sábado, 25 de fevereiro de 2017

Contos, de Artur Azevedo e outros

Não fui até agora um leitor assíduo de Contos nem tenho para tal falha uma explicação que vá para além da distração.
Uns dias atrás um amigo falou-me com algum entusiasmo neste género literário o que me deixou curioso.
Li alguns e tenciono ler mais embora me pareça um género menor da literatura. Disse menor mas nem por isso menos interessante.
Por se tratar de pequenas peças, não se pode esperar a desenvoltura de um romance mas não lhes faltam imaginação e criatividade. Muitas delas retratam episódios do quotidiano, passíveis de serem observadas e vividas por muitos de nós, mas transcritas com o detalhe de circunstâncias - e as mais das vezes com finos recortes de bom humor - pela pena de mestres.
Este último ponto é, quanto a mim, o que os transforma em leituras apetecíveis.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A 'Diva' e outros de José de Alencar

Numa procura de soluções alternativas que respondessem à minha necessidade básica de ler em andamento durante as minhas caminhadas, cheguei aos AudioBooks. Dos inúmeros disponíveis em Apps, selecionei para início e sem especial critério a ‘LibriVox.org’.
Em português são poucos os livros listados; de Portugal ainda menos: clássicos (dos quais já não serão reivindicados direitos autorais) e pouco mais. Pela escassez nacional, descobri alguns brasileiros. A esmo, comecei por José de Alencar - séc XIX - de quem nunca tinha lido nada; apenas conhecia seu nome referenciado por terceiros, seus compatriotas.
No rol constavam 4 que li (alguém leu para mim).

Sobre J. de A.:
José de Alencar faz parte daquela plêiades de escritores excepcionais que moldaram e ficaram para a história da literatura do século XIX. Está na linha do nosso Eça e Camilo ou Zola, lembrando ainda Vitor Hugo, de quem foi contemporâneo (de todos).

Romântico inveterado, leva e eleva as relações emocionais e comportamentais entre homem e mulher e as dos círculo das pessoas em geral que rodeiam os episódios dos seus livros, aos limites máximos da criatividade. Dominando um léxico riquíssimo, percorre com mestria apurada todos os cantos e recantos do labirinto do comportamento e sentimento humanos.

Quem de nós dirá que não terá passado já por este ou aquele episódio!? Seria monótona a vida de quem as negasse em absoluto. Não creio, aliás, que existam.

Não nos dá a conhecer do que terá sido então a vida dos ‘descamisados’; antes disseca com peculiar esmero os usos e costumes da classe média alta, da aristocracia, da burguesia e da Corte brasileira, em tudo herdeira da portuguesa e europeia.

Pelos diversos sítios por onde andei, a começar pela Europa (a de cá e a de lá), pelas 3 Américas e, sublinhadamente, África (Norte e Sul)  estive sempre atento ao posicionamento da hierarquia social e concluí, há muito, que afinal essas vidas, as dos simples, as da plebe, nunca passaram do rodapé das sociedades em todos os continentes; obviamente mais, muito mais acentuada nas Áfricas e nas Américas do centro e sul.
… nem nunca hão-de passar: vale como profecia.

Especialmente imaginativo na criação dos factos que suportam a narrativa, J. de A., surpreende o leitor também por este lado, amarrando-o ao livro numa leitura sôfrega, deleitada com os costumes e tentando adivinhar o que previu o autor: um happy ou unhappy end (estes 4 foram-se num ápice: em menos de uma semana).

Os contextos dos romances ou contos e a sua evolução é muito similar e datada, mas muito rica e colorida.

Destaco a ‘Diva’ por ter distendido o conceito a pontos que não imaginava. Com efeito dedica muitas páginas ao tema para concluir que a ‘Diva’ é alguém que é desejada/amada por muitos mas incapaz de amar.
E porquê?
Sustenta o autor a tese de que à medida que à volta da ‘Diva’ se vá formando e firmando um cortejo considerável de adoradores e aduladores, a ordem natural da sua mente e comportamento são sujeitos a pressões incontroladas que acabam por a subverter e alterar, sucumbindo-lhe. Vai subindo os degraus do pedestal empurrada e suportada pelos seus fãs que, ao não quererem que daí caia, acabam por não lhe dar chance de olhar para trás e não mais os descer. Fica, pois, aí prisioneira e sem capacidade de devolver um pouco que seja do que tanto recebe.
O trono parece conter íman que lá a agarra, tornando-o depois familiar e confortável. Graciosa e profissionalmente recebe e corresponde aos galanteios num ritual de futilidades e sonhos impossíveis que agradam e lhe agradam. Mas não o faz deliberadamente antes por incapacidade. As suas emoções e reações tornam-se da área do mundano e não mais do humano.
Ou será ao contrário?


