terça-feira, 18 de março de 2014

1989: Europa adentro...

Há uns anos atrás, em 1989 exatamente - já lá vão 25 anos - fiz, com a minha mulher, uma ‘grande viagem’ pela europa: 17 dias.
Proponho-me agora, desafiando-me, repeti-la virtualmente, percorrendo os labirintos da memória, testando-a e tentando descobrir o que lá ficou. (1)

Fomos daqui, numa excursão, até à antiga Checoslováquia, passando por Espanha, França, Suíça, Liechtenstein, Áustria, Checoslováquia, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e novamente França e Espanha. 
Percorremos mais de 7.000 Km, km a km, step by step.
Pagamos nessa altura 70 contos (350€) / pessoa.

“Quem tem pouco dinheiro não tem grandes vícios” e como o desejo de conhecer a Europa se tornava inadiável, fomos mesmo de excursão e numa opção que a futura Pinto Lopes Viagens (http://www.pintolopesviagens.com/plv/) proporcionava: campismo. Não fiquei dessa vez a conhecer o circuito turístico hoteleiro mas em contrapartida fiquei a conhecer este outro; com inconvenientes, certamente, mas sob um ponto de vista também agradável e igualmente bastante completo e proveitoso.

O então guia da viagem era o Sr. Pinto Lopes, ele mesmo, o pioneiro da empresa que começou, numa aposta quase inédita, este sistema de viagem em campismo. Em boa hora o fez, pois proporcionou, com esta solução mais acessível, a oportunidade a muitos que no sistema normal não o conseguiriam. Fiquei muito agradado com a postura e dinamismo que imprimia e com a confiança e segurança que espalhava pelos turistas; bem como com a logística de que dispunha para resolver as exigências do dia-a-dia, quer ao nível alimentar quer de pernoita.
Confecionava todas as refeições, e servia-as completas, incluindo bebidas (com vinho e café) e disponibilizava tendas e colchões para a noite.
Muito conhecedor do terreno que pisava incluindo a aproximação cuidada, então necessária, nos complicados e obscuros países de leste. Conhecia a palmo todo o caminho. Na sua qualidade de guia, falava muito sobre tudo, principalmente sobre a história dos diferentes países que íamos descobrindo. “Se um de vocês me for a ouvir, já vale a pena eu ir a falar”, dizia, quando o ronronar e monotonia da camioneta nos cansava e embalava para um sono irresistível e retemperador. Lembro também com agrado a alegre companhia do inconfundível cozinheiro, o ‘nosso Frade’ (2), assim o chamávamos. Uma figura. Um cromo raro. Sempre bem-disposto, comunicativo, divertido, um contador de histórias insubstituível, inultrapassável e inimitável, além de uma assinalável veia fadista.
Tinha um dito de entrada, que usava como bordão, muito peculiar e sempre prazenteiramente repetido e com uma musicalidade irreproduzível: “sabem quantos me vieram ajudar? Nem um!?”, brincava sorridente.


