quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

U.K. paga dívida de 1720!

. Dizem as notícias da semana passada: U.K. propõe-se, agora - em 2015 -, liquidar uma dívida que remonta ao ano de 1720!
. A Argentina há 15 anos que sobrevive penosamente a uma turbulência social interna por causa da dificuldade em pagar a sua dívida externa excessiva contraída até 2001!
. Madagáscar até as madeiras das suas florestas teve de dar como caução ao FMI para, assim, poder obter um empréstimo externo e garantir o consequente pagamento!
. Pelas mesmas razões, Portugal assumiu em 1891 - ano em que declarou bancarrota -, o compromisso com os seus credores de dilatar o pagamento da dívida acumulada até então por um prazo de 100 anos (acabou de a pagar já no neste século XXI!)!

E tantos outros países, em situações similares, tiveram de dar os anéis para salvarem alguns dedos...

Há uma bissectriz que une os casos citados: a força e exigência dos credores, que não perdoam e querem o seu dinheiro de volta.

Tenho acompanhado com muito interesse a situação grega - até pela proximidade exemplar com Portugal - e estou deveras curioso com o desfecho das negociações em curso entre UE/BCE/FMI e o Syriza de Alexis Tsipras.

Sabemos que nos empréstimos solicitados por alguns 'Piigs', estão envolvidas três Entidades (UE/BCE/FMI) e o diálogo com esse tridente pode suavizar a solução final a favor das pretensões gregas. Mas, acredito que a margem de manobra grega no momento atual seja curta, muito curta para não dizer inexistente.
O desmentido do governo Chinês sobre uma sua eventual ajuda desacreditou os argumentos gregos. A ajuda Russa - embora até agora não contrariada - não é verosímil, tendo em conta as suas próprias e imensas dificuldades financeiras atuais (eles próprios têm apenas os chineses como credores  e numa base negocial perdedora). Esta madrugada o Acordo de Cessar-fogo em Minsk entre a Ucrânia, a Rússia, a Alemanha e a França só foi possível pela debilidade posicional da própria Rússia.

Volto um pouco atrás para concluir que se a Grécia tivesse o FMI como único credor - para desgraça grega, digo eu - já estariam na bancarrota e fora do Euro, com todas as consequências daí decorrentes. Acresce, para aumentar ainda mais a dimensão dos seus problemas e fragilizar a sua posição à mesa das negociações, o fato de não terem aproveitado o tempo recente de aperto conjuntural e social para fazer as necessárias reformas de que o país tanto precisa!

Atendendo às posições das peças do xadrez e sua importância relativa, parece-me que o resultado final das negociações serão claramente a favor da posição da 'Troika'. Arranjarão um texto final que agrade a 'gregos e a troianos', - também para não fechar as possibilidades da governação do Syriza (eleitos democraticamente, lembra-se) - mas os credores querem receber o seu dinheiro e disso não abdicam.

Portugal acompanha atentamente todos os detalhes do processo pois tem todo o interesse no modo como o concluirão para dele tirar a melhor parte.

('Portugal está na posição mais cínica: ao lado da Alemanha desejando que a Grécia vença' – PSG, Expresso)

Seria surpreendido com um desfecho em que a Grécia aparecesse ganhadora neste tabuleiro de jogo internacional!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Quantitative Easing (QE)

'Alívio Quantitativo'
Rios de tinta e milhões de palavras têm sido escritas e proferidas nos últimos meses em todo o mundo, e de forma mais inflamada na Europa em geral e nos 19 países do Euro em particular: QE é o tema.

A discussão está ao rubro mesmo depois do BCE se ter pronunciado. Umas a favor, outras contra como é normal, até porque os efeitos da medida ora anunciada podem vir a atingir muitíssima gente, muita mais que a da simples Eurozona. Embora em escalas diferentes acaba por impactar direta ou indiretamente nas economias e pessoas de todo o mundo. Percebe-se, pois, que todo o mundo se pronuncie a propósito.

A medida está porém tomada e agora o foco da discussão é (ou deveria ser): para onde canalizar todo esse dinheiro? A que projetos o destinar? Privados? Públicos? Setor primário, secundário ou terciário?

Alguém defendia há dias a 'distribuição de 500€ por pessoa' incentivando-se, assim, o consumo e consequentemente o sector produtivo e, associado, o emprego. Vou deixar esta ideia sem parênteses, por a considerar inexequível e ineficaz.

