domingo, 6 de maio de 2018

05 | mai | 2018: My Day

Com um abç para todos que andam por aqui (fb), começando por aqueles que, sempre presentes, ‘estiveram ontem comigo’.

*  //  *

Pois eu gosto de fazer anos - e nisto não serei propriamente original - e até acrescento: quantos mais festejar melhor. Estes festejos não cansam.
E gosto por motivos vários de que escolho os, aparentemente, mais simples mas que preenchem as  boas rotinas que confortam os dias:

Ser um dia vivido ainda com mais entusiasmo, mais denso e intenso em especial de afetos (não é só Marcelo que os aprecia, ora essa!), quesito essencial que o molda e engrandece;

Quando saí para a minha revigorante caminhada aqui pela área, aceitei em exclusivo o dia que me chegava em tons de alegre e renovada primavera;

Bem cedinho, fui cumprimentado e acompanhado pelo nosso Astro Rei que, colado a mim, ia colorindo, aquecendo e animando tudo à volta e a puxar-me sempre para a frente. Assim foi mais prazeroso ainda praticar o footing;

O Mar, bem animado por sinal, de horizontes abertos e a convidar para destinos mais longínquos - já tenho aí uns em vista -, foi comigo até onde pôde; entregou-me renitente ao Rio - a que por justificadas e benfazejas razões chamam d’Ouro - que cumpria bem a sua função piscatória para uns, diversão para outros e relaxante para muitos mais, de entre os quais myself.

E fui, fui até onde a vontade quis, perscrutando tudo em redor com bonomia e selectiva minúcia.

De regresso, já com a Arrábida pelas costas e cada vez mais pequena, ia saudando os habitués, um ou outro com um Booom Diiiiia mais sonoro e um abraço à mistura;

Aqui e ali um telefonema ou SMS obrigavam-me a abrandar o passo para logo o estugar;

Já perto do terminus, um Cruzeiro escalado no Terminal foi suficiente para, por instantes, ‘marinhar’ por outras paragens e, quem sabe, entrar num um dia destes.

Barcos provocadores, estes, hein!

A máquina fotográfica foi descobrindo e fixando pontos novos - há sempre pontos novos - que retive.

À noite apareceram os Manos & Cª, a filha/genro e os dois pequenos Mágicos que, com a alegria de Arlequins, obliteraram da sala mundos adultos e nos encantaram com o seu País das Maravilhas. E nós pausamos, aceitamos a graça e fomos com eles...

Seguiu-se um agradável repasto que preparamos (eu só mandei bitaites, confesso; a minha Madame ficou com o esforço e o justo aplauso), finalizando com o tal de ‘Vinho Puuum’, beijinhos e abraços.

Um momento intrigante:
Será que o abraço dos Mágicos é mesmo mágico? Que comprimento terão seus bracitos? Suspeito serem enooooormes. Será que dão várias voltas ao pescoço? É que seus abraços enlaçam com uma temperatura tão suave e macieza tão algodoada, afagam tão completamente, que apetece ficar entre eles e prisioneiro deles.
Que magnetismo secreto mas poderoso escondem eles que tanto prendem?
Ainda peguei no comando e fiz ‘pause’ ao momento mas... não funcionou. Que pena! Vou mandar repará-lo, urgentemente.

‘What Else’ posso querer?

… e mais motivos houve que poderia registar mas ficam para o ano.

Assim, e por ter achado este meu dia um Bom Dia, vou dispensar a exclusividade e compartilhá-lo com todos os que por aqui se vão cruzando.
Desde já autorizo a que cada um retire o seu bocado preferido. ‘Vinho Pum’ incluído.
A distribuição que faço é o meu reconhecimento, agradecimento e retorno por me terem incluído - o que não é coisa pouca - no frenesim do vosso dia-a-dia, pelas simpáticas mensagens e desejos formulados. São tantos, tão preciosos e apreciados que se justificaria várias vidas para que todos se cumprissem.
Vou selecionar os mais realizáveis, juntar aos que aqui tenho chegados por outras vias, e esperar atento que a roleta comece a funcionar e que não avarie.
Zelarei pela sua manutenção lembrando-lhe que há mais à espera de vez.
Primeira ficha saída: ‘enroupar cada dia com trajes novos e coloridos’.
Boa. Começou bem.
Next?