(1) Diz quem sabe que se deve exercitar a memória para afugentar o Alzeimer: estou a fazer a minha parte; espero que a natureza faça a dela e não me atraiçoe.
(2) Era um homem bom de fácil e agradável convivência. Antigo frade na África colonial portuguesa de onde ‘retornou’ nos idos e turbulentos anos de 1974/75.
Habituado à liberdade africana (3) não conseguiu lidar com o ascetismo e clausura dos conventos tradicionais portugueses. Pendurou o hábito e foi cozinhar para a Pinto Lopes Viagens, aproveitando ainda para fazer seus negócios de arte. Soube recentemente numa viagem à GB e em conversa com o Rui Pinto Lopes (filho), que estava bem, apenas debilitado fisicamente. Desejo-lhe daqui boa saúde.
(3Alguns amigos meus se questionam e me questionam como é possível falar em mais liberdade em África!? Concordo que para quem não conhece África, esta ideia parece afrontosa e descabida; mas não: em África vive-se mais e melhor. Quem duvidar que ponha pés ao caminho e vá até lá tirar a prova real.
Embora amarrado e muito condicionado pelo rígido regime militar ao serviço da guerra colonial (72/74) e mais tarde (2000/01) pela guerra civil angolana (Jonas Savimbi seria morto em 2002), tal não impediu que saboreasse o prazer da liberdade africana. A liberdade não se esgota na de opinião, circulação de pessoas e bens ou económico-financeira; essas eram (e são) aí limitadas como sabemos. Refiro-me à possibilidade do usufruto das muitas potencialidades que aquelas terras, ares e clima tropicais propiciam; ao contacto com a natureza selvagem, muitas vezes virgem.
Há ainda uma outra razão e talvez a mais facilmente entendível, que tem a ver com a dimensão territorial dos países africanos em geral e em especial com aquele que melhor conheço: Angola. A diversidade geográfica, paisagística, climatérica, da fauna e da flora, muda com surpreendente e inebriante facilidade e ao percorremos aquela imensidão (14 vezes maior que Portugal), saboreamos de tudo um pouco o que o nosso planeta do seu estado mais original e puro tem para oferecer. E, mais, e aqui entra a maior das razões: sentimo-nos longe, muito longe de tudo e de todos, entregues a nós próprios, ao (s) nosso (s) mundo (s) e à natureza numa relação a dois: nós e a natureza selvagem. E, perceção importante, fora do raio de controlo de qualquer tipo de poder. O Bilhete de Identidade é dispensável. Interioriza-se a sensação da não ligação a ninguém. A união àquela natureza comparável à que se fala do paraíso bíblico, é tão intensa que chega a ser alucinogénia. Absorve-nos por completo os sentidos.
Acresce que, quer da primeira (oficial do exército) quer da segunda vez (bancário), era beneficiado com algum desafogo financeiro, o que não era despiciente.


Os participantes na excursão foram paulatinamente criando um saudável espírito de grupo alicerçando o princípio da boa disposição colhido nos diversos convívios em comum, espírito esse que veio a favorecer e muito um melhor usufruto da viagem, agilizando e facilitando a resolução das novas questões que sempre se colocam nestas circunstâncias.
O enfoque e entusiasmo na descoberta dos novos mundos que a todos ia tocando e moldando, também ajudou a esbater a importância relativa das pequenas questões. Por outras palavras, todos tínhamos os ‘complicómetros’ desligados e isso foi importante.
Este espírito e ambiente consolidaram-se, prolongando-se até ao final da viagem.



À medida que íamos entrando Europa adentro - recordo o ano:1989 -, a nossa boca então ainda semicerrada pelos longos anos de clausura política salazarista, por questões culturais ou simplesmente de ordem pessoal, começou a abrir-se aos poucos, aumentando mais e mais à medida que novas descobertas iam sendo assimiladas.



Espanha
A começar pela nossa vizinha e mais conhecida Espanha. Foi um bom começo.
Espanha ainda no rescaldo também da era franquista sofria de alguns males endógenos e muitos deles similares aos nossos.
A democracia dava aí também os primeiros temerosos passos.
(A Constituição do país foi então salva - FEV’81- por Juan Carlos quando se opôs nas cortes às intenções golpistas, com ‘direito a tiros’).
Filipe González (1982/96) - depois de Adolfo Suárez (1976/81) ter ensaiado os novos ares da liberdade -, tentava a consolidação democrática e o progresso económico e social do país.
Espanha contudo, pela sua dimensão, importância e cultura - deixando de parte o portuguesíssimo olhar soslaio bem traduzido na expressão ‘de Espanha nem bom vento nem bom casamento’ - exercia grande fascínio nos portugueses. Gostávamos (e gostamos) de ir a Espanha. Soubemos in loco da história do rico país basco e da luta das suas gentes (?) pela autonomia total. A sua luta armada remetia-nos para os avisados cuidados a observar quando circulávamos por entre eles.
Bastante de passagem - assim determinava o programa da viagem – ainda deu para ver a Catedral de Burgos, passar pelo Santiago Bernabéu e pelo Vicente Calderón.