Voltando aos QEs, trata-se de uma medida inédita na Europa mas replicada de outras geografias (EUA, UK and Japan) e, por ir mexer com todas as outras economias, muitos o lembram, terá seguramente consequências imprevisíveis quer nos países da Eurozona quer, por extensão, em todo o lado. Muitos a receiam e mais a aplaudem.

Atento e expectante coloco-me do lado de quem a aprova.

A Eurozona tinha chegado a um ponto crítico de deflação e, a avaliar pelo que passa nos media - nomeadamente na especializada - a única ferramenta conhecida para a tentar debelar seria esta (veja-se a razão da estagnação económica no Japão nos últimos anos).

Para além do desconhecimento do que irá acontecer, 'a vida faz-se caminhando', apoio-a, ab início, por ela fortalecer o projeto europeu. Na medida em que as economias e finanças dos 19 se vão cruzando e consolidando também por aí, a união política se robustece. Apenas boas e singelas intenções não serão suficientes para manter a União, que tanto prezo.

De resto, estas EQs não são muito diferentes das Eurobonds que em tempos aqui defendi. Vieram agora e ainda bem.

Notas
1.
Um dos nossos banqueiros, Mira Amaral, veio a terreiro este fim-de-semana para afirmar que não é por questões de liquidez dos bancos que o dinheiro não chega às empresas mas sim por falta de projetos...
2.
Os bancos, incluindo o BdP, pagam uma taxa ao BCE pelo excesso de liquidez que detenham; isto para dizer que os bancos nacionais (e todos em geral) só recorrerão a este financiamento se lhes chegarem projectos e projectos em que eles mesmo acreditem ou seja com retorno assegurado...
3.
Espero que a Alemanha não venha a ter razão quando colocou reservas a esta solução.
4.
O BCE de Mário Draghi parece querer confirmar que tomou as rédeas da condução da economia europeia - papel que lhe cabe, diga-se -, deixando a poderosa Alemanha de lado. A Alemanha não tem tido coragem em assumir a sua qualidade de propulsor económico da Europa por não querer suportar os custos que essa hegemonia obriga; bastava ver o papel que os EUA desempenharam no mundo após a II Guerra...

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Coreto

1.
Ali, na Av. Montevidéu, no jardim acabado de renovar junto à praia do Homem do Leme, existe um coreto, algo tosco, ou para quem queira, um observatório panorâmico para contemplar o mar. Se não é, parece e pode ser usado como tal.
Um dia destes subirei lá para ver o que dali o mar oferece de diferente e interessante.

Numa das minhas matinais caminhadas diárias alternativas, desta vez pela orla marítima e fluvial até à Ponte da Arrábida, já de regresso pelas 11:00H, a uns bons 100m de distância do coreto, o som de uma música tradicional portuguesa começou longinquamente a chegar até mim.
À medida que me aproximava os sons iam ficando mais audíveis e definidos. Identifiquei: 'Oh Laurindinha vem à janela'.
Curioso e intrigado pela inusitada escolha musical, fui avançando e, em breve, já trauteava a conhecida cantiga popular. Não parei para não perturbar a sua execução mas refreei o passo para, durante mais tempo, a poder apreciar e acompanhar.
Em passo lento captei o cenário: um desconhecido - se calhar ilustre - munido de uma gaita-de-foles, altivo, de peito aberto e perscrutando o além-mar, soltava a melodia ao vento, a 'plenos pulmões'. Dos foles da sua gaita saía uma alma lacrimosa ou uma alegria aprisionada. Continuei de mansinho respeitando seu carpir.
A quem era destinada? A ele próprio? À sua amada? Ao puro prazer do exercício da liberdade? Mistério que fica por desvendar.
Ao deixar de ouvir, estuguei o passo mas o episódio insólito ficou registado.

2.
Era eu rapaz, menino de 7,8 anos, morava num lugarejo de nome Atães, Fermil, Celorico de Basto (hoje pertença de familiares).
Era verão, altura das festas e romarias. Era já noite alta, talvez 23:00H, e, por ser verão, dormiria mais tarde.
Por volta dessa hora, um dos músicos  da banda local (nunca soube quem) regressava a casa depois de um dia de folia pela estrada, ainda em Macadame, que serpenteava pela região.
Talvez animado ou inspirado pelo fim de festa, parou na curva de uma encosta a que chamávamos 'saibreira', justamente em frente à minha casa e, tirando seu clarim da caixa, soltou 'El Silencio'. Aquele som surpreendente e mavioso, ecoou e reverberou por aquele imenso vale que infindava dos pés da encosta, perfurando o escuro da noite, abrilhantando ainda mais o intenso mas suave luar de Agosto e retemperando a canícula daquele verão.
As orquestras dos grilos e das corujas, pasmadas com esta nova melodia, pararam as suas sinfonias e placidamente foram adormecendo e sonhando com esta música que amanhã ensaiariam.
... ainda hoje aquele som chega até mim.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Os (novos) 15 pecados da igreja, segundo Francisco