* Ergui uma taça, mais que uma vez, à v/ saúde *

Bjs e abçs para todos,
Com a estima de sempre agora vitaminada,
António


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Angola: corria o ano 2000/2001 - TF / BmA

Olá, Ana Preto
Olá, Ana Lúcia (grandes negócios, hã? Já vendeu os cabelos no Roque Santeiro?)
Olá, Júlia (alegre, gaiata, de sorriso bonito)
Olá, Denise (a Lourinha)
Olá, Fernanda (sempre preocupada em fazer tudo bem)
Olá, Pimentel (o homem dos números)
Olá, Luís (a informática em boas mãos)
Olá, Elisa (de sorriso franco)
Olá, Florindo Panzo
Olá, Queirós (o aventureiro)
Olá, Ricardo (o bon vivant)
Olá, José Silva
Olá, Vítor Hugo (o jantar no Trópico estava ótimo)
Olá, Isménio (que ricas tainadas)
Olá, Lemba
Olá, Sr Domingos (Ob., conduz muito bem)
Olá, Alberto Alves
Olá, Rui Franco
(cito de cor)
… e mais alguns/algumas cujos nomes e apenas os nomes, o tempo varreu.
A todos, a essa Equipa de cerca de 30 pessoas, um abraço forte e caloroso com 18 anos de tamanho.
Peço que o façam chegar aos ausentes. Obrig.

Pois foi em 2000/2001 que, inserido numa Task Force profissional - vou saltar o detalhe -, convivemos por quase um ano.
Foi um tempo e uma experiência extraordinários para mim. Creio que por força das circunstâncias exigentes ao tempo - ainda o Savimbi era vivo -, as recordo e muitas vezes revivo com particular intensidade e agradável nostalgia.

Ter tido uma segunda oportunidade de coabitar em África/Angola/Luanda - a primeira de Dez’72_a_Dez’74 como oficial do Exército Português - foi uma dádiva que, apesar dos riscos inerentes, acolhi com um misto de preocupação barra entusiasmo.
Um convite destes não se recusa, até empolga.

De vocês, a quem alguma coisa terei levado, muitas mais recebi: companheirismo, proximidade e amizades que perduram. Não levem a mal se destacar o inexcedível Luís. Acompanhou a Equipa profissionalmente mas sobretudo particularmente, abdicando muitas vezes do lado pessoal e familiar e, ao nosso lado, levou-nos a conhecer a nova Angola: do Dondo ao Kissama, Mussulo, Barra do Kwanza, Ilha, Fazenda Tentativa, a Baixa, Miramar, Mutamba, Forte, a Luanda profunda dos Musseques e muito mais.

Esses tempos não eram fáceis, não obstante, foi um ano não apenas bom mas ótimo, esse.

Vocês, os que aí viveram e vivem, elevaram a coragem, a opção de vida, a níveis que não são fáceis de entender mas que muito aprecio e respeito; e desejo que assim continuem apesar das vicissitudes ao virar de qualquer esquina, colhendo no dia-a-dia o que de bom esse país tem. E muito é.

Continuarei a acompanhar cada um apesar da distância e com as novidades que amiúde por aqui são notícia.

Vou continuar o que iniciei: guardar esse período e principalmente o convívio com todos bem guardado de forma a tudo preservar o mais possível; sempre.

Abraço

quinta-feira, 15 de março de 2018

Os trapos não são velhos mas idosos

A propósito do texto abaixo, em último, de Eliane Brum.
*
Simplesmente… brilhante.
Inteligente.
Lúcido.
Suave.
Literariamente perfeito.
Sábio?
            Tenho dúvidas.

Repasso-o pelo lado estético do texto, que vale a pena ser conhecido, e pela discussão que poderá suscitar.

            Dois pontos prévios:
É ousado contestar a lógica deste raciocínio, mas aí vai, com elevada consideração e respeito por quem assim se expressa, com tanta clareza.
Sinto em mim grande resistência para pegar no tema.

Nota-se, desde logo, que é escrito por alguém com menos de 50 anos pois lhe falta, ainda, camadas de outras vivências que, oxalá, a vida lhe proporcione.
            Merece.

Idoso (aceito outro termo equivalente), adocica e engana a velhice?
            Pois que suavize.
Velhice enrugada (física/mental).
            Quem a deseja!?
Velhice sábia.
            Quem a tem?
Depósito de saber.
            Será?
Incentivo de continuidade.
            Com certeza.

Com poucas exceções, é nas idades mais jovens onde brotam as ideias mais revolucionárias e inspiradas.
Os vetustos não inovam, apenas refazem as existentes com roupagens pseudo-atraentes.

