terça-feira, 7 de outubro de 2014

... escrever um Livro!

"Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro"!

Há muitos anos que tropeçava nesta expressão: 'ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro'. Quando a ouvia de alguém passava-me pela mente o exagero, o pretensiosismo, o despropósito seguidos de algum desdém e desrespeito por quem a emitia, mesmo se convictamente. Definitivamente não a levava a sério; até risível e desprezível conseguia pensar do que então ouvia.
O certo porém é que no acontecer normal da vida o filho, no caso a filha, apareceu. Em boa hora, diga-se.
Mais tarde, também, fruto um pouco do acaso, a árvore, aliás várias, foi plantada.

O livro, faltava o livro.

Decorreram alguns anos e a carga negativa da expressão foi diminuindo de intensidade. Com o tempo, o 'risível' foi-se paulatinamente esbatendo e passou para a zona mais adormecida do cérebro.

Entretanto a vida continuava seu curso.

Outrora fui um leitor não direi compulsivo mas bastante amigo dos livros. Conservei sempre essa proximidade embora com distâncias irregulares. A leitura, a par de outras, sempre foi uma enorme porta aberta para o mundo, para novas descobertas e para o conhecimento, no seu sentido mais lato.

Fiz todavia um interregno da leitura mais assídua dos livros, para acompanhar com mais detalhe outra porta de entrada de informação e novidades: os jornais, a televisão e mais recentemente a internet. Na internet, a sua fonte inesgotável de informação levou-me, (e continua a levar) à subscrição de inúmeras Newsletter noticiosas oriundas de muitos quadrantes e dos vários cantos do mundo. E aí sim, esse acesso fácil e instantâneo a todas as notícias, traduziu-se efetivamente num salto gigantesco a tudo e em toda a parte do globo.

Foi já em 2010 quando mudei da casa, que me desfiz de uma boa parte dos livros que cuidadosamente conservava e isto pela simples razão de que não havia espaço disponível para os acomodar convenientemente na nova residência. Doei-os então a uma junta de freguesia das redondezas. Fiquei apenas com uma coleção de reserva (talvez uns 200) que, por ser coleção e serem todos do mesmo tamanho e com o formato de 'pocket book', facilitou e muito a sua arrumação e conservação.

Já na nova residência e tendo de deslocar-me todos os dias para o emprego, de Metro, em que despendia uma hora por dia (meia, mais meia), começou o tédio a acumular e a distorcer o lado lúdico da viagem. Olhar todos os dias as mesmas sonolentas e silenciosas pessoas ou escutar o som eletrónico, desumanizado, metálico, impessoal, frio, ensurcedor e rotineiro da menina do Metro ('Matosinhos Sul'; 'Matosinhos Sul' - 'Sentido, direction, Senhor de Matosinhos'), estava a destabilizar-me um pouco. O reservatório da tolerância estava a encher aceleradamente.
Que fazer?
Como resolver a questão?
Sem muita convicção ou mesmo vontade fui à estante e apanhei 'Cartas de Guerra' de António Lobo Antunes.
Além de me deparar com uma escrita fácil, o tema do livro era-me familiar: a guerra colonial portuguesa.
A leitura do livro reacendeu em mim recordações vívidas dos dois anos que por lá passei. Entusiasmado pelo fervilhar das recordações, alinhavei algumas perspetivas e vivências pessoais sobre o tema e coloquei-as lá, no próprio livro, e posteriormente neste Blog.
A seguir a este, outros livros foram aparecendo (recorrendo também aos da minha filha/genro) e durante as leituras a vontade de me pronunciar sobre os temas neles tratados ou sobre outros que eles me inspiravam, foi-se impondo naturalmente.
E aí nasceu o gosto de escrevinhar.
Já tinha experimentado textos e temas livres que inopitamente me iam surgindo ou a vida suscitava, mas as leituras de livros provocavam-me e convocavam-me quase irresistivelmente.

O Blog foi a solução encontrada, mais amigável, para a execução deste impulso.

Encontrar a fórmula, o formato e o estilo da escrita passou por um processo de aprendizagem e experimentação que levou algum tempo a definir-se até ao ponto em que comecei a sentir-me confortável e confiante com o resultado.

O processo criativo e a arrumação das ideias não sendo fácil e muito menos automático é todavia, para além de exigente, estimulante e até, por vezes, inebriante. Requer inclusive algumas cautelas para a salvaguarda do excessivo ou do deslumbramento torpe.

Não foi fácil ou pacífica a sua exposição na 'net'. Durante bastante tempo não tive a coragem suficiente para isso. Foi necessário vencer algumas enraizadas resistências interiores.
Passado algum tempo, anos, verifiquei não ser especialmente importante a sua exposição ao grande público internetiano. Estimulante, sim, começou a ser o prazer sentido na sua criação. Mais relevante que o número de leitores, quem lê, ou o que pensarão sobre o que eventualmente leiam, é ver expressas em forma de letra, o que este ou aquele tema me inspira ou sobre outros me apraz pronunciar. O que cada um pensa pertence ao seu direito individual e intocável e não me apoquenta mais. Assim como me sinto livre para pensar e escrevinhar, assim todos os outros o sentirão (ou não) também; mas isso pertence ao foro íntimo de cada um e a ninguém é dado o direito de o retirar.

Passei com alguma facilidade para o comentário / opinião político e social, com bastante naturalidade e apetência. Comecei também a incluir um ou outro pedaço de vida pessoal não só em texto próprio como inserto noutras crónicas, adicionando evidências pessoais como complementos à minha opinião ou ao tema em tratamento.

Estou numa fase de maior confiança em que transponho para aqui o que em cada momento me ocorre e sobre o qual acho oportuno dizer algo. As barreiras estão bastante mais reduzidas e salto-as com algum à-vontade.

Tem sido uma experiência bem interessante, com motivações e conclusões inesperadas.

Funciona muitas vezes como catarse para temas que pontualmente ou sempre me acompanharam mas que ao passá-los para aqui provocam um alívio apaziguador. Até parece que, ao alijar essa 'carga', fico mais leve, mais em paz comigo mesmo ou, porque não, como que me desfaço dela entregando-a a alguém.

Obviamente que ao pensar-se num tema e por uma questão de lealdade e honestidade tenta-se ser o mais verdadeiro possível. Não se devendo lealdade a terceiros fica apenas a verticalidade pessoal em causa e aí, pode-se não se ser verdadeiro - embora se tente (errare humanum esd) -, mas o que se escreve é honesto e sincero.
Também é verdade que, não raras vezes, se escreve pensando na pessoa A ou pessoa B, funcionando um pouco ao contrário de quando nos posicionamos como leitores ao sentirmo-nos incluídos neste ou naquele parágrafo de um qualquer texto.
Por outro lado, ao longo da vida, o nosso depósito de conhecimentos, experiências, vivências e emoções, tendem a enchê-lo até ao vazamento, e dá vontade a certa altura que esta emulsão laboratorial veja a luz do dia. Quanto mais não seja para memória futura.