1.
Acompanho a alguma distância os assuntos da Religião Católica seguida, ainda a maior, da Islâmica, da Hindu, Budista, incluindo todas as outras de menor expressão por entender que todas elas - cada uma à sua maneira - são imprescindíveis na condução dos povos e por, assim, compreender melhor mais alguns comportamentos das sociedades.
Interessa-me principalmente o lado institucional e social.
É próprio ao ser humano, nos seus momentos mais introspectivos, levantarem-se-lhe dúvidas existenciais para as quais possa não encontrar respostas à mão. Assumir um além, um deus, uma crença a quem as possa confiar e daí obter 'respostas', pode trazer-lhe a quietude de que necessita.
Mesmo o ateísmo pode ser considerado uma religião, não num deus mas, diria, num anti deus. Tem, à semelhança dos crentes religiosos, um crença em algo de onde obtém respostas similares.

2.
A Igreja de Roma, tendo sido também fundamentalista em diversas épocas - recordam-se aqui as cruzadas da idade média e mais recentemente a inquisição -, foi evoluindo lentamente muito em razão do seu chefe espiritual de momento e sobretudo a partir da segunda metade do século XX aproximou-se mais dos seus seguidores.

O perfil do Papa em exercício condiciona e muito a seleção dos itens que queira valorizar no seu mandato, a rapidez da sua implementação e a sua maior ou menor globalização.

Francisco, sucedendo a um Papa fidalgo e curricular e oriundo de um mundo diferente, encontrou terreno sequioso que muito bem trata e onde as suas sementes estão a crescer, algumas já com fruto.

Nas vésperas de Natal fez nova sementeira.
Aproveitando a presença da Curia e o seu estado dormente pelo espírito natalício, passeou o seu arado por entre eles, deixando reflexões importantes para todos.
É certo que aquele terreno é árido e resistente à água fresca. Ouviu-se até o restolhar das cadeiras e o 'frou-frou' das suas imponentes vestimentas encardidas agitando o pó acumulado. Suas mentes começaram lentamente a acordar do longo período hibernal.
Tenho a certeza que perceberam a mensagem de Francisco mas já não a tenho para a quererem passar à prática. Ainda estão demasiado refastelados nas suas vistosas cadeiras cardinalícias para delas abdicarem.

As religiões transportam, também através destes seus agentes, cargas pesadas com sedimentos milenares onde as novidades demoram tempo até encontrarem espaços.

Em Francisco,'Habemus Papa'.

1.    A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” 
2.    A doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade
3.    A doença do “empedernimento” mental e espiritual
4.    A doença do planejamento excessivo e do funcionalismo
5.    A doença da má coordenação
6.    A doença do “alzheimer espiritual”
7.    A doença da rivalidade e da vanglória
8.    A doença da esquizofrenia existencial
9.    A doença das fofocas, das murmurações e do mexerico
10.  A doença de divinizar os chefes
11.  A doença da indiferença para com os outros
12.  A doença da cara funérea
13.  A doença de acumular
14.  A doença dos círculos fechados
15.  A doença do proveito mundano, dos exibicionismos


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Corrupção: o cancro incurável | José Sócrates e outros...

Vivemos atualmente em Portugal, mais uma vez, momentos conturbados, muito agitados e comentados na área da corrupção, potenciados pelo aparecimento em cena de José Sócrates. E não só nesta área, lembra-se. A chama reacendeu e os ventos multidirecionais ampliam o fenómeno. As turbas perfilam-se defendendo cada qual com os argumentos mais 'inteligentes' a parte do seu quintal. Apenas uma ou outra voz mais desalinhada lá vai redirecionando o discurso para o lado da ética mais pura ou desapaixonada.

Vou focar-me, por ora nesta, na corrupção, sintonizando-me com o bruaá que corre nos media, adiando mas não esquecendo as outras.