França
Deixados os ‘olés’ espanhóis e ultrapassados os frios e míticos Pirenéus, chegamos à influente e não menos mítica França: França da Tour Eiffel, do Moulin Rouge, do Arque de Triumphe, dos Champs Elisées, do Quartier Latin, Sorbonne, do Sena, do Bateau Mouche, do Sacre Coeur, de Monparnasse e dos seus, ainda, boémios artistas, do Bosque de Bolonha...
França da Revolução Francesa (1789) e da Liberté, Fraternité, Egalité.
França que nas décadas anteriores tão bem tinha acolhido os necessitados emigrantes portugueses.
Andar pelas bem cuidadas autoestradas francesas, observar todos aqueles ícones que o turismo nos passou ao longo dos tempos, serviu para validar toda a imensa informação que a história despejou nas gentes de todo o mundo e de mim também, claro.
França de François Mitterand de que era o seu presidente e foi até 1995 (1981/1995). ‘François Mitran’, na fonia caraterística de Mário Soares. Presidente que haveria de ser importante nas negociações para a adesão de Portugal à U.E. Presidente carismático e detentor de muito poder, também a nível internacional. A sua opinião era então tida em consideração.
O objetivo do programa não era ainda Paris, o que aconteceria apenas no regresso. Passamos ao largo, em direção à Suíça. Até lá foi conhecer França vista de fugida. Observamos sobretudo a performance da produtiva agricultura francesa, elevada a níveis latifundiários inimagináveis então para Portugal (pelo menos para mim). Enormes e pujantes produções agrícolas a perder de vista, de todo o tipo de produtos. O horizonte eram campinas e mais campinas! (mais tarde, com a negociação da entrada de Portugal na Europa, o peso dessa agricultura haveria de ser determinante não só para a sua manutenção mas principalmente para a anulação da portuguesa. O peso da França impôs-se nas negociações e ficamos a perder totalmente).
A limpeza, o asseio, as cuidadas bermas das autoestradas, constituíam um aviso para o que deveríamos perseguir mais tarde em Portugal quando começamos também a construir as nossas.

‘Massacre da Praça Tiananmen, China’
Durante a viagem acompanhamos (tivemos tempo para isso) toda a evolução do que viria a ser o ‘Massacre da Praça Tiananmen - 04Junho - (Praça da Paz Celestial).
Vivíamos então por essa altura, nós portugueses, ainda, o rescaldo do fervor revolucionário do 25ABR’74. Todos os turistas em geral viveram bem de perto o que então se tinha passado em Portugal e alimentavam o desejo de um desfecho ocidentalizado para os estudantes de Tiananmen. Pura ilusão: foram mortos pelo governo chinês, conforme as versões, entre 400 e 7.000 estudantes e ficaram feridos entre 7.000 e 10.000. Todo o mundo democrático ficou deveras consternado e revoltado com a violência aplicada.


Suíça
A caminho da posterizada, endinheirada, fria e bela Suíça e também do país que tantos portugueses acolheu e acolhe ainda.
A curiosidade sobre este país era grande. Conhecê-lo inside; apreciar os efeitos de todo o dinheiro que ali é mundialmente depositado – o mealheiro do mundo - ; o comportamento político dos seus governantes e das suas gentes; o seu comércio e indústria, eram os focos da minha atenção.
Encontrei efetivamente uma Suíça calma, politicamente neutra – como se sabia -.
De Genebra a Zurique todos os recantos, todo o país é um wallpaper. Nada lhe falta: uma paisagem soberba de um verde luxuriante; garridas flores atapetam cada canto. As casas na sua grande maioria cuidadas, adornadas e ajardinadas, bem floridas em cada parede, em cada janela. Numa simples frase se pode dizer que todo o país é um jardim natural; as suas gentes levam esse jardim para as suas casas.