Tenho notado que fico refém do que escrevinho, isto é, á medida que aqueles temas evoluem ou vão sendo repassados no tempo, vão sendo sempre testados e validados no dia-a-dia; se continuam a fazer sentido. Logo, o mais seguro é estar-se bastante certo com o que se escreve. 
Obviamente que o discurso oral alicerça-se muito no que já foi ali pensado e escrito, sendo que o contrário também é verdadeiro. Quantas vezes uma conversa solta, um pensamento, uma frase aparecidos do nada, vão servir de mote para o tema que mais tarde se desenvolverá.
Obviamente, também, não reescrevinho nada. O que foi escrito, assim fica.

Irei continuar a escrevinhar assim me acompanhe o gosto, alguma inspiração, algum engenho e alguma arte.

Voltando ao início deste apontamento, dou por ultrapassadas as dúvidas e demais questões referidas e, digo mais, aconselho vivamente a qualquer um a simples tentativa ainda que em regime experimental. Estou certo que concluirão o mesmo que eu: vale bem a pena.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Roménia e Bulgária, com a PLV

04 a 13 de Agosto '2014

I)
Antes da viagem

Mais uma vez, como é meu hábito, não preparei esta viagem. A preguiça, por um lado, e o gosto do fator surpresa, por outro, continuam a marcar pontos. A opção por estes dois países insere-se na vontade de observar in loco a 'diferença' e conhecer novos mundos e novas gentes e as suas histórias. Dos chamados países de leste, conheço apenas a Rússia, mais concretamente São Petersburgo, Moscovo e arredores; ou seja conheci a cabeça do Império Ksarino e Comunista, mas não ainda nenhum dos países seus satélites. Exceção para a República Checa e Eslováquia, em 1989.

Limitei-me a consultar os Pibs Per Capita / ano de ambos
[Roménia: 8.000 USD e Bulgária: 5.000 USD (Portugal: 20.000, Botswana: 16.000, Alemanha: 40.000, Sri Lanka: 1.000) e a suas populações e áreas, 23.000.000 / 240.000 km2, para a Roménia e 7.000.000 / 110.000 Km2, para a Bulgária],
e recordar o que a história guardou de cada um deles.

Se da Roménia detenho pouca informação, da Bulgária bastante menos. Da Roménia, recordo a sua inclusão e a consequente subordinação ao Império Otomano (até 1879) e ao Austro-húngaro até finais da primeira guerra (1918), o seu envolvimento nas duas guerras mundiais e principalmente da era de dependência comunista terminada apenas em 1989. A sua história foi pródiga, 'colorida' e terrível durante os duros e pobres anos da governação do ditador comunista, cruel e sanguinário Nicolae Ceauşescu. A vida sumptuosa que levou contrastou com a da sua gente, a todos os títulos miserável, de alguma indigência mesmo. Exceção, naturalmente e sempre, para a entourage que o sustentou durante todo esse tempo.
Hoje, desde 2007, está na U. E. e tenta soerguer-se nomeadamente através do financiamento dos fundos comunitários. Por motivos políticos e sociais mas também financeiros, estão neste momento a alienar o abastado património de Nicolae Ceauşescu. Infelizmente, digo eu. Em alturas de muito aperto vence sempre a tese do 'vão-se os anéis mas fiquem-se os dedos'. Mate-se a fome às pessoas em primeiro lugar. Mas é pena que assim tenha de ser. Espero que os seus dirigentes estejam a fazer a coisa certa e inevitável. E digo que é pena pois este espólio poderia ser um bom atrativo e ativo a explorar em particular para o setor turístico. Oxalá consigam conservar, pelo menos parte, para esse fim.

Durante alguns anos mantive alguma 'proximidade' profissional com o país em resultado do Banco Millennium, que o Millenniumbcp, Portugal, lá teve e que acabou de vender. Mantive contactos funcionais diários com esses colegas de profissão mas daí, desses contatos, não resultou especial conhecimento do país ou das suas gentes. Apenas espicaçou a curiosidade e interesse. Vou ver, pois, agora, o que consigo captar.
As minhas expectativas são baixas, bastantes baixas. Estou à espera de um país em progressão, pobre, desorganizado e com a ainda era monumental comunista a dominar.
Levo uma antiga curiosidade que é a de ver como se insere a comunidade cigana - 2.000.000 - no todo nacional.
Uma nota a propósito dos ciganos: nunca nutri simpatia por eles nem pelas suas opções de vida errante, nómada e anti comunitária de que se orgulham. Gostam de viver fora do sistema, e usufruir dos seus benefícios mas não contribuir para a sua manutenção. Ou seja só querem a parte boa.

II)
Depois da viagem.

i)
Roménia: um país em desenvolvimento e desconcertante.
Ao longo dos 1.000 Kms percorridos, das 14 cidades visitadas e de 10 dias em excursão guiada, uma pergunta diariamente esquadrinhava em todos os cantos e recantos: como traduzir numa palavra ou expressão curta a impressão da visita turística a este país?
Tive de socorrer-me de duas: em desenvolvimento, numa visão benévola e desconcertante, numa perspetiva impressionista.
Conhecemos o seu percurso histórico e conhecemos também as vicissitudes e os entraves com que essa mesma história complicou a sua independência. Foi, como sabemos, pertença de alguém por tempo excessivo. Quando parecia, finalmente, ter chegado a sua hora, caiu-lhe violentamente o comunismo em cima submergindo-se por mais um longo período.
A seguir ao fim do comunismo, 1989, as naturais convulsões sociais originadas pela experimentação da liberdade, perturbaram a reorganização da sociedade. Apenas em 2007 com a adesão à UE e por necessidade imperiosa de acesso aos fundos comunitários para o financiamento da economia, começaram a aceitar a nova tutela e as suas regras. Com o dinheiro a entrar as tensões sociais acalmaram.
Porém, os anos de estagnação comunista deixaram marcas de monta por todo o lado.
O país está compartimentado, coexistindo e convergindo em, pelo menos, 4 componentes:
Uma palaciana do tempo dos impérios e da curta monarquia;
uma segunda de influência comunista cuja parte mais visível são os prédios de habitação populares e os megalómanos dos membros do politburo e os dos seus suportes, sobretudo em Bucareste;
uma terceira fortemente agrícola e
uma quarta filha já dos dinheiros da UE, em construção. 
Cada uma delas é perfeitamente visível nos respetivos lugares. Destaco porém a agrícola e a megalómana construção comunista. 
Ao percorrer o país, para além da imensa e dominante paisagem verde que nos é oferecida pelo cultivo dos campos e pelas serranias dos Cárpatos - o lado bucólico é muito matizado e francamente cativante -, ficamos apreensivos senão mesmo chocados com o estado depauperado das casas das pessoas. A sua deficiente manutenção influencia pesada e negativamente a impressão que deixam. Obviamente que se estão assim é em resultado de todo um passado de uma economia coletivizante e instável com raízes nos anos do comunismo (1947/1989). A coloração, repetidamente acastanhada, dos telhados feitos de chapa em estado avançado de ferrugem, envelhecem o país e dão dele uma imagem de algum abandono e triste, mas que cola com a realidade.
A URSS aproveitou-se da Roménia para dela explorar a produção de cereais - o seu principal celeiro abastecedor - não cuidando de estruturar o setor (típico de país explorador).
Não se vislumbra com clareza o impacto dos dinheiros recentes chegados da UE. Não acompanhei as negociações e desconheço o quadro com que a sobrevivência da agricultura foi salvaguardada, se o foi. Desejo apenas que o tenha sido por ter ficado com a ideia de que o país tem enormes potencialidades agrícolas e que seria um erro para o país e para a própria UE se deliberadamente as ignorassem. Diria até que seria um crime de lesa humanidade se não se aproveitasse este enorme recurso natural. Oxalá que o seu estado atual, similar ao português dos anos 80 do século XX, se converta rapidamente e incorpore as novas tecnologias, posicionando-se assim como player importante no mercado mundial como grande produtor de bens primários.