Começo por dizer que o tema em geral me provoca, sempre, urticária aguda mas particularmente virulenta quando proveniente da classe política.
É suposto que os eleitos sejam, eles próprios, sobretudo eles próprios, pessoas de bem, idóneas, probas; diria 'imaculadas'. Deviam ser e ser vistas como exemplos de inquestionável conduta moral, pessoal e social. Deveriam ser o que nos grandes palcos altissonantemente apregoam pois isso dar-lhes-ia uma aura de inatacabilidade e creditícia que levaria a que os cidadãos acatassem com réplica colaborante as suas opiniões e conduziriam assim sob esse lastro mais almofadado, o timing e a eficácia dos destinos das sociedades, tal como o bom e sábio pastor encaminha seu rebanho para pastos mais fartos.

Sabemos, desde que o ser humano começou a ficar gregário, que tem de haver alguém, eleito ou não, que o organize e o faça funcionar em grupo, isto é, com regras. Pior que tudo são os anárquicos ou os inorgânicos que, acéfalos, tresmalham-se com mais facilidade.
Qualquer que seja a forma de organização, desde a ditatorial - mais à esquerda ou mais à direita - passando por todas as outras, e incluindo a democrática, em todas elas, esta questão da corrupção é transversal, sendo que, na democrática por ser a mais escrutinada popularmente é a menos gravosa e a que menos perdura.
A sua existência e persistência em todos os modelos foi, é e será sempre abjeta e nefanda. 
Causa-me revolta visceral, todos os casos conhecidos e tenho para aqueles que a praticam o mesmo sentimento: de repúdio total, no mínimo, e isto para me abster da escolha de qualificativos que, se usados, seriam os mais populares; os de rua mesmo.

E chegamos a José Sócrates!
Nota prévia:
Fui seu entusiasta, quase indefectível defensor, enquanto primeiro-ministro. Tinha qualidades raras indispensáveis à função.
Lutou tenazmente contra poderes e privilégios instalados e tentou equalizar um pouco mais a sociedade portuguesa. Criou com este seu denodo inimigos poderosos, alguns ferozes e de vingança retardada. Os rastilhos outrora ateados parecem estar a detonar agora bombas por todo o lado...
Essa sua postura era para mim virtuosa.
Cometeu erros? Concerteza e alguns sérios.

Não sei o que lhe irá acontecer judicialmente. Uma afirmação categórica pronuncio desde já: se é culpado - corrupto - que seja severamente castigado. Se possível mais que os outros mais 'normais'. Obviamente libertado se for essa a justiça a aplicar.
Não aceito, não pactuo com gente - seja ela quem for, incluindo José Sócrates - que, a coberto de um pelo alvo de cordeiro, usem as cadeiras públicas para o enriquecimento pessoal.
Abominável simplesmente.
Tinha satisfação que, se culpado, fosse severa e exemplarmente castigado.
'No mercy', era o título do filme...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um ano, um mês, um dia memoráveis: 18nov2014 - Mãe fez 100 Anos!


...umas palavras dos Filhos.
1. De entre os vários espaços que pensamos para este evento, este foi sempre o preferido e, graças à generosidade da Madre Superiora e da Irmã Isabel, isso foi felizmente possível.
A esta Casa e a ambas o nosso obrigado.
Foi aqui que a nossa mãe trabalhou durante largos anos, sendo aqui muito considerada e recordada como trabalhadora incansável e exemplar, facto recordado e testemunhado ainda há dias por algumas irmãs desta casa, tendo aqui feito grandes amizades ainda hoje reconhecidas e com alegria lembradas.
Foi também aqui que há 20 anos festejou as suas bodas de ouro com o nosso saudoso pai.
2. Em nome dela e nosso, queremos dizer que estamos muito felizes por terem aceitado o convite e por terem destinado esta tarde das vossas vidas ao fortalecimento da união das Famílias da Quelha e da Veiga. Ao chegarem mais logo a vossas casas deem da parte da nossa mãe e de todos nós abraços e carinhos aos que lá ficaram e a certeza de que os temos sempre no coração.
3.100 Anos é um objetivo raro de se atingir e estas duas Famílias foram contempladas, que se saiba pela primeira vez, com esta maravilhosa e bonita idade de um dos seus elementos ao conseguir este invejável feito. Estamos todos felizes e de parabéns. O acontecimento é grandioso e digno de ser recordado e quisemos isso mesmo: torná-lo memorável estendendo-o, por vosso intermédio, a ambas as famílias. Quisemos que fosse uma festa familiar, simples e privada, para dar mais espaço ao fluir dos sentimentos familiares que nos unem.
4. Mãe, foste ao  longo da tua vida um exemplo de Mãe, de Mulher e de Companheira. Fizeste ao longo da tua vida uma família feliz. Queremos aproveitar este dia para te agradecer tudo o que fizeste por nós e dizer-te quanto te amamos. Obrigados por teres estado sempre ao nosso lado. Somos uns privilegiados em ser teus filhos. Recebe agora de volta um pouquinho do imenso amor que ao longo destes 100 anos graciosamente nos des-te e queremos que continues connosco pois a tua presença é insubstituível.
A ela e a todos vocês, o nosso obrigado,
Francisco - Emilia - António – José - Fernando

...umas palavras dos Netos.