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Literatura: a despensa que tudo abastece

Há meses que não encontrava cabimento mental capaz de acomodar alguma boa leitura, melhor dizendo, os livros em geral; leitura tão necessária, de resto, à torrente das fontes que irrigam a diversidade e compreensão da vida e do mundo.

A este propósito, há uns meses, ouvindo uma entrevista num Podcast [“Falar Criativo” - (falarcriativo.com)] o escritor Afonso Cruz a discorrer sobre a importância da leitura, comparou, ele, o escritor a um cozinheiro que, para o ser, deverá ter sempre à mão uma despensa bem recheada, de onde possa socorrer-se para aprimorar a sua criatividade culinária. Ou seja, ‘ler muito’, como fonte inspirador e motor propulsor da escrita. 
Achei a imagem da despensa divertida e não menos interessante, por me parecer traduzir bastante bem o conceito e a importância do hábito de ler.

Ultimamente o mundo ferve, quase em ebulição, e as notícias nacionais e internacionais têm sido de tal ordem absorventes que relegam fácil e displicentemente para segundo plano aquele outro critério: o da leitura da “literatura pura”.
Tentar acompanhar e perceber tudo o que está a passar-se por aí - mesmo filtrando o mais importante -, é tarefa hercúlea e que absorve tempo.
Perceber o que se vai passando na UE de Merkel, nos EUA de Trump (hoje empossado), no Brexit de Theresa May, na Rússia de Putin, na Turquia de Erdogan, na China de Xi Jinping, na Coreia do Norte de Kim Jong-un, no “Estado Islâmico”, na Síria, em Israel e no Médio Oriente, refugiados… e sei lá o que mais, requer ouvidos bem atentos e leituras online; na hora, tal é a velocidade dos acontecimentos que nos chegam em catadupa.
Internet, TVs, Rádios, Jornais, Podcasts, e conversas tête-à-tête, são os recursos mais à mão para atingir esse desiderato, mas não suficientes. 
Há sempre um gato escondido com o rabo também escondido.

E a literatura, onde fica?

Na Web está disponível esse mundo novo e inteiro, ao alcance de um clic, de acesso fácil (e grátis) a maior parte. Pouco a pouco vamos acedendo a conteúdos e ferramentas que nos dão outras perspectivas e facilidades, mas sempre longe do todo.
Destaco, para o que agora quero sinalizar, os AudioBooks, os eBooks e a ‘Fala’: praticamente os mesmos conteúdos servidos em plataformas diferente. Ao gosto ou necessidade do utente.

São incontáveis os AudioBooks e os eBooks publicados na Web mas, em língua portuguesa, substancialmente menos; o que reduz as minhas opções por não dominar na dimensão pretendida o significado das estrangeiras mais comuns. São, no entanto, os AudioBooks e os eBooks, uma solução amigável e usável.

A ‘Fala’.
Tem o iPhone/iPad (e creio que os outros smartphones/tablets também) uma funcionalidade ao dispor (basta ativar) que nos facultam facilidades bem interessantes; não perfeitas, é certo, mas o bastante para responder aos mínimos: a ´Fala´.

Para ‘ver para crer’ baixei um livro bem conhecido para experienciar a proposta: “Amor de Perdição”.
Em dois dias foi-se! E gostei.
Deu, perfeitamente, para “ler ou reler”, já não sei bem, o célebre romance de Camilo, e glosar os rígidos hábitos e costumes do século XIX, seguindo a bússola que guiou a pena de um mestre: Camilo.
O ponto mais negativo, porque muito diferente dos hábitos do da leitura em livro, deriva do facto da leitura corrida e declarada por outrem, acelerar a vontade do desfecho, não pausando para reflexões a propósito; e com menos vontade de tirar apontamentos. E isso é um pecha a apontar.

Porém, em consequência desta “leitura”, fui recordar a plêiades de escritores famosos desse século e que agora, por esta via, vou revisitar.
Espero vir a preencher assim a lacuna acima identificada.

[‘Fala’ - trata-se de um método aplicável a qualquer documento digitalizado, programável para a língua pretendida, para a velocidade da leitura desejada, altura do som, do género do leitor dizente e com sublinhado a acompanhar o texto. Basta então selecionar a quantidade de texto que se pretenda e libertar ‘Fala’. Pode-se ainda pausar, anotar, pesquisar, retomar, marcar a página, escolher o tipo, tamanho e cor da letra e das páginas...]