Não são, mais as mulheres, que desde menininhas, desde sempre e até à última gota de vida tentam disfarçar a idade biológica?
E eu digo: ainda bem, para mulheres e homens.

Qual a mulher (ou homem) que gosta de ser chamada de ‘velha’(o)?
A sonoridade da palavra ‘velha’ é tão rude, o seu uso, mesmo que involuntariamente, tão agressivo e com uma carga social tão deprimente que me espanta que haja quem a prefira à de idoso!

Minha mãe, com 101 anos, gostava que lhe penteássemos o cabelo, limpássemos o buço, aparássemos as unhas, lavássemos o rosto… lhe disfarçássemos a velhice, pois gostava de ser idosa e não velha (que para nós nunca foi).

No dia da morte de Moshe Dayan meu pai (viria a falecer com 95, em 2009) sentenciou: ‘oh, que pena, um rapaz tão novo’!?
Na altura, ri-me; agora, sorrio.
O contrário de novo é velho, e meu pai pretendia não sê-lo: preferia ser idoso. Não gostava de ser ‘velho’ e sempre tentou camuflar ou vestir esse conceito.

Nunca olhei para minha mãe (faleceu em 2015) ou minhas tias, vivas felizmente e na casa dos 90, e todos os outros dessa faixa etária, com olhar de ‘velhos’ mas com um olhar doce de idosos.
Também não gostam de ser velhos.

            Trapos velhos.
            Para para que servem?
            Mas um trapo alindado ainda é agradável de se olhar.

Essa história das ‘árvores morrem de pé’, como sugere o texto, é uma ideia bonita e inspiradora, sem dúvida, mas menos pragmática.

Um dia, sem pressas, vou querer ser olhado com esse olhar benevolente, como quem olha para um idoso (invente-se palavra melhor, mais jovem) e não para um velho que, para além da pacata presença física que fecha a história da família e da sociedade - o que por si só é muito -, dele já pouco ou nada mais se espera.

Nota:
A crónica é de Eliane Brum, e não Isabel.
*
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html
*
Texto.
Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”.  Pensei: “roubaram a velhice”.  As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.
Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.
A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.
Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum.  Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.
A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.
Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor.  Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.
Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua.  O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.
Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está.  Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.
Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.
Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”?  Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam...”.
Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.
Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem.  O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando.  Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.
Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.
Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar.  É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.
Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.
Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

Eliane Brum

domingo, 24 de dezembro de 2017

60º Aniversário Fernando, Irmão

A ternura dos 60.

60, é uma idade bonita! mas não mais que qualquer outra; como elas, de passagem e todas merecedoras de parabéns. Ainda assim, Parabéns por esta.
As passadas foram boas e bonitas mas as importantes e interessantes estão para a frente para serem vividas e saboreadas.

Por breves instantes, vou ignorar o futuro e voltar às origens, mais precisamente ao dia e local em que tu nasceste pois dele me lembro bem e tu não, estou certo. Não as ilustrarei com fotos porque nessa altura o fotógrafo estava de férias… mas tentarei o retrato escrito.

Tinha eu os meus 6 anitos e a esta distância aquelas memórias já estão cobertas por alguma neblina, mas este dia - 24DEZ’1957 - está bem vivo e definido. Foi particularmente agitado com alguma confusão à mistura. Tensão para uns, preocupação para outros e curiosidade para alguns reinavam lá em casa, a casa de Atães. E que casa! Era Inverno, frio. O frio entrava sem cerimónia pelas frinchas que pela casa abundavam, sem esquecer as do teto sem forro. Alguidares e água quente circulavam fumegantes pela casa. Grande azáfama, porém poucas pessoas: nós, os irmãos e os nossos saudosos pais; e a parteira, a ‘minha comadre dos tapados’, dizia a nossa querida mãe.