À Nossa Avó Ana…
O  teu sorriso marcado pelos 100anos,
é o testemunho que o tempo por ti passou,
o teu olhar sereno e a paz nos teus desenganos,
é a sabedoria que a vida te ensinou!

É tão fácil gostar de ti, avó! Tão fácil admirar-te…

Os teus 100 anos, levam-nos ao passado, às histórias que ouvíamos sobre ti, às doces lembranças que temos tuas e que fizeram a tua história…
 A história da Ana da Quelha, a Ana da Garceira, de Atães, da Boucelha, do Viso e a Ana de Gondomar…

A Quelha foi o teu berço duro, onde nasceste e te fizeste mulher…
Na Garceira encontraste o amor. Casaste com o nosso avô, o teu companheiro de 65 anos.
Em Atães, as agruras da vida no campo, mas que com amor foram lapidadas pelos teus frutos. Foste mãe e foi lá onde nasceram os nossos pais.
Na Boucelha, foi posta à prova a tua resistência. Carregaste cântaros e fardos na cabeça, estrada acima, estrada a baixo até Celorico. Kms que percorreste a pé, ás vezes a troco de 10 mil réis. E com sabedoria, dor e fé de mãe, separaste-te dos teus filhos ao entregá-los ao saber, para um dia serem alguém…
Na Cidade, já no Viso, com 55 anos feitos, foi o começar juntos e de novo. Ganhavas o pão no trabalho do campo, tinhas uma vaca, vendias o leite e encaminhaste para a vida os nossos pais.
Aqui, em Gondomar, o que sempre sonhaste… a casa da tua vida, o teu primeiro emprego! Os teus frutos deram frutos e aqui estamos nós, os teus 8 netos! Sempre nos trataste por igual. Aos oito abriste o teu coração e contigo aprendemos que nunca deveremos desistir, porque o caminho é feito de dificuldades.
Lembramo-nos de ti à janela no 1º andar, sempre à nossa espera; e, sem darmos conta, já estavas no rés-do-chão com o portão aberto. Nunca houve um dia em que não víssemos o teu sorriso e nos recebesses com aquele abraço e nos chamasses de ‘’meu filho’’.
Lembramo-nos das tuas merendas… que boas que eram, a broa e os bolinhos de bacalhau são inesquecíveis!
Inesquecíveis também, eram os aniversários e as festas; a nota dobrada que nos metias na mão e às escondidas.
Lembramo-nos do Natal… a tua casa cheia. O enorme relógio na parede da sala, parecia que parava nessa noite, tal era a ansiedade que sentíamos em ver o Pai Natal descer pela chaminé!
Virávamos-te a casa do avesso… ..mas era mágico o Natal em tua casa!
Avó Ana, para ti, em 1º lugar e sempre, estavam os outros.
Mas primeiro, e ainda antes dos outros, estavam os teus filhos, os teus netos, os teus bisnetos e o teu Avelino.
Depois sim, vinha o trabalho. Foi uma vida de sacrifício e sofrimento, mas com muito e muito amor.

Avó Ana, alguém disse que “a simplicidade é o último degrau da sabedoria”. Tu, és a mulher mais pura e simples que conhecemos neste mundo. Foi esta honestidade e simplicidade, que de uma forma tão própria tua e tão natural, nos transmitiste.
Este são os valores mais sagrados que queremos preservar e é a maior herança que nos podes deixar.

Avó Ana,
Foste a escolhida para nós,
E colhida por nós.

É tão fácil gostar de ti, avó!

Obrigada por tudo e por hoje estares aqui!

Os teus 8 netos – 18-11-2014

... umas palavras dos Bisnetos.