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mário Soares, reconhecimento e tributo

Já lá vai o tempo em que raciocínios imberbes influenciavam a avaliação do desempenho e bondade dos atores políticos, nacionais e outros, distinguindo, então, uns tantos imerecidamente; utilizo agora para o efeito um crivo de malha bem estreita, malha que o tempo teceu e foi apertando e por onde poucos conseguem passar. Fosse, aliás, reversível o anzol que outrora os selecionou e de lá alguns repescaria.

Mário Soares é um dos raros elegíveis que conquistou esse direito, consolidado numa carreira política e cívica longas.

Muito se tem dito e escrito sobre ele, nomeadamente por estes dias após a sua morte: praticamente todos sublinham sua vida pública como exemplar, com (compreensível) exceções para os retornados e (incompreensível) para os saudosistas de um passado longínquo.

Junto-me ao coro daqueles que apreciam a sua dedicação à causa nacional e revejo-me em muito do que foi dito; não vou repeti-lo.
Quero deixar, porém, aqui relevadas três grandes áreas que beneficiaram da sua ação e que mais apreciei: qualidade da liberdade, dimensão da democracia e visão Europeia. Para todas contribuiu de forma vívida, pioneira e assertiva para serem o que são hoje.

Estas expressões proferidas por ele ganharam i) uma sonoridade, uma alegria e uma dimensão novas; ii) uma profundidade reverberante que chega até hoje e que perdurarão no aplauso, no sentir e no querer de muitos.
Saídas da sua boca, transmitiam uma convicção e uma força que se convertidas em decibéis tornar-se-iam audíveis em muitas partes do mundo e não só cá dentro.

A liberdade, a democracia e também a Europa que temos hoje foram moldadas por ele. Aprendi e apreendi a sua liberdade, a sua democracia e a sua Europa.
E porque com elas me sinto bem, deixo-lhe aqui o meu pequeno mas reconhecido tributo.

A história nacional e, creio, estrangeira também, recordá-lo-á e ser-lhe-á elogiosa.
Como disse Camões, “da lei da morte se libertou” por muitos anos para bem de todos nós.
(07DEZ1924 / 07JAN2017)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Caminhadas em 2016: 3.340 Km

- “O exercício físico regular e não forçado é o melhor investimento que pode fazer na sua saúde: evita muitos comprimidos”;
E ainda:
- “dispõe bem, eleva a autoconfiança e a autoestima”.
Prof. Dr. Fernando Castro Poças (meu médico) dixit.
- eu já faço isso, Prof., aquiesci, oxalá a natureza faça a parte dela e não me atraiçoe.
- “Sim, mas temos de lhe dar uma ajuda”, sentenciou.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Natal m&c (pub fb FdQ)

Fazia anos, bastantes, que aguardávamos a oportunidade de voltar a reunir num mesmo espaço todos os elementos desta família para consoarmos na Noite de Natal.

Graças à determinação dos nossos filhos e ao reajuste de algumas rotinas natalícias, este ano, esse mui adiado desejo, concretizou-se. Estivemos (quase) todos: 31 (de 34).

[nossa mãe e pai - a tia Ana e o tio Avelino - estarão com um sorriso feliz nos seus corações]

Muita (saudável) confusão, muito entusiasmo, muita alegria animaram a ceia, a que a generosidade do Papai Noël veio relembrar “meninice” aos adultos, energia inesgotável e candura contagiantes aos pequeninos.

Foi, como podem imaginar, uma Noite de Natal especial e por isso a partilho com vocês.

Abçs de todos nós para toda a FdQ, com votos de que tenha sido - em todas as casas - uma Noite Feliz.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump: 45º Presidente da América (e do mundo)

Ainda estou atónito e a digerir com esforço a vitória eleitoral de Trump. Admitia tal hipótese mas acreditava que Hilary ganhasse embora escassamente. Acompanhei com especial atenção todo o processo e a súmula de tudo o que a grande imprensa traduzia apontava para Hillary.

As primeiras notícias do dia, além de “chocantes” resultaram num misto de incredulidade e preocupação.
Governos, Instituições, políticos, politólogos e comentadores habituais estão cautelosos e a temporizar reações, tentando influenciar com acerto o futuro.

E que futuro nos aguarda? Será o presidente Trump igual ao candidato Trump?

Habituamo-nos ao longo dos últimos muitos anos a ter um presidente americano, uns mais que outros, mas no geral todos numa certa linha de continuidade. Ora, agora com Trump, aconteceu uma revolução autorizada; por dentro do sistema. Legal.