Perguntado agora, passado já algum tempo sobre o fim da viagem em que, por isso, alguma poeira daninha já se foi, sobre o que mais facilmente retenho da Roménia, a minha resposta começa a ficar clara: a agricultura, por estar presente e dominante a cada canto (e por definir o tipo de vida de uma quantidade significativa de pessoas), e a construção megalómana de Nicolae Ceauşescu.
Ao percorrer o país vamos construindo dele um quadro monocórdico, estagnado e sombrio, porém, ao chegarmos à capital somos surpreendidos por uma espécie de oásis formado pelas construções populares, pelas dos elementos do politburo e afins e principalmente pelo edifício onde funciona o atual parlamento (e não só).
Não vou aqui replicar a sua história ou detalhar a sua construção e constituição pois tudo isso está abundantemente documentado e espalhado pela internet. Direi apenas que, quer de longe quer de perto e por dentro, impressiona!
Impressiona a sua excessiva volumetria!
(Com 350.000 m² é o maior palácio do mundo e o segundo maior edifício, após o Pentágono)
Impressiona a conceção e execução arquitetónicas!
Impressiona a seleção e riqueza dos materiais utilizados!
Impressiona toda a sua sumptuosidade!
Impressiona o cuidado e requintes dos acabamentos!
Impressiona a fácil circularidade pelo seu interior!
Impressiona o prazer que empresta e com que deslumbra o visitante!
Impressiona como é que foi possível um país pobre, com qualidade de vida indigente, ter sido e durante tanto tempo, governado por um ditador desqualificado e ter permitido a construção de uma obra desta envergadura apenas para exibição e gáudio do seu mentor!
Impressiona!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_do_Parlamento )

Algumas notas avulsas:

Turismo
Visivelmente num crescendo. O trabalho de campo já foi feito e eleitos os principais ícones que alimentarão o setor. Lembro o Castelo de Bran (de Drácula) em Brasov, as montanhas dos Cárpatos, o Delta do Danúbio (património da Unesco), o centro histórico de Sighisoara, (património da Unesco), Mar Negro, os Mosteiros pintados, o Palácio da Caixa Económica, Sinaia (Castelo Peles), Bucareste.

Rede viária
Em pré-início de construção. Não há ainda autoestradas.

Paisagem natural
Composta por um mix alternado entre a planície e o planalto povoados e alegrados pelo pastoreio (muito diferentes das paisagens da Grã-Bretanha onde predomina a monótona e cansável verdura e os tão falados carneiros);
o serrano e a floresta negra, mais parecendo esta um prolongamento da Alemã.

Conde Drácula
O Castelo de Bran (1212), casa de Vlad III, mais conhecido entre nós como o Castelo de Drácula - uma não história ou história virtual (de literatura) - projeta e promove o país além-fronteiras; por ventura o seu maior e mais famoso ex-libris internacional. O Conde Drácula está para a Roménia como o vinho do Porto para Portugal.
Não deixa de ser notável a força e a dimensão que este fenómeno literário alcançou em todo o mundo.
Verifiquei com ingénuo espanto que o país não aproveita capazmente esta publicidade já consagrada para se promover no exterior. Achando estranho, fui investigar. Do que me foi dito, fiquei com a ideia de que os romenos não apreciam particularmente a recreação literária preferindo a verdadeira (já em fase de lenda); dessa, sim, gostam por Vlad III, o Empalador, ser seu herói na conquista secular pela independência do país.

Nicolae Ceauşescu / Helena Ceauşescu
Sente-se uma animosidade latente e uma sensibilidade especial do país em geral perante estes dois personagens. Regista-se como maturidade democrática o normal acolhimento que é dado há ainda existência de Valentin Ceauşescu, um dos 3 filhos do casal. Vive sua vida de normal cidadão e não é incomodado pelo fato de não ter aderido às loucuras dos pais ou dos dois outros irmãos, os primeiros mortos após julgamento sumário e os segundos já desaparecidos, vítimas dos seus públicos vícios: cirrose e cancro pulmão.
Se é verdade que os Ceauşescus continuam a ser uma referência inesquecível, inultrapassável  e a abater e por razões  justificadas - com as quais concordo por inteiro -, também é verdade que serve outros propósitos. Os políticos de hoje e dos próximos anos precisam dessas bandeiras que utilizam como cortinas para ofuscar este ou aquele ato de gestão política mais difícil de fazer passar na opinião pública.
Alexandru Vișinescu, antigo comandante de um campo de trabalhos forçados, começou agora a ser julgado em Bucareste, por exemplo. Manter viva e atiçada ocasionalmente esta chama revolucionária é útil e com sucesso garantido. É um dos truques bem conhecido a que assistimos noutras geografias, em muitas mesmo, apenas com outras bandeiras: Angola usa (e abusa) da dos ex-colonizadores, nós os portugueses; Maduro, na Venezuela, usa Chaves; Cuba e Coreia do Norte, a América e o Ocidente em geral; alguns países árabes, o islão, etc.
Há poucas semanas circulou no ocidente a notícia, - que lá não me confirmaram, pelo contrário, negaram - de que estariam a vender o ouro dos Ceauşescus. Interpreto a notícia, ou melhor não notícia, como intencional e enquadrada na exploração do fenómeno Ceauşescu.