Bisavó Ana, que bonita que hoje estás e tão vaidosa estou por te ter aqui…
Pediram-me para escrever um pequeno texto sobre ser bisneta da grande senhora, que és... 
Fixei o lápis e a folha branca e tanto que tinha para dizer. O lápis, esse, olhava-me intrigado e amedrontado com a responsabilidade e o medo de não estar à altura do desafio… 
 - É apenas um lápis, é igual a todos os lápis que vi na minha vida! Porque é que um lápis me olha assim?
E a resposta encontrei-a em ti, minha bisavó!
- Tudo depende da maneira como olhamos as coisas, e com a tua maneira de olhar para as coisas foi assim que construíste o teu castelo, com as pedras que guardaste pelo teu caminho.
Hoje estamos todos por ti, aqui reunidos, porque foi assim que traçaste, tal como o meu lápis traça estas palavras. Tu que nasceste na guerra, e não tiveste medo! Pensar nisso, fez-me perder este medo e comecei a escrever.

Há cinco qualidades que fizeram de ti uma pessoa em paz com o mundo. 
- a tua primeira qualidade foi os teus grandes feitos de 1 século, sem nunca te esqueceres que existia uma mão que guiava os teus passos. Esta mão, que podemos chamar de Deus, conduziu-te em direção à sua vontade. Tu, querida bisavó, com a tua fé e oração, caminhaste sempre de mãos dadas com Ele! Contigo aprendi a ter fé.

- a tua segunda qualidade é, de vez em quando, precisaste de parar, tal como o meu lápis que pára o que está a escrever, e tem que ser afiado. Isso faz com que o lápis sofra um pouco e fez também que sofresses um pouco com cada paragem. Mas, no final, ele estará mais afiado, tal como tu! Portanto, soubeste suportar algumas dores, e assim aprendi que foram essas dores que fizeram de ti uma pessoa melhor. 

- a tua terceira qualidade é, tal como o lápis é companheiro da borracha para apagar o que está errado, tu também tiveste muito para apagar! Apagaste o que não estava certo, e seguiste em frente e hoje estás aqui… Aprendi com isso que afinal corrigir uma coisa não é necessariamente algo mau... 

- a tua quarta qualidade é, tal como no lápis, que o que realmente importa não é a madeira ou a sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. És velhinha, guardas no olhar e na pele as marcas de toda uma vida, nas mãos o trabalho duro e o sacrifício. Mas sempre cuidaste do teu interior, cultivaste amor, semeaste a paz e lutaste pela união da família. Aprendi que o mais importante é o que não é visível aos nossos olhos…

- a tua quinta qualidade é, o lápis sempre deixa uma marca... como tu bisavó, marcaste-nos para sempre! Tudo o que fizeste na vida, irá deixar traços... Por isso, com a consciência de cada ação, fizeste com que todos os teus desenhos fossem lindos! 

Com o meu lápis que no início me olhava intrigado, agora no final aprendi que a minha vida é uma linha feita com um traço em que a ponta final és tu, bisavó!
E que a ponta do início é a minha ponta, a ponta da minha irmã e de todos os teus bisnetos…
Nós, bisnetos, temos que correr para pegá-la
Soltando a imaginação e os nossos medos
E um dia, tal como tu, vamos alcançá-la!

Para concluir o meu texto, achei que ficava bem o teu retrato e desenhei-te com o meu lápis.

És a estrela mais bonita, que eu já vi, bisavó!


sábado, 22 de novembro de 2014

... em nome de minha Mãe: 100 Anos (2)

Olá, a toda a Família da Quelha (FdQ) e Família da Veiga (FdV).

Como podem ver pela foto ­- a foto não mente -, acabei de fazer 100 Anos e digo-vos que estou muito contente por cá ter chegado e poder festejá-los.
Não sei se já está na altura de fazer um balanço mas, até agora, gostei de percorrer os 36.500 dias com que fui agraciada pela natureza. Aproveitei-os a todos, um a um. 
Tenho tido uma vida bonita e feliz.

Meus filhos, netos e bisnetos estão aqui comigo e isso me basta: tê-los à minha volta é a minha maior alegria. Fizeram-me uma festa muito bonita, de que muito gostei, e espero que se repita.

Gostei muito que tivessem aceitado o convite pois rever alguns de vocês foi um lindo brinde surpresa que não pensava mais vir a ser possível. Juntarei vossos rostos e vossos mimos às minhas recordações diárias.

A eles e a vocês – a toda a FdQ e FdV – tenho no coração. São vocês todos que preenchem e aquecem os espaços vazios do meu dia-a-dia. Felizmente são muitos e tenho portanto em quem pensar sem me repetir muito, mas às vezes, confesso, tenho de fazer ‘zapping’para os poder ver a todos. É que passar por mais de 300 pessoas, e ainda por cima maravilhosas, todos os dias, demora algum tempo e posso não o ter disponível…

Não vou alongar-me pois não quero que despendam mais tempo comigo mas antes que o dediquem à vossa família, essa sim, é importante e vale a pena.