Muitas questões pairarão nas cabeças de muita gente e nos vários sistemas em que assenta o funcionamento mundial. Todos estarão neste momento a refazerem-se do choque mas também a prepararem-se ou a ajustarem-se desde já para as mudanças que aí virão.
Serão muitas, serão poucas? Ainda é cedo para vislumbrar as decisões que Trump efectivamente tomará quer a nível interno quer, principalmente, externo.

Quero acreditar numa ideia escrita no livro ‘Porque Falham as Nações’. Lá se diz (cito de cor) que "a democracia americana é tão forte, com tantos contrapoderes, que resistirá com qualquer presidente".

Espero eu a tempo de evitar decisões avulsas e tendo sempre o bem estar da humanidade como primeiro grande critério.

Um pouco, aliás, do que está a acontecer na GB. O governo, para além das naturais indecisões para saber ao certo que rumo tomar, tem de contar também com o exercício legal do poder de outras Instituições. Tribunais, p. ex.

O inesperado Brexit e agora também o inesperado Trump, para além de desacreditarem a imprensa dominante, vêm reforçar os movimentos populistas existentes na Europa (França, Itália, Alemanha, Espanha...) e estimular a criação de outros.
O problema é que o populismo é um parente chegado do totalitarismo ou anarquismo.

P.S.
“As elites, os media e as empresas de sondagens estão mais próximos do establishment (ou das suas fontes) do que dos seus leitores. O “New York Times”, assim como a esmagadora maioria dos jornais, não entendeu o que se estava a passar na América. E o único caminho é fazer um mea culpa”
Miguel Cadete, Dir. Adj., Expresso.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

... um ano depois: Mãe

04-11-2015
04-11-2016

Sabes, Mãe, se cá estivesses - tu e o pai - (e ainda estão), iriam continuar orgulhosos e até vaidosos da vossa família, dos m&c. E já agora ficam a saber que continuamos, como sempre aspiraram, sem esforço e com alegria, muito amigos, felizes e sempre atentos uns aos outros. Sabemos e preocupamo-nos com o que se passa com cada um de nós, como outrora nos incentivaram.

Os vossos filhos continuam a encontrar-se com regularidade e vejam lá - desta vão gostar mesmo! - os vossos netos e bisnetos agora também se encontram a sós: os primos.
Já estou a ver um sorriso enorme nos vossos corações.

O Chiquinho está bem, com saúde de ferro e a sonhar com camionetas e a Isabel a emprestar-lhe um ouvido paciente; tem quase o curso de guia turístico... Seus filhos também estão bem e seus netos cada vez mais bonitos.

A Mila é cada vez melhor cozinheira e o Toninho muito trabalhador e sempre a trazer coisas do campo para casa e ainda distribui por todos nós. Seus netos estão lindos. O Gonçalo está a jogar Vólei no Espinho. A Constança está muito esperta e é o bibelô daquela casa. Os outros estão todos bem.

O António está reformado e não faz nada. Dá uns passeios lá pelas redondezas e prova os petiscos sempre aprimorados da Branca. A Sara e o Luís estão bem. Estão numa casa nova, muito bonita. Iriam gostar de ver. A Rita e o Simão estão um encanto e falam muitas vezes na avó de 100 anos...

O Zé continua a fazer contas e mais contas a ver se acerta a conta para a reforma e assim fazer mais companhia à Fátima. Sabem, mudaram de casa e de lugar: foram viver para Matosinhos. Estão a morar perto do António e os quatro fazem-se muita companhia.
O Zé Pedro está a viver com a Cristina em Lisboa. Iriam gostar dela, com certeza. Netos é que ainda não há, apesar do “pedido de várias famílias”.

O Fernando trabalha agora numa Empresa em Matosinhos e, ele e a Anita, também andam a fazer as contas para a reforma. Mas parece que a conta deles não está a dar certo, para já.
Os filhos estão ótimos. A Rita vive com o Bruno, que também iriam gostar de conhecer. Netos, também não há, apesar do “pedido de várias famílias”.
As famílias bem pedem, mas…

Também ficam a saber que conseguimos reunir em Agosto, 15, muita gente da FdQ: 115. Foi um bonito encontro de que se iriam orgulhar.

E foi assim este ano.

Saudades de todos nós.
*

Mãe, Pai,

Regresso aqui para vos dizer mais uma coisa que vos deixará muito contentes e aliviados:

“já não precisamos de vocês”.
(desculpem a rudeza da expressão, mas vão ver que é certa)

E sabem porquê?
Porque já todos caminhamos pelos próprios pés - cada qual na sua fase da vida / os mais novos na sombra dos mais velhos -, a olhar o mundo de frente, tentando descobrir o nosso próprio caminho. Uns dias mais fáceis outros mais trabalhosos. Mas sempre foi assim como, melhor que nós, muito bem sabem.