O pai andava por lá… tenso, hesitante e atarefado entre o teu nascimento, os outros filhos e a ‘tocar a vida’ lá fora. Nós, sentados no enorme e velho preguiceiro (eram dois, aliás) aquecidos pelo braseiro da grande lareira, quase com os pés enterrados na cinza quente, aguardávamos, pensando no mano que aí viria e no Natal, claro.
Ao lume, aquecidos por brasas vivas e coloridas, os ‘potes-tripé’ de ferro preto, protegiam-nos de alguma queda distraída e amornavam a água para tomares o teu primeiro banho. A lareira crepitava expelindo fumo e enegrecendo ainda mais a parede saliente e escura da fuligem acumulada. Na pequena cafeteira de barro, disfarçada entre os grandes potes mas vigiada pelos nossos olhares atentos, aquecia a água para o café. Que bom café! Sorvê-mo-lo com o prazer próprio de uma prenda antecipada de Natal. Afinal era véspera de Natal! Natal esse, pelas melhores razões, passou um pouco ao lado e, por tua causa, dos mais bem recordados. As atenções de uns e preocupações de outros estavam lá dentro esperando ansiosos o novo elemento: tu.
A minha curiosidade era grande. Em boa verdade não sabia exatamente o que estava a passar-se; era o primeiro acontecimento do género a que assistia, portanto limitei-me a observar e a ‘fotografar’ as imagens que, ainda em bom estado, agora te entrego.

O Zé - com 3 anos - acredito que de nada se lembre; a Mila e o Chico com certeza que sim e desse dia falarão melhor que eu.

Finalmente o teu primeiro ...nuáh, …nuáh, fez-se ouvir em toda a casa como que a dizer: cheguei!
A agitação aumentou em todos nós nesses momentos para, passados dias, retomarmos a normalidade do dia-a-dia, agora a sete.

E chegaste em boa hora, não só para a nossa doce Mãe que teve uma ‘boa horinha’ mas também para todos nós que te recebemos como mais um companheiro para as traquinices.

Contigo a família cresceu e engrandeceu.
Ficou mais forte e completa e lançou os bons alicerces para o que agora são, com orgulho e vaidade, os m&c.

Sempre foste o irmão caçula com as atenções de todos nós.
Hoje também, claro, e sempre assim será.

Abraço, com 60 anos de tamanho.

Tó.
24DEZ’2017

sábado, 4 de novembro de 2017

... dois anos depois: Saudade Viva

18-11-1914  *  20-09-1914
04-11-2015  *  12-08-2009

Olá Mãe, Olá Pai.
Um ano mais se passou e sei que cada um de nós, do jeito que melhor sabe, tem conversado regularmente com ambos. Portanto, o que agora direi, não será propriamente novidade. Não são estas, pois, notícias frescas mas, antes, um resumo anual.

E como acredito que continuam juntos, falo assim diretamente para os dois.

Imagino-vos sentados, lado a lado - como outrora o faziam no terraço da Mila -, atentos a tudo o que se passa com cada um de nós, com toda a vossa família.

E não resisto em começar por dizer que a saudade desse tempo e de vocês continua grande, muito grande; umas vezes mais suave e nostálgica e outras bem mais amarga e triste.
Com uma e com outra lá vamos andando.

Têm com certeza em mão a última carta e esta vem no seguimento dessa outra.

A vossa família continua aqui inteira, bem viva e feliz e a usufruir das oportunidades profissionais, pessoais e familiares que vão surgindo. Tentamos, cada qual à sua maneira, viver com entusiasmo e a esgotar todas elas o mais possível..

Como sabem, o último Natal passamo-lo todos juntos (-3), e foi uma noite de consoada muito bonita, muito alegre - como antigamente - e que deixou muito boas recordações.
Quem sabe um dia o repetiremos.
Claro que nos lembramos de vocês, mas uma grossa lágrima limpou esse momento mais saudoso e a festa continuou como, estou certo, queriam que acontecesse.

Logo de seguida, os irmãos que quiseram, foram passar o fim de ano à Madeira. Gostaram muito. Foi praticamente o batismo de voo da Isabel e do Chico. Íamos um pouco em cuidados com eles por isso, mas logo cedo passaram quando vimos o Chico a falar com o chefe da tripulação oferecendo-se para conduzir o avião. Como vimos o chefe sorrir pensamos que tinha aceitado a oferta. Aí o pânico passou para nós. Afinal foi engano e a viagem correu lindamente com o piloto certo.

A Mila anda às voltas com uma dor estranha numa perna e nós todos, armados em sábios doutores, mandamos os nossos bitaites. Mas já está um pouco melhor..., embora ficássemos sem saber se foi com os nossos se com os bitaites dos doutores!
Afinal também há doutores bitaiteiros!
Até gostamos do nome dado à maleita: “pata de ganso”, assim lhe chamaram.
Uns, mais divertidos, até lhe chamaram “dor telefónica”!
Pode!?

A Mila e o Toninho deixaram hábitos antigos e dedicam-se agora, com a energia de principiantes, ao FaceBook. Estão uns mestres em navegação na internet.
Vejam lá como o mundo se está a transformar…
E tem mais, a Mila reafinou a voz e agora, com o Orfeão de Gondomar, passeia-se pelos palcos de Gondomar e redondezas - até estrangeiro - encantando muita gente e divertindo-se. Anda animadíssima.

Não, o Chico e a Isabel no Facebook?, não, nem tanto! Ainda demorará uns anitos. A culpa é da Leonor que não os entusiasma!
Mas há novidades frescas: a Isabel pediu-me amizade no fb na semana passada e até já 'conversamos' no Messenger! O que estará a acontecer por aquelas bandas!? Vamos pedir um esforço extra à Leonor para ver se convence o avô. Sabemos que é capaz.

Andam agora de Metro e, vejam lá, foram há tempos à baixa do Porto, a um Porto desconhecido. Foi uma aventura e tanto! Gostaram e disseram que regressariam.
Será?!
Aguardamos fotos.

Com o Zé e com a Mila foram de férias para o Algarve. Foram, disseram, umas ricas férias ao ponto de pedirem bis.

O Nando e o Tó andaram ‘por terras nunca antes avistadas’ e gostaram. Não pedirão bis mas novos destinos.

Os vossos filhos lá foram todos dar o seu passeio anual. Desta vez foram ao Buddha Park, às Caldas da Rainha, ao Bombarral e a Peniche; andaram a (re)conhecer pedaços do nosso Portugal. E gostaram.

Fizemos o habitual Pic-Nic dos m&c, ali no Parque da Pasteleira. Estava um dia bonito e o Parque é muito bom e pertinho. Divertimo-nos e comemos com gulodice as boas surpresas que os farnéis escondiam, mas sentimos falta de quem não pôde estar. Para a próxima vamos ser mais cuidadosos na escolha do dia para ver se vem mais gente.

O Zé ainda trabalha; até parece temer a reforma. Seguisse ele os conselhos do vizinho - que nesta matéria é sábio - e já estaria a salvo desse lado frenético e de umas tantas preocupações.

O Nando arranjou novo emprego. Reforma? Nem pensar…

Os vossos netos estão todos bem e cheios de trabalho. Afinal, alguém tem de o fazer, não é? E eles estão na melhor fase para isso.

A Anabela/Marco tiveram um ‘problemazinho’ com a casa deles mas, a seu tempo, tudo se há-de resolver.

O Gonçalo, o nosso GoGó, continua seguro e imparável na senda dos grandes campeões. As TV’s já não o largam.
O Simão foi entrevistado pelo ‘JN’, com foto e tudo.
Os m&c já não aguentam tanta exposição mediática…
A Carlota e o Tomás estão em grande também no Vôlei e não demorarão a apanhar o GoGó, se não mesmo a ultrapassá-lo! O desafio é grande...
O Simão teve um percalço nas suas aventuras no parque infantil: partiu uma clavícula. No dia seguinte e mesmo com o braço ao peito, continuou alegre e a divertir-se. Não parou um minuto! É um valente. Claro que foi um sufoco para nós só de saber que poderia sofrer mas, ele mesmo, sempre bem disposto, acalmou-nos (ver os netos sofrer é doloroso!). Recuperou rapidamente e já está tudo bem.
Os vossos outros bisnetos estão, como dizer... lindos. Um encanto todos eles. Se os vissem agora já nem os reconheceriam. São eles que prendem a atenção de todos nós. Acompanhamos o crescimento de cada um, amparando-os com dedicação e amor.
Ah, e não perdemos a esperança de ver o número  dos bisnetos aumentado. A cada passo enviamos uns very-lights para o ar a ver se são vistos à distância.
Pode ser que…
Se puderem dar uma ajudinha?

Só mais uma coisa sobre os bisnetos(as) mais velhos: estão bonitos(as)! Charmosos(as)! Dá gosto vê-los(as). Por onde passam, deixam uma sombra atrás deles que ‘perturba’ muitos dos seus companheiros(as). Displicentemente olham para trás, não por duvidarem da qualidade da sua sombra mas para ver quantos(as) a seguem…
Não sei se me faço entender!?
Ciosos dos meninos(as) alguns pais já compraram caçadeiras para treinarem tiro aos pombos e pombas…

Sei bem que esta carta já vai longa mas sei também que nunca se cansam de saber notícias nossas por mais insignificantes que sejam.

Por agora, fico-me por aqui, depois de ter visto um sorriso feliz nos vossos corações.

Saudades de todos nós.