Espero continuar a vê-los por aqui no FB. Quando não puderem de outra maneira, falem aqui uns com os outros e gostem-se.

Aproveitem e festejem a vida porque é muito bom viver.

Obrigada por me ouvirem.

Lembro hoje, aqui e agora, meus saudosos pais, Francisco e Antónia da Conceição, meus queridos e amigos irmãos e cunhados e seus filhos, netos e bisnetos: os do Manuel, do Inácio, do António, do José, da Maria, do Gervásio, da Rosa, da Teresa e da Amélia. Não sei se a ordem é bem esta, mas olhem, esta minha cabeça já não é o que era… 
Lembro ainda meu saudoso e bom marido, Avelino, meus amados filhos, meus lindos netos e adorados e traquinas bisnetos.

Para eles e para todos vocês vão os meus desejos de muita saúde, paz e alegria.

Beijo-vos a todos com amor e alegria,

Ana dos Prazeres Carvalho

terça-feira, 7 de outubro de 2014

... escrever um Livro!

"Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro"!

Há muitos anos que tropeçava nesta expressão: 'ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro'. Quando a ouvia de alguém passava-me pela mente o exagero, o pretensiosismo, o despropósito seguidos de algum desdém e desrespeito por quem a emitia, mesmo se convictamente. Definitivamente não a levava a sério; até risível e desprezível conseguia pensar do que então ouvia.
O certo porém é que no acontecer normal da vida o filho, no caso a filha, apareceu. Em boa hora, diga-se.
Mais tarde, também, fruto um pouco do acaso, a árvore, aliás várias, foi plantada.

O livro, faltava o livro.

Decorreram alguns anos e a carga negativa da expressão foi diminuindo de intensidade. Com o tempo, o 'risível' foi-se paulatinamente esbatendo e passou para a zona mais adormecida do cérebro.

Entretanto a vida continuava seu curso.

Outrora fui um leitor não direi compulsivo mas bastante amigo dos livros. Conservei sempre essa proximidade embora com distâncias irregulares. A leitura, a par de outras, sempre foi uma enorme porta aberta para o mundo, para novas descobertas e para o conhecimento, no seu sentido mais lato.

Fiz todavia um interregno da leitura mais assídua dos livros, para acompanhar com mais detalhe outra porta de entrada de informação e novidades: os jornais, a televisão e mais recentemente a internet. Na internet, a sua fonte inesgotável de informação levou-me, (e continua a levar) à subscrição de inúmeras Newsletter noticiosas oriundas de muitos quadrantes e dos vários cantos do mundo. E aí sim, esse acesso fácil e instantâneo a todas as notícias, traduziu-se efetivamente num salto gigantesco a tudo e em toda a parte do globo.

Foi já em 2010 quando mudei da casa, que me desfiz de uma boa parte dos livros que cuidadosamente conservava e isto pela simples razão de que não havia espaço disponível para os acomodar convenientemente na nova residência. Doei-os então a uma junta de freguesia das redondezas. Fiquei apenas com uma coleção de reserva (talvez uns 200) que, por ser coleção e serem todos do mesmo tamanho e com o formato de 'pocket book', facilitou e muito a sua arrumação e conservação.

Já na nova residência e tendo de deslocar-me todos os dias para o emprego, de Metro, em que despendia uma hora por dia (meia, mais meia), começou o tédio a acumular e a distorcer o lado lúdico da viagem. Olhar todos os dias as mesmas sonolentas e silenciosas pessoas ou escutar o som eletrónico, desumanizado, metálico, impessoal, frio, ensurcedor e rotineiro da menina do Metro ('Matosinhos Sul'; 'Matosinhos Sul' - 'Sentido, direction, Senhor de Matosinhos'), estava a destabilizar-me um pouco. O reservatório da tolerância estava a encher aceleradamente.
Que fazer?
Como resolver a questão?
Sem muita convicção ou mesmo vontade fui à estante e apanhei 'Cartas de Guerra' de António Lobo Antunes.
Além de me deparar com uma escrita fácil, o tema do livro era-me familiar: a guerra colonial portuguesa.
A leitura do livro reacendeu em mim recordações vívidas dos dois anos que por lá passei. Entusiasmado pelo fervilhar das recordações, alinhavei algumas perspetivas e vivências pessoais sobre o tema e coloquei-as lá, no próprio livro, e posteriormente neste Blog.
A seguir a este, outros livros foram aparecendo (recorrendo também aos da minha filha/genro) e durante as leituras a vontade de me pronunciar sobre os temas neles tratados ou sobre outros que eles me inspiravam, foi-se impondo naturalmente.
E aí nasceu o gosto de escrevinhar.
Já tinha experimentado textos e temas livres que inopitamente me iam surgindo ou a vida suscitava, mas as leituras de livros provocavam-me e convocavam-me quase irresistivelmente.