Estamos confiantes e cheios de coragem acreditando que tudo vai correr bem.
O alicerces que nos deixaram estão a revelar-se suficientes para as lides e imprevistos da vida.

Isto quer dizer que vos guardamos colados ao coração, mas também vos queremos libertar de preocupações, dizendo-vos que estamos a ser capazes de, sem vocês, caminhar com segurança. Todos.
Não se preocupem, pois, conosco.
Fiquem bem.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Eleição do Secretário Geral da ONU

1.
Não é fácil descartar António Guterres da análise que se possa fazer a propósito da sua candidatura ao cargo de Secretário Geral da ONU. A sua concidadania pesa e de alguma forma condiciona o dever de isenção opinativo necessário de qualquer português a uma tomada de posição sobre o assunto. Assumo, portanto, que o que à frente direi enferma desse pecado original.

2.
Deixo agora de parte a sua ação ou inação, do que foi ou não foi, enquanto político português.

3.
Refiro a sua passagem pela ACNUR para dizer que fiquei com a ideia de que cumpriu o cargo exemplarmente com uma empenhada, louvável e impressiva carga de humanismo reconhecida internacionalmente, que me lembre, unânime.

4.
Pelas suas qualidades humanas e pessoais penso que António Guterres tem o perfil certo para o lugar.
Destaco a propensão, capacidade e facilidade para estabelecer pontes de diálogo e eventuais concordâncias agregadoras como das mais importantes de um Secretário Geral da ONU. Conseguir sentar a uma mesma mesa e pôr a falar desavindos, alguns em guerra, e gerir interesses contraditórios, pode ser o caminho mais rápido para atingir bons resultados, evitando conflitos e salvando vidas.
Porá, com certeza, o ser humano em primeiro lugar em detrimento de outras causas menores.

5.
Como obrigam as novas regras, criadas para dar mais transparência ao processo eletivo, sujeitou-se a exames duríssimos (5 até agora) no seio da própria ONU e em todos passou com distinção e brilhantismo, deixando pelo caminho inúmeros concorrentes.

6.
Agora, já quase no fim da maratona dos escrutínios, forçando e confundindo as regras da Instituição, aparece a búlgara Kristalina Georgieva com combustível bastante para ultrapassar pela direita quem, até ao momento, liderava destacado as preferências e “encorajamentos” (expressão em uso no processo) de muitos países.
… porque é de Leste, porque é mulher e, principalmente, porque é apoiada pela Alemanha que, não tendo direito de veto, tem peso importante neste xadrez.
Resta saber se da Argentina não aparecerá ainda Susana Malcorra empurrado pelos EUA (mas não pela Inglaterra por causa do inesquecível episódio das Malvinas/Falkland). Pela vistos haverá vindima até tarde; há, pois, que manter os cestos disponíveis para colheitas de última hora.

7.
Sempre soubemos que os 5 que detêm direito de veto na ONU (EUA, China, Rússia, UK e França), têm a última palavra. Sempre assim foi e, apesar de terem mudado as regras sujeitando a eleição ao resultado da votação democrática dos 15 membros permanentes do Conselho de Segurança, assim será: vai ser decidido pelos 5.
Também sabemos que nenhum dos 5 (que se saiba) votou contra António Guterres nas audições preliminares, mas sabemos agora que o fizeram com uma reserva mental a todos os títulos lamentável, condenável e nefasta para a clareza democrática que apregoavam.
A “real politik” e os detentores do poder a sério, têm estes “esperados” comportamentos, jogando um jogo estranho e incompreensível, quando se guardam secretamente para o Xeque Mate.
Esperava-se da Organização máxima Mundial das Nações lisura e transparência nas suas ações.
E afinal o jogo continua viciado.

É nessa fase que estamos.
Até agora avançaram os peões e eles, os 5, deixaram que se mostrassem ao mundo num jogo de espelhos democrático falso.
Está a chegar a hora dos Karpoves e Gasparoves se posicionarem para os lances finais.
O jogo acelerou de ritmo e já não demora muito a arrumação definitiva das peças.
Espero que António Guterres (com apoio nacional) resista firme, impávido e sereno no seu propósito e aguarde que a sorte do jogo lhe caia de bandeja e o leve à 1ª cadeira da ONU.
Daqui para a frente já não depende dele (se é que alguma vez dependeu) mas do que vier a passar-se nos obscuros bastidores, principalmente, de Washington e Kremlin.