Entramos por Genebra e saímos por Zürich, percorrendo o país de ponta a ponta.
Genebra, a cidade, todos as cidades aliás, harmonizam com o resto do país. Desta - limpa, organizada e cosmopolita - fica o postal do lago Léman e do seu “Jet’Aux” (130m Altura) e do seu relógio florido;
Berna com o seu emblemático fosso do urso e dos caraterísticos tróleis;
Lucerna e a sua estação de comboios e a famosa e turística ponte da Capela com a sua Torre d’Água (anos mais tarde viria a arder e também viria a ser reconstruída).
Apreciamos a Zurique banqueira e seus primorosos prédios, o saboroso chocolate, o metro de superfície e os obrigatórios relógios suiços.


Liechtenstein
Passamos ainda pelo pequeno Liechtenstein, por Vadus, com o seu castelo altaneiro e dominante. Tomado o café na rua principal e depois do momento Kodak, entramos enfim na sonhada Áustria.
Não conhecia a existência deste pequeno país.


Áustria
Começamos pelo Tirol - procurando sua música e chapéu tirolês e onde mais tarde (1991) viria a ser descoberto o esqueleto milenar (5.300 anos) de Ötzi, o ‘homem do gelo’ - a entrada no país sede do ex-império Austro-húngaro; no país da boa música clássica: de Mozart, de Haydn, de Schubert, dos Strauss; das valsas (… quem nunca dançou o Danúbio Azul! Dancei-a lá, num dos seus bonitos salões numa incursão noturna); do ‘Música no Coração’ (…quem não viu o filme? Eu viu-o muitas vezes...); do país da bela imperatriz Sissi (…tão bem recriada no cinema pela também belíssima e malograda Romy Schneider!)...
Passando pelas pistas de gelo de Innsbruck, que avistamos ao longe, pelos Alpes, chegamos à famosa, romântica e mundialmente conhecida cidade natal de Mozart: Salzburg.
Aqui acrescento que sou um apreciador de Mozart – para mim, o expoente maior de toda a música clássica. Tinha já escutado e apreciado muitas das suas obras e nutria (e nutro) por ele enorme admiração. Encantam-me as composições para clarinete. Foi pois com este sentimento que entrei na sua casa, nos seus aposentos e beber um pouco do espírito musical de Mozart, também junto do seu cravo.

Passando por Linz, encaminhamo-nos para Viena d’Áustria.
A Áustria, toda a Áustria, é um país belo e fascinante, mas Viena d’Áustria, a capital, é uma cidade encantadora. Tendo sido a sede do ex-império Austro-húngaro, para lá foi levado pelo imperador Francisco José a grande e melhor fatia do império. Na altura da visita a cidade tinha 200 edifícios não só classificados como exemplarmente conservados. Catedrais e igrejas feitas com o melhor e mais requintado mármore de Carrara e desenhadas pelos mais famosos arquitetos da altura. Foi aí que pude apreciar o peso e a riqueza do império dos Habsburgo. O Palácio de Schönbrunn (1643) (Palácio de Versalhes de Viena) com a sua cor amarelo-ocre, retrata bem a opulência daquele tempo.
Fiquei pesaroso, até hoje, por não ter entrado na Ópera de Viena; mas deslumbrei-me a passear pelas alamedas floridas e bordejadas pelas expressivas estátuas de Mozart, de Schubert, de Strauss, ouvindo ao vivo as orquestras que aí tocavam graciosamente para o grande público.
Almocei debaixo das arcadas do estádio do Prater onde o FCPorto ganhara (1987) a primeira taça de Campeão Europeu com o inesquecível golo de calcanhar de Madjer. Andei na roda gigante do parque de diversões do Prater (1897/64 m) com vista panorâmica da cidade.

É arriscado fazer esta apreciação, mas ouso dizer que há dois países neste planeta que encantam pela sua beleza e história e que ficam para sempre na retina: Suíça e Áustria.