O Blog foi a solução encontrada, mais amigável, para a execução deste impulso.

Encontrar a fórmula, o formato e o estilo da escrita passou por um processo de aprendizagem e experimentação que levou algum tempo a definir-se até ao ponto em que comecei a sentir-me confortável e confiante com o resultado.

O processo criativo e a arrumação das ideias não sendo fácil e muito menos automático é todavia, para além de exigente, estimulante e até, por vezes, inebriante. Requer inclusive algumas cautelas para a salvaguarda do excessivo ou do deslumbramento torpe.

Não foi fácil ou pacífica a sua exposição na 'net'. Durante bastante tempo não tive a coragem suficiente para isso. Foi necessário vencer algumas enraizadas resistências interiores.
Passado algum tempo, anos, verifiquei não ser especialmente importante a sua exposição ao grande público internetiano. Estimulante, sim, começou a ser o prazer sentido na sua criação. Mais relevante que o número de leitores, quem lê, ou o que pensarão sobre o que eventualmente leiam, é ver expressas em forma de letra, o que este ou aquele tema me inspira ou sobre outros me apraz pronunciar. O que cada um pensa pertence ao seu direito individual e intocável e não me apoquenta mais. Assim como me sinto livre para pensar e escrevinhar, assim todos os outros o sentirão (ou não) também; mas isso pertence ao foro íntimo de cada um e a ninguém é dado o direito de o retirar.

Passei com alguma facilidade para o comentário / opinião político e social, com bastante naturalidade e apetência. Comecei também a incluir um ou outro pedaço de vida pessoal não só em texto próprio como inserto noutras crónicas, adicionando evidências pessoais como complementos à minha opinião ou ao tema em tratamento.

Estou numa fase de maior confiança em que transponho para aqui o que em cada momento me ocorre e sobre o qual acho oportuno dizer algo. As barreiras estão bastante mais reduzidas e salto-as com algum à-vontade.

Tem sido uma experiência bem interessante, com motivações e conclusões inesperadas.

Funciona muitas vezes como catarse para temas que pontualmente ou sempre me acompanharam mas que ao passá-los para aqui provocam um alívio apaziguador. Até parece que, ao alijar essa 'carga', fico mais leve, mais em paz comigo mesmo ou, porque não, como que me desfaço dela entregando-a a alguém.

Obviamente que ao pensar-se num tema e por uma questão de lealdade e honestidade tenta-se ser o mais verdadeiro possível. Não se devendo lealdade a terceiros fica apenas a verticalidade pessoal em causa e aí, pode-se não se ser verdadeiro - embora se tente (errare humanum esd) -, mas o que se escreve é honesto e sincero.
Também é verdade que, não raras vezes, se escreve pensando na pessoa A ou pessoa B, funcionando um pouco ao contrário de quando nos posicionamos como leitores ao sentirmo-nos incluídos neste ou naquele parágrafo de um qualquer texto.
Por outro lado, ao longo da vida, o nosso depósito de conhecimentos, experiências, vivências e emoções, tendem a enchê-lo até ao vazamento, e dá vontade a certa altura que esta emulsão laboratorial veja a luz do dia. Quanto mais não seja para memória futura.

Tenho notado que fico refém do que escrevinho, isto é, á medida que aqueles temas evoluem ou vão sendo repassados no tempo, vão sendo sempre testados e validados no dia-a-dia; se continuam a fazer sentido. Logo, o mais seguro é estar-se bastante certo com o que se escreve. 
Obviamente que o discurso oral alicerça-se muito no que já foi ali pensado e escrito, sendo que o contrário também é verdadeiro. Quantas vezes uma conversa solta, um pensamento, uma frase aparecidos do nada, vão servir de mote para o tema que mais tarde se desenvolverá.
Obviamente, também, não reescrevinho nada. O que foi escrito, assim fica.

Irei continuar a escrevinhar assim me acompanhe o gosto, alguma inspiração, algum engenho e alguma arte.

Voltando ao início deste apontamento, dou por ultrapassadas as dúvidas e demais questões referidas e, digo mais, aconselho vivamente a qualquer um a simples tentativa ainda que em regime experimental. Estou certo que concluirão o mesmo que eu: vale bem a pena.