Ciganos
Mantendo o que disse no último parágrafo do ponto I), acrescento agora alguns detalhes.
Sabemos que a sua história, sua vida, sua procedência indiana e chegada à Europa no século XV, está envolta em incertezas a que a sua existência ágrafa muita contribui para alimentar especulações. O que se vai conhecendo é-nos transmitido por terceiros que, apesar de sérios, deixam, todavia, que a dúvida do seu verdadeiro estilo de vida e vida, permaneçam.
Posto isto, e voltando concretamente aos ciganos romenos, ficamos com a ideia de que, por razões atribuíveis a eles mesmo, estão acantonados, ou, melhor dito, distribuíram-se por áreas conhecidas e não propriamente segregados; que continuam a viver como sempre viveram: rejeitando a integração.
E isso tem consequências que se podem traduzir pela dificuldade que o país tem em lidar com o assunto. O país está na UE e esta, como grande centro difusor de influências, de cultura e de poder, não abdica de ver alinhados e normalizados procedimentos e até maneiras de estar em sociedade e de difundir uma certa ideia de cultura a que chamarei 'europeia ou ocidental'.
Se é verdade que no ocidente europeu se enraizou a ideia de 'personas non gratas' - e essa é também a minha -, tal se deve à sua postura isolacionista e fechada à sociedade. Corpos estranhos, por tendência, são naturalmente rejeitados.
Acabo este apontamento dizendo que poderia ser outro o seu comportamento e a perceção que deles se tem se a Roménia fosse um país próspero e rico. 'Casa onde não há pão ...'

Alimentação / Refeições
Estrategicamente a PLV programou praticamente todas as refeições em restaurantes de hotéis. Por norma esta opção ocorre em países onde o setor não responde aos níveis tidos como normais, estando em causa a qualidade da confeção culinária, o conforto dos espaços e a segurança higiénico-alimentar.
A opção confirmou-se correta. Mesmo servidos em hotéis a qualidade culinária era um pouco abaixo dos padrões europeus, incluindo a falta de diversidade (sobretudo frango e porco).
Não usam sopa! e em sua substituição servem salada de vegetais.
Não relevo as quantidades servidas pois para mim isso não é importante.
Acrescento, porém, que, sabemos, o resultado final também depende do que foi previamente comprado pelo agente de viagens, que, no caso da PLV, nos habituou a bons padrões. Ou seja, adianto que o que digo pode não corresponder exatamente à verdade.

ii)
Bulgária
Percorri apenas 300 km's mas deu para perceber o que será o país.
Tem semelhanças com a Roménia mas também tem marcas próprias e bem distintas. As casas sendo igualmente de construção frágil e de manutenção minguada, parecem-se bastante mais com as europeias, a começar pela cobertura: telhados como os nossos. Parece um pormenor sem grande importância mas o que é fato é que este visual os aproxima, desde logo, muito mais de nós, dos nossos usos e costumes.
Não fossem os grandes blocos habitacionais da era comunista que ainda dominam e toldam o horizonte (e em acelerada degradação), e até pareceria que não tinha sido um país comunista.

Alfabeto Búlgaro
O grupo económico a que aderiram em 2007, a UE, vai obrigar a grandes transformações e opções alinhados pelos centros de gravidade europeus. Os grandes atraem e sobrepõem-se aos mais pequenos obrigando mesmo à anulação de boa parte das suas culturas, mesmo as mais importantes como é o caso do alfabeto.
O melhor e maior exemplo disso será a adoção do alfabeto romano com a consequente descontinuação do original, o cirílico.

Mulheres búlgaras
As mulheres búlgaras são elegante e provocadoramente bonitas pelo menos as mais vistas no centro da capital. Não consegui captar e ninguém conseguiu explicar do porquê e a que grupos sociais pertenciam mas, adivinhando, quiçá filhas privilegiadas da corrupção que, dizem, ser enorme, endémica e sistémica. Mas por ora isso não é relevante. O que ficou foi sua elegância - são altas em geral - seu look europeu, seu porte altivo e sabem, nota-se, que são bonitas.

Grande Hotel de Sofia
Refiro este hotel por ter sido o melhor hotel onde estive até hoje. Um 5* construído no prolongamento de um outro do antigo do regime, de que manteve o nome, mas com dimensões, espaços interiores, composição e decoração dos quartos, bem fora e acima do normal. As suites são soberbas: vários compartimentos, vários WC's e decoração cuidada e requintada.

III)
Custa a perceber como é que nos dias de hoje ainda há partidos políticos que defendem aqueles extintos modelos de organização da sociedade. É que apenas aproveitam o grupo dirigente paralisando a necessária dinâmica da economia. Está mais que provado de que o grande motor da modernização e evolução das sociedades passa pela estabilidade do direito à propriedade privada e à livre iniciativa económica para se produzir riqueza. Ora, aquele sistema não admite nenhum deles e as consequências são paralisantes.

IV)
Observações finais
As diferenças entre estes dois países são facilmente notadas e na aparência contradizem os seus PIBs.
Na Roménia, apesar do PIB ser ligeiramente mais elevado, o país rural com os tetos das casas característicos, de cor da ferrugem, a que se somam a inexistência da indústria e a agricultura numa fase pré-industrial, sem autoestradas, dá uma monótona ideia de um país envelhecido e de inevitavelmente lenta, muito lenta, recuperação económica.
As urbes confinam-se a Bucareste e não se pode dizer que tenha um ambiente cosmopolita. A segunda cidade, Brasov, está a anos-luz da Capital. Shausesco concentrou estrategicamente os dinheiros disponíveis na capital.
O palácio do povo é um absurdo nacional. 3 Biliões de USD enterrados num único espaço em claro detrimento ou dispersão pelo todo nacional. É um oásis no todo romeno. Enquanto monumento é de fato um ex-libris extraordinário a vários títulos e muitas dimensões. Além de ser o segundo monumento maior do mundo, logo a seguir ao Pentágono, oferece-nos uma riqueza exuberante dotado de salas ricamente trabalhadas e de dimensões inimagináveis.
Mas tudo isso reduz o país.
Bulgária, apesar de mais pobre, dá a ideia de melhor distribuída. A era comunista, não fora as tristes construções dos edifícios perfeitamente datadas, seria de mais fácil e rápida transformação.

Acompanharemos o futuro de ambos desejando-lhes o melhor.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Um Milionário em Lisboa", de José Rodrigues dos Santos, (JRS)

(Ver comentário no Post de 23JUN’2014 sobre o primeiro tomo da vida de CG)
http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2014/06/estamos-em-presenca-de-mais-um-livro-de.html 
JRS inicia este 2º volume da 'pseudo-biografia' de Calouste Gulbenquian colocando seu filho KriKor (nome para o romance) em ação e no centro dela. Contextualiza sua entrada em cena inserindo-o e inserindo a saga do povo armênio ocorrida nos anos 1915 / 1923. Fá-lo usando o primeiro terço do livro de forma primorosa e tocante. Introduz na deportação e no genocídio toda uma série de episódios criteriosamente selecionados, que ilustram bem o sofrimento infligido a este povo / nação, massacrado pelos seus carrascos e trucidários turcos, ao tempo os ‘senhores’ do império otomano.
Faltou um detalhe (!?), a quantificação que se estima em 1.500.000 mortos, segundo os últimos estudos publicados em 2006.
O relato que JRS expõe sobre o que foi o império otomano e em particular sobre as atrocidades infligidas sobre o povo arménio, poderia e gostaria que tivesse ido mais longe. Mas não está mal, aceita-se.