Checoslováquia
Sair da Europa ocidental e entrar na Europa de Leste fazia parte do desejo secreto ou menos secreto de toda a gente e minha também. Ver a funcionar o mundo comunista para depois o poder comparar com o capitalista, era ambição geral adiada. Falar disso agora, num outro tempo, em que a história fez o seu curso, parece risível. Eram, confirmo, tempos bem complicados; era o mundo comunista com uma dimensão existencial agora inimaginável.
Ao aproximarmo-nos da fronteira da então Checoslováquia começamos por notar a diferença que mais adiante se veio a revelar enorme. Desde logo e nos controlos de fronteira a segurança era blindada. Os nossos temores eram visíveis. Os guardas, muitos guardas, entraram intimidantemente pela camioneta adentro e vistoriaram tudo. Nós, os turistas, atentos, acompanhávamos silenciosos a sua evolução. Nada de significativo, felizmente, aconteceu. O Sr. Pinto Lopes com a sua avisada experiência e proverbial boa disposição, resolveu a questão dos guardas com umas garrafas de Vinho do Porto. Aliás, o excessivo aparato era o cenário previamente montado para amedrontar e extorquir os turistas. Paga essa taxa extra diretamente aos interessados, o problema deixou de o ser.
Já dentro do país, agora República Checa, e contrariamente à postura ostensiva dos militares e forças militarizadas nomeadamente dos da fronteira, observamos que éramos observados minuciosa, tolhida e tristemente por cidadãos com aparência de má nutrição, magros mesmo, e bastante descuidados, inclusive esfarrapados. Os locais de frequência pública - cafés, wc's - eram pobres e sem oferta de produtos e serviços com o mínimo de qualidade, embora pagos.
Seguimos nesta atmosfera de míngua e com os sentidos bem despertos até Brno. Embora esta cidade tenha pertencido ao Império Austro-húngaro até ao fim da primeira guerra mundial, o certo é que na era comunista, por falta de dinheiro, não foi feita a necessária manutenção dos edifícios da era imperial; pelo que o estado de degradação era perigosamente sentido. Muitos deles estavam estacados à espera de melhores dias para a sua reabilitação. Fomos numa pequena incursão pedestre até ao despovoado e desinteressante centro histórico da cidade, sem outro interesse especial a não ser para a recolha de elementos comparativos.
Debaixo deste clima pouco respirável e por estradas tipo as nossas locais, seguimos para Praga, a capital. Embora se mantendo aqui parte do que observamos até Brno, havia porém uma outra parte bem diferente e bem mais agradável e turística.
A começar pela sua histórica Praça da Cidade Velha onde ‘aconteceu história’, nacional mas com impacto internacional - Primavera de Praga, 1968, com Alexander Dubcek e a sua tentativa de abertura democrática (“A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera). No seu centro a referência religiosa e fundacional do País através da estátua de Jan Hus.
A Torre do Relógio, a Ponte Carlos, o Castelo de Praga, a Catedral de S. Vito, foram os locais de passagem selecionados e obrigatórios. A visita ao Cemitério Judeu, foi um momento especial e tocante, remetendo-nos a sua vista imediatamente para o Holocausto. Os Cristais da Boémia eram outro foco de interesse que perseguíamos. Não podíamos deixar a República Checa sem uma visita a uma fábrica da famosa cerveja Pilsen; foi o que fizemos deliciando-nos com a novidade. Não queria deixar a República Checa sem destacar as igrejas e catedrais do tempo do império: dignas de nota embora algumas ainda degradadas. (admito que já tenham sido convenientemente recuperadas, até para a exploração turística).


Alemanha
Da Alemanha não ficou grande recordação. Retenho a famosa, densa e bonita ‘Floresta Negra’, a cidade de Nüremberg e de resto foi fazer quilómetros até ao próximo destino. Aproveitamos essa grande travessia de quase toda a Alemanha - oriente / ocidente - para as fotos de ocasião e entretenimento coletivo no interior da camioneta, com fados do nosso Frade, anedotas e campeonato de sueca (por acaso ganhei-o com um parceiro de ocasião do Fundão e como troféu tive direito a uma garrafa de Vinho do Porto da coleção particular do Sr. Pinto Lