada na marginal marítima indiciava a grande noite: reinava um estranho alheamento, uma exagerada calmaria.

Na Foz, sim, nas primeiras tendas apregoava-se o martelinho;
as farturas fumegantes, as bifanas cheirosas, os pães com chouriço a espreitar do forno, as sardinhas prateadas e o caldo verde já ‘matavam a fome’ aos mais afoitos e o ‘fininho’ borbulhante  incendiava-lhes a sede, prendendo-os às cadeiras.


Os caminheiros vindos de algures, de trajes leves e andar descontraído, começavam a preencher os espaços vazios da marginal fluvial em direção à Ribeira, carregando e brincando com os petizes rebeldes.

Ao contrário da incansável formiga a cigarra só queria folia, hoje mais que nunca. E era vê-las, vindas de todos os lados, a engrossar o carreirinho para a festa.
O percurso era longo e, antes que ficasse penoso, a sabedoria aconselha visitas frequentes aos ‘amigos’ das tasquinhas e ‘encorajamentos substanciais’ nos restaurantes e arraiais. O que fizeram sem o menor custo e com o maior gosto. E como eram porta-sim-porta-sim, tornou a caminhada bem mais curta, agradável e fareleira.

Rio abaixo, barcos rabelos furam a ponte, remexendo as águas e quebrando a pacatez deste bilhete postal um tudo-nada animado. Seus ocupantes, futuros foliões por certo, acenam alegremente para as margens contagiando a onda festeira em formação. Os barcos maiores deslizam pesadamente, sem pressas, ainda em direção à Foz. Seus passageiros, mais reservados, ‘bebem’ o fim de tarde no convés ou atrás das enormes janelas fumadas de suas cabines.
Quiçá, nem cerveja bebem!?


O crepúsculo ia apagando a luz do dia dando vez à aguardada iluminação de S. João.

Em terra firme, magotes dispersos sob o globo da luz dos candeeiros, refrescam as mãos numa ‘bejeca’ e olham contemplativos as brasas que sardinham o ambiente.

Mais à frente, na soleira da porta da garagem bem aberta - imitando um guarda em dia de descanso - um descamisado farfalhudo segura o cigarro mortiço numa mão, o aviva-brasas noutra enquanto zela pela mesa familiar que lá trás exibe as iguarias da noite, testando com regularidade crescente a frescura de uma nova cervejinha.
- Há mais cerveja no frigorífico? - atirou forte lá para dentro de modo a garantir o futuro imediato.


Aqui, ali e mais acolá grupos de jovens arredondam-se à volta do nada ou, saberão eles melhor que ninguém, para dar a partida ao namorico da noite de São João, selando nos brindes com as ‘lourinhas’ promessas eternas.

Já satisfeitos com os petiscos de ocasião, uma família de avós e netos, refestelados na porta de entrada, cumprimentam quem passa e acolhem sorridentes a fotografia.

Um jovem casal ansioso por mostrar à filhota ‘como deitar o balão’, ensaiava a proeza com pouca destreza e ainda menos sucesso.
Resolvi intervir com o meu douto-saber mostrando como se faz: “balão bem aberto, suporte da lamparina côncavo para dentro, chama acesa e… aguardar: o balão há-de ‘pedir’ para subir”.
Graças à dica ou não - que sei eu? - lá se foi o ‘sobe sobe balão sobe’ seguido daquele olhar encantado e ternurento da menina que o continuava a prender como se dos seus olhos azuis saísse a outra ponta do fio do papagaio. O pai orgulhoso do feito e crente da ajuda, agradeceu sorridente. Enfim, crenças.


No largo junto ao helicóptero, o primeiro arraial a sério: palco, cantante e bailarinas, lâmpadas tremeluzentes, iluminação a condizer, bailarico;
fogareiro em brasa-viva, chouriços a assar, sardinhas a fumegar, febras a alourar, pimentos a estalar;
as mesas enchem a praça e as gentes enchem as mesas, umas já satisfeitas, outras impacientes a aguardar pelo pitéu;
estrelejam foguetes, pirilampa e lacrimeja o fogo de artifício, rufam os tambores: é dia de festa.


A uma centena de metros, nos bairros fronteiriços à Alfândega, tudo a postos para a grande farra: a música toca, o ‘quim barreiros’ canta, a bailarina dança e os mirones hesitantes copiam-lhe os passos; os néons atraem os indecisos que, dando uma de macho latino, não resistem em convidar uma ‘partenaire’ para um passinho de dança: ‘a menina dança ou já tem Gajo?’

A hora da apoteose final aproximava-se.
Os relógios das torres sineiras alertavam e marcavam o passo das multidões em direção à Ribeira para ver o fogo de artifício; o ponteiro grande subia imparável para a vertical onde já estava o pequeno obrigando a ritmos de marcha diferentes e movimentações em ziguezague: o desejo de conseguir ‘o lugar’ ideal era grande, com mais de um ano de tamanho para muitos.
Consta-se que houve quem se abancasse por ali horas antes…


Enquanto se esperava pelo ‘momento’, já todos instalados nos seus lugares, apreciava-se a (in)habilidade de uns tantos deitadores de balões e, mesmo de longe, mandavam-se peritas instruções na arte de bem-deitar-balões, com a certeza de que eram seguidas à risca. Num ou noutro sim, foram, noutros nem por isso. Consequência: o balão aterrou logo ali.  Acontece…

De nariz empinado, de copo numa das mãos enquanto a outra cintava romanticamente a Madame, a maioria preferiu ‘oh, patego, olh’ó balão’. O céu limpo, cheio deles, tornava-os no passatempo favorito.

Policiadas pela Polícia Marítima que à distância conveniente as protegia de intrusos, das barcaças dispersas pelo rio, saem os primeiros clarões a iluminar a noite, o Porto, Gaia e os Mirones. Num crescendo de luz e som, o estrelejar dos foguetes animou a multidão e manteve-os especados durante uns curtos 20 minutos, até ao ribombar da girandola final.
Um oooohhhh! sonoro geral, deu por encerrada a sessão.


Estava encerrada a sessão do fogo de artifício, mas não a noite que ainda era uma criança.

Em movimentos lentos como cobras a deshibernar e desorientados sem saber como nem para onde ir a seguir - nem isso importava - a multidão começa a mexer-se em todas as direções. Da Ribeira à Av dos Aliados nem um paralelo do chão ficou à mostra. Milhares de pessoas no tradicional clima da noite de São João (e fica aqui um bem haja ao São Pedro: foi amigo - que acerte depois contas com São João) serpenteavam pelas ruas e partilhavam a convivência, a alegria, o bem-estar, o bom ambiente, a familiaridade, a segurança, a calma, a ausência de problemas.

E a noite durou até às tantas… enquanto as estrelas não se apagaram.

Os primeiros raios de sol iluminaram o caminho de muitos até casa.

A noite de São João no Porto é um hino a tanta coisa… à vida.

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