Um pouco de história da Arménia (mais recente):
Nação secular remontando a 2.492 (a.C).
Foi a primeira nação a adotar o cristianismo como religião de Estado em 301 (d.C).
Entre 1915 e 1923 sofreu o que os historiadores consideram o primeiro genocídio do século XX, perpetrado pelo Império Otomano e negado até hoje pela República da Turquia. As mortes são estimadas em 1,5 milhão de arménios e a deportação de milhões de outros, fazendo com que a Arménia tenha uma diáspora gigantesca pelo mundo de descendentes que, fugindo das perseguições, tomaram o rumo de países como França, Estados Unidos,  Argentina,  Brasil,  Líbano e muitos outros.
República Democrática da Arménia estabelecida em 1918
Independência da URSS desde 03AGO1990
Área 29.743 km2
População 3,262.000
Densidade 108 Km2
Diáspora: 8.000.000
Pib Per Capita 5,000 USD/Ano (Portugal 23,000)

Em SET’2001, nas vésperas da queda das torres Gémeas, 11SET, 
(…mas a viagem estava programada), fiz uma viagem turística à Turquia.
Foi o primeiro país árabe que conheci, seguindo-se em datas posteriores Marrocos e Tunísia. Os três bastantes parecidos, aliás, no que aos usos e costumes dos seus povos diz respeito. Esta viagem foi pensada com o objetivo de começar a conhecer os países de influência árabe e, no caso concreto, conhecer também a sede do que foi o grande e longo império otomano.
Percorri quase metade do país, as zonas mais importantes e turisticamente mais emblemáticas – a grande Anatólia: Istambul, Capadócia, Ancara, Konia, Pamukkale, Ephesus, Izmir. Gostei francamente do que observei. Não esqueço a vista fabulosa sobre o mar de Marmara; a bonita e elegante ponte que liga a parte europeia à asiática; a pequena ilha no meio do mar de Marmara onde estava feito prisioneiro o líder curdo; a mesquita Santa Sofia com os seus famosos e dominantes minaretes. Capadócia, Pamukkale e Ephesus, são locais inesquecíveis pela sua singularidade. Da capital, Ancara, não gostei especialmente. Apreciei o lado agrícola que, apesar não estar ainda industrializado, oferecia produtos maravilhosos de entre os quais sublinho, salivando, as gostosas azeitonas e os enormes e saborosos figos secos.
O ambiente, o país, é dominado ainda pela ideia da revolução de 1923 de Mustafa Atatürk. O seu grandioso e até desmesurado Mausoléu é bem o exemplo da promoção que continua a ser feita ao espírito que a animou. Convenhamos que foi uma revolução total! O país deu uma volta em todos os setores de 180º. Até o alfabeto passou a ser europeu!
Mas essa viagem, ela própria, mereceria um comentário mais alargado e talvez um dia o venha a desenvolver aqui mesmo neste blog.
Lembrei-me dela, viagem, a propósito deste livro e do ex-império otomano, tão lembrado e até dissecado por JRS. Apesar de Atatürk ter acabado com o Califado e ter destronado o Sultanato e toda a entourage que o suportava, permanecem bem visíveis muitos vestígios dessa altura, alguns significativos, nomeadamente a parte monumental e palaciana. Muitos desses vestígios estão recolhidos em museus, que visitei, e pude extrapolar a partir deles o que teria sido a vida dos Califas e dos Sultões.

A forma atribulada e atabalhoada que JRS recriou no romance para tirar o ator principal da fila dos deportados arménios a caminho da Síria - KriKor, o filho de CG - 'salvando-o' de uma morte mais que certa, tendo sido ‘colorida’ ou aventureira não foi contudo bem conseguida: pouco imaginativa. Roçou o folhetinesco. Precipitou uma sequência de frágeis acontecimentos, a meu ver, só para não o perder, por dele precisar para o resto da narrativa. Obviamente que não fazia sentido deixá-lo morrer logo ali, quando havia tanta história ainda para contar e quando o filho de Gulbenkuien, Nubar, o autêntico, não morreu de fato nessa altura. Todavia foi um ‘unhappy’ deste trecho da narrativa.

Pelo que percecionei da mini-investigação que fiz, verifiquei que já muita gente tentou fazer a biografia de Calouste Gulbenquian e há, de resto, várias publicadas. Porém, há a impressão generalizada de todas elas serem parciais ou incompletas.
Existe atualmente um grupo de estudiosos ingleses (?) a trabalhar o tema e, pensa-se, que o concluirão em 2019…
Elaborar uma biografia credível deste homem é como refazer a ‘volta ao mundo’ de Júlio Verne. O seu lado de ator ‘solitário’ bloqueia muitas pistas e é bom lembrar que a sua influência no mundo do petróleo foi pioneira, monopolizadora e influenciadora na condução do mundo energético, principalmente, mas não só, quer em tempo de guerra quer em tempo de paz. Atuando sozinho em muitas geografias não deixou rastos suficientemente visíveis e passíveis de serem recolhidos. É mais fácil (?) fazer uma biografia de Winston Churchill do que a de C.G. Apesar de tudo a vida de Churchill é mais transparente e buscável. Por onde passou, deixou marcas menos ocultas.

Foi C.G. o arquiteto do negócio do petróleo e a história do século XX ficaria pobre e incompleta com a sua exclusão.
Foi o homem mais rico do século XX e isso, por si só, diz bem do que poderá ter sido a sua vida.

Vou continuar a ler o livro.

Calouste Gulbenquian, o Homem.
Acabada a leitura há que dizer que foi com grande prazer que percorri todas as linhas do romance. Pena é que não se possa reter como verdadeiro o que é ficção, ou seja, seria bem simpático se a biografia de CG pudesse ser assim relatada.
Não há dúvida quanto à sua inigualável - única - capacidade para negociar. Conhecedor das envolventes do seu negócio, portador de uma tenacidade rara e nervos de aço, à prova de bala, aguentava a pressão até ao limite, conseguindo sair ganhador em muitas das diversas contendas empresariais em que esteve envolvido. Ele mesmo dizia que a antecipação do conhecimento era essencial a um bom resultado. Fossem quem fossem os seus litigantes batia-se não como igual mas como superior. Considerava-se o melhor. Para ter sido considerado o homem mais rico do século XX, qualidades superiormente anormais teria de ter e dominar. Sabemos que herdou uma enorme fortuna quer do seu lado familiar quer do da esposa, mas o colossal mealheiro foi sendo meticulosamente rendilhado e recheado por ele ao longo da sua vida. Era muito seletivo nos seus demais interesses pela vida incluindo a atenção à sua família direta; no final da vida praticamente deserdou o próprio filho e filha!
Muitos adjetivos podem ser aplicados a CG, mas o de negociador astuto e implacável assentam-lhe bem.

Há porém um lado da vida dele, sobejamente conhecida e bem tratada no livro, que merece que se repense com serenidade, não aderindo facilmente a certas correntes de opinião que pululam por aí. Refiro-me à sua particular e inultrapassável aversão ao pagamento de impostos. Sou dos que pensam que não pode, não deve haver exceção para ninguém quanto ao dever do pagamento de imposto. E se o digo não é por teimosia ou cegueira mas por achar que na organização de uma sociedade dos nossos dias que se pretende moderna, ou seja, com capacidade para aceitar no seu seio pessoas diferentes e ter serviços sociais tendencialmente gratuitos para todos (saúde, educação, justiça, forças policiais, segurança social…), isso só será possível e justo se todos contribuírem na justa medida dos seus rendimentos. Dito isto, vem agora a segunda parte da questão. Se a CG não tivesse sido concedido um regime de exceção em matéria de impostos, ter-se-ia ido embora com toda a sua imensa riqueza atrás dele, ficando Portugal a olhar para a cauda dourada do cometa que se iria embora para sempre. O país teria perdido muito mais. Pergunta, em qual das duas versões Portugal ficou a ganhar mais? Números exatos para responder a esta questão, não tenho. O que sei é que a permanência dela, da riqueza, em Portugal deixou e continua a deixar por cá imenso dinheiro. Lucramos ou perdemos? Lembro aqui a imperiosa necessidade de, por vezes, deixar que a 'realpolítik' seja aplicada.
Curiosamente e desde sempre, nunca ouvi vozes discordantes em relação a este particular regime de exceção atribuído a CG, incluindo os partidos mais à esquerda. O que vi foi o aproveitamento destes regimes de exceção para a disseminação ad hoc de fundações, com objetivos muitos discutíveis. Mas isso é outra história.
Mais uma nota a propósito do seu relacionamento com a esposa e secretaria, de que direi tão somente: curioso.
Nota final, fica uma pergunta e responda quem quiser: porque não houve até hoje ninguém que pusesse em filme a vida de Calouste Gulbenquian?

quarta-feira, 30 de julho de 2014

... ver-nos-emos por aí! (30JUL'2014 - 17:30H)

Bato-vos à porta, desta vez, para vos dizer que vou reformado.

Ficaria com a minha consciência inquieta e a lealdade de uma relação de anos beliscada se vos fechasse esta porta em silêncio.
E para vos dizer que de todos levo, podem crer, a lembrança de uma boa e sã relação e, de alguns, uma duradoira e vívida amizade que o tempo sedimentou.

Não distingo aqueles que conheci pessoalmente ou apenas através das novas tecnologias; incluo, obviamente, aqueles que estão em geografias mais longínquas e com quem não se chegou a proporcionar o contato pessoal.

Abraço-vos a todos com o mesmo calor, incluindo os que me precederam e os que aqui esqueci.

Seria um gosto continuar a vê-los doravante aqui:
antonioMmagalhaes@Gmail.com

* Despedida Geral dos colegas de profissão.

____
P.S.
(um dia depois)

... desculpem, só mais 2 segundos,

É que as (inesperadas) mensagens recebidas foram tantas, tão sentidas, calorosas e simpáticas, que não resisti a um BEM HAJAM.

Cada uma das v/ palavras foi guardada no meu cofre forte onde, ciosamente, guardo as coisas importantes da vida.

ABRAÇO, duplo,

ABEL ALBINO  |  ABEL ROCHA  |  ABILIO RIBEIRO  |  ADILSON PAULO  |  ADRIANO COSTA  |  ADRIANO PASCOAL  |  AGOSTINHO RIBEIRO  |  ALBERTINA ALMEIDA SANTOS  |  ALBERTO CASTRO  |  ALFREDO ANDRADE  |  ALICE VICENTE  |  ALVARO FERNANDES  |  ALVARO NEVES  |  ANA COSTA  |  ANA MARGARIDA OLIVEIRA  |  ANA MARQUES  |  ANA MOREIRA  |  ANABELA CARNEIRO  |  ANABELA MIRANDA  |  ANSELMO PINTO  |  ANTONIETA MAGALHAES  |  ANTONIO CARVALHO  |  ANTONIO JORGE RAMOS  |  ANTONIO JULIO PEREIRA  |  ANTONIO PEDRAS  |  ANTONIO PEREIRA  |  ANTONIO VERISSIMO  |  ARMINDO TOMAS  |  ARSENIO INGUANE  |  ARTUR MESQUITA  |  ARTUR RODRIGUES |  AURA ROCHARTE  |  BACK OFFICE ANGOLA  |  BELINA MIGUEL  |  CARLA BRITO  |  CARLA MARQUES  |  CARLOS DIOGO  |  CARLOS FERNANDES  |  CARLOS FRANCISCO  |  CARLOS PIRES  |  CARLOS SAMPAIO  |  CLAUDIA REGINA PRADO  |  CONCEICAO MOURAO  | CRISTINA MIRANDA  |  DALIA ALVES  |  DANILSON DE SANTANA  |  DELFINA FRANCISCO  |  DORA MATEUS  |  EDUARDA BAPTISTA  |  ELISA COSTA  |  ELISA COSTA  |  ELISABETE RODRIGUES  |  ERIKA FAUSTINO |  ERNESTO BELO  |  ESTER SANTOS  |  FERNANDA OLIVEIRA  |  FERNANDO ROCHA  |  FILIPE LIMA  |  FLORBELA JESUS  |  FRANCISCO LOBO  |  GONCALO ALVES  |  HECTOR MATANA  |  HELDER CUSTODIO  |  HELENA SOARES CARNEIRO  |  ISABEL DIREITO  |  IVONE SOUSA  |  JAIME ANTUNES  |  JOANA ZANATTI  |  JOAO BARREIRO  |  JOAO LEITE  |  JOAO RODRIGUES  |  JOAQUIM CACHEIRA  |  JOAQUIM CASALEIRO  |  JOAQUIM KITTLER  |  JOAQUIM MENEZES  |  JOAQUIM RESENDE  |  JOSE AFONSO  |  JOSE AZEVEDO  |  JOSE DUTRA  |  JOSE GUEDES  |  JOSE MARUJO  |  JOSE NAVES  |  JOSE PINHEL  |  JOSE REBELO  |  JOSE SOUSA  |  JOSE VIANA  |  JOSE VICENTE  |  JOY FRANCISCO  |  LEMBA FILIPE BENTO  |  LINA BATISTA  |  LIZETE COSTA  |  LUIS BAPTISTA  |  LUIS CORREIA  |  LUIS FERNANDES  |  MANUEL ALEIXO  |  MANUEL DIOGENES BARROS  |  MANUEL LINDO  |  MANUELA COUTO  |  MANUELA MADEIRA  |  MARCIANO CARDOSO  |  MARCO PAULINO  |  MARIA COSTA  |  MARIA FERNANDA LEITAO  |  MARIA ISABEL GRACA  |  MARIA LUCINDA FORTE  |  MARIO CARDOSO  |  MARIO FONSECA  |  MARIO JANEIRO  |  MARIO POUSINHA  |  MARTIM BISPO  |  MAVILDE GOMES  |  MEIRELES CARDOSO  |  MONICA PENA  |   NELSON ERNESTO  |   NUNO ESTEVES  |   NUNO OLIVEIRA |   OSMAR SANTOS  |   OSVALDO CABRAL  |  PATRICIA AUGUSTO  |  PAULA CRISTINA DUARTE  |  PAULA SILVA  |  PAULA SOTTO MAYOR  |  PAULA VIRA  |  PAULINE SIMBA  |  PAULINO MOREIRA  |  PAULO ALMEIDA  |  PAULO BASTOS  |  PAULO BRITO  |  PAULO CASTRO  |  PAULO CORREIA  |  PAULO FAUSTINO  |  PAULO FREITAS  |  PAULO MAMEDE  |  PAULO SOBRAL  |  PAULO XAVIER  |  PEDRO MURCA  |  RICARDO AMARAL  |  RICARDO MONTEIRO  |  ROSA REBELO  |   ROSA SOARES  |   ROSSANA BATISTA  |   RUI BALCA  |   RUI CARVALHO  |  RUI MOURA  |   RUI ROSARIO  |   SALOME BENCHIMOL  |  SANDRA GOMES  |  SARA OLIVEIRA  |  SILVIO SILVA  |  SONIA BARROS  |  SONIA SEGUNDO  |  SUCURSAL DE MACAU  |  TATIANA SEQUEIRA  |  TERESA GONCALVES  |  VANESSA PESTANA  |  VITOR ALMEIDA  |  VITOR PINHO  |  YARA FURTADO  |  YOLANDA CARVALHO  |  ZOLA TOCO  | 

Até já! (30JUL'2014 - 17:30H)

Como alguns saberão, diariamente tenho o hábito, desde há anos, de fazer caminhadas com a m/ mulher, principalmente depois do jantar, agora ali no calçadão de Matosinhos. Aproveitamos essa hora para ouvir o sussurro das ondas do mar a fazer a cama nas areias da praia para o descanso noturno, para ouvir o silêncio, pensando apenas com os nossos botões, ou para falar soltamente sobre tudo o que a cada um ocorra nesse dia: assunto do dia, do mês, do ano, dos anos, da vida…

Eram meus netos mais pequenos e perguntávamo-nos então que apports os avós lhes poderiam dar? Qual o nosso papel no s/ crescimento? Respondi eu (não sei ainda se bem):

. A avó Branca, dá- lhes o lado prático da vida, o custo das coisas, o valor do dinheiro, levando-os às compras, ao supermercado, ao talho, à peixaria;
. O Avô Tó Maria, como desafiantemente me chamam, dá- lhes o encantamento dos contos de fadas: castelos, reis e rainhas, príncipes e princesas, para a Rita; cavernas recheadas de tesouros, florestas inexpugnáveis para desbravar, Cristiano Ronaldo para o entusiasmo desportivo, para o Simão;
. A avó Margarida, estimula-lhes a mente, nomeadamente com jogos criteriosamente selecionados;
. Dos três, naturalmente, imenso amor.

A vocês todos, só os não levo no coração porque os vossos de tão grandes lá não cabem, mas selecionei para levar comigo os bons apports que ao longo dos anos graciosamente trouxeram ao meu dia à dia e que conservarei, garanto.
Defeitos, todos nós os temos e deles por mim não falará a história. Interessa-me sobretudo o lado positivo das pessoas.

Rocha
Se tivesse de lhe oferecer o cartão de um club (do FCP não porque já o tem há muito), oferecer-lhe-ia, com ironia, o cartão do ‘Club da Febra’.
Quantas vezes as nossas papilosas Pavlovianas não foram ativadas com as suas divagações de gulosas e cobiçadas iguarias!?
Quando quiser saber onde comer bem, é com ele que falarei.

Anselmo
Espero que, asap, alcance as suas metas profissionais, políticas e/ou desportivas.
Dele levo a vontade e a persistência com que enfrentou o curso, quiçá ainda a tempo de um outro recomeço.

Resende
Truculento, assertivo, convicto (mais vale uma opinião convicta - quiçá errada -, que uma opinião certeira mas insegura). Fino no humor e contagiante na boa disposição. Levo seu gosto de viver e conviver, a facilidade com que frequentemente brinca com todos.

Antonieta
Reservada e todavia mais solta nos últimos tempos, parece até ter recuperado mais alegria de viver, mais compreensiva e melhor companheira no dia-a-dia.

Dália
Da Dália levo o seu lado reservado mas também frontal, tipo silêncio ruidoso.

Paula
A nossa menina …
Porque a mais novinha, um desejo: estabilidade, mais e mais rápido sucesso profissional.

Teresa | Conceição
The last but not the least, refiro-me agora a estas duas Senhoras: a Teresa e a Conceição. Perdoem-me a pública demonstração da maior proximidade mas a verdade é que ao longo dos últimos anos e fruto de imponderadas circunstâncias, compartilhamos as nossas vidas um pouco mais. Com elas também aprendi ou reaprendi muito; com elas os seus filhos e meus netos estão a crescer, muitas vezes ancorados em princípios triados nas muitas conversas que noutro tempo tivemos a caminho do nosso restaurante ‘preferido’, o do Sams, ou o de agora Império. Conhecemos as famílias de cada com mais pormenor.
Vivemos mais alegrias e tristezas também.

Delas e de todos vocês fica desde já uma grande saudade e a vontade de continuar a partilhar – de futuro mais virtualmente – similar vivência. Até porque a vida continua.

A todos gostaria de dar o céu e as estrelas, o sol e a lua; por todos distribuir os fabulosos tesouros da caverna de Ali Baba.
Na impossibilidade fica a ambição.

Gosto e vou continuar a gostar de todos apenas o expresso de forma diferente.

Evitando alongar-me mais para vos poupar, direi então que levarei de todos vocês, de cada um, o que cada um tem de bom e muito é, podem crer. Levo a lembrança de uma boa relação e uma duradoira e vívida amizade.

Abraço-vos,
António Magalhães

* Despedida dos Colegas de trabalho da Área

Reforma, (30JUL'2014 - 17:30H)

Ao longo dos anos a ideia de Reforma era por mim tida como algo longínquo e de contornos pouco definidos, indesejada e até rejeitada. Observá-la a acontecer com os outros era tema tenuemente tangível circulando apenas num subconsciente mais distante.
Não era uma meta a atingir mas a tropeçar.

A dinâmica empresarial onde me insiro encarregou-se de, com tempo, ir preparando as circunstâncias para o inevitável e, na parte final encaminhar o processo para um desfecho mais acelerado. Houve, porém, tempo, o que foi ótimo, para almofadar o status de ativo para reformado.

Percecionando o que incontornavelmente aí viria, a natureza cuidou de ir mudando aos poucos as agulhas, redirecionando-as e moldando-as para novos rumos. Começou crescentemente a ser assunto e sub-repticiamente foi ocupando o dia-a-dia, usurpando espaços cada vez maiores. Neste momento uma grande parte de mim já incorporou a nova ideia. A outra, a restante, a seu tempo se verá.

Conheço pessoas reformadas em que, umas se deram bem, outras, nem por isso e outras ainda bastante ou muito mal. Sei que essa nova etapa, nomeadamente na sua fase pós-inicial é exigente e pode vir a ser perturbadora. Se se deve ou não salvaguardar esse tempo com medidas profiláticas?, tenho algumas dúvidas! Pensar que o tempo de ocupação mental profissional e rotinas associadas deva ser substituída por uma outra qualquer ocupação, parece-me indiscutível. Deixar que o vazio se instale e tome lugar dominante é perigoso. O que fazer antecipadamente, não sei, porque o que quer que seja não tenho por certo que possa vir a ser aplicável ou eficaz. Necessariamente tem de haver novos projetos que ocupem a mente; isso é certo e disso estou avisado.

Parto pois com o espírito aberto e com uma única certeza: a de que a mente tem de continuar ocupada tão intensamente quanto possível a fim de evitar hiatos que, esses sim, poderiam vir a tornar-se de gestão complicada.

Nova etapa? Estou certo que sim.
As envolvências profissionais e pessoais e rotinas de anos vão ser bruscamente interrompidas. Os incentivos pessoais recriados, então necessários, para uma melhor resistência à demanda e aprumo profissionais caem naturalmente. Um conjunto de âncoras que os sustentaram deixam de fazer sentido, pelo menos em parte.
Mas soçobra o engenho com que foram inventados, engenho esse que se mantém bem vivo e de onde brotarão novas soluções que suportem o novo status. Estou certo que daí virão boas ideias, renovadas, que assegurarão um bom futuro.

O pelotão onde até agora estive integrado com gosto e orgulho e que agora abandono vai continuar a sua rota e, sair dele, é deixar essa frente onde me senti bem, principalmente porque aí as exigências funcionais aconselhavam-me a acompanhar um sem número de questões – profissionais e não só – e que me mantinham na linha da frente de tudo (?). Deixar essa linha da frente é talvez a parte que mais pesará no novo estatuto.
Mas entrarei noutro, diferente, onde espero outros desafios também estimulantes.
Estou confiante.

Post Scriptum
Desde os primeiros passos em direcção aos bancos da escola fomos gradualmente entrando em carga e assumindo compromissos com a vida para não mais desligar: estudo/trabalho, trabalho/estudo, serviço militar, casamento, família, filhos, trabalho, trabalho, trabalho, ...
Com a reforma chega finalmente (?) o momento da descompressão.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Quando Nietzsche Chorou", de Irvin D. Yalom

Foi este livro, 'Quando Nietzsche Chorou', o meu livro de 'mesinha de cabeceira', melhor dizendo, de leitura no ‘Metro’ durante a primeira quinzena do mês de Julho nas minhas habituais e rotineiras deslocações para o emprego. A sua leitura foi sendo retardada na justa medida em que aumentava o prazer na sua degustação. O tema era profundo e inabitual e aproveitei a oportunidade para o (re) visitar calmamente. Apanhei-o da estante da minha filha/genro, não foi pois compra deliberada minha, e veio-me cair nas mãos assim um pouco de paraquedas. Não sabia de todo o que me esperava. Vi na capa que era best-seller em 20 países, li os diversos comentários (todos elogiosos mas pouco específicos) espalhados nas capas e fiquei entusiasmado não só com o grande acolhimento que tivera em muitas latitudes como pelo agrado que provocara em tanta gente.
Comecei a lê-lo como se de um simples romance se tratasse, presumivelmente igual a muitos outros. À medida que caminhava, a cuidada fraseologia aplicada, as ideias grandiosas vertidas, a profundidade do pensamento atingida, os nomes sobejamente conhecidos envolvidos, foram-me pondo em estado de alerta e inflacionaram o meu interesse.
No primeiro terço da viagem estava rendido.
Parei e fui investigar os nomes mencionados para eventualmente redimensionar a abordagem, o que aconteceu.

Não sendo a Filosofia, por princípio, um tema que me interesse especialmente, é todavia um assunto que desde os tempos de estudante, logo aí, me despertou atenção e desde aí também a comecei a acompanhar, embora esparsamente, por ter então percecionado ser uma parte intrínseca e importante no equilíbrio da vida de qualquer ser humano. Penso até que a nenhum é indiferente independentemente do seu nível académico ou cultural. Variará no grau, mas ninguém terá grau zero.
Este livro serviu para avivar esse lado muitas vezes em 'freeze', como os informáticos de agora gostam de dizer, e foi efetivamente bem inebriante sentir o despertar e até fervilhar mental que a sua leitura provocou. Tenho, sempre tive, admiração por 'cérebros', pela sua dimensão intelectual extra normal, capaz de levar os outros a novos patamares do conhecimento, a zonas onde os 'normais' sozinhos não chegam, mas que apreciam conhecer. A componente cognitiva é insaciável. As sociedades precisam destas mentes iluminadas, das autênticas, como de pão para a boca, capazes de clarificar, postumamente por vezes (para utilizar um termo do livro), futuros inatingíveis por gente mais comum.

Brilhante!
Irvin D. Yalom (EUA), o escritor deste livro, um artífice da palavra e do pensamento, ele próprio um eminente intelectual, conduz-nos através de uma dramaturgia singular e num jogo de espelhos e contra espelhos no mundo dos filósofos e dos psicanalistas. Percorre com as teorias ‘póstumas’ (visionárias) de Friedrich Nietzsche, filósofo, e Joseph Breuer, fisiologista e psicanalista, os labirintos da mente, viajando pelos seus nano capilares até então de desconhecida existência. Habilmente recria um romance pondo a falar, lado a lado, dois importantes pensadores - alemão e austríaco, da segunda metade do século XIX e primeira do XX - Friedrich Nietzsche e Joseph Breuer (que em vida não se conheceram pessoalmente), confrontando e dirimindo entre eles as teses que defendiam das respetivas áreas.

Não é normal haver um livro com tantas expressões lapidares, daquelas que nos obrigam a parar para conferir e refletir. Exemplo, chave de viver: ‘primeiro, desejar aquilo que é necessário e, depois, amar aquilo que desejado’. E com imagens de estilo inovadoras. Simples exemplo: ‘mandíbulas devoradoras do tempo’ (apreciação de quem, já mais na velhice, olha para trás e sente que o tempo passou rápido).
… e tantas outras!

Respiguei esta meia-dúzias de frases atribuídas a Friedrich Nietzsche:
"O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são."
"Há homens que já nascem póstumos."
"A diferença fundamental entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas assegura. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada."
"Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida mas no "além" - no nada -, tira-se da vida o seu centro de gravidade."
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."
"Sem música, a vida seria um erro."
"A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo."
"O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno."
"Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos."
"Quanto mais me elevo, menor eu pareço aos olhos de quem não sabe voar."
"Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras."
"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."
"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
"Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar"
"Acautela-te quando lutares com monstros, para que não te tornes um."
"Da escola de guerra da vida: o que não me mata, torna-me mais forte." 
Irvin D. Yalom

Friedrich Nietzsche
Joseph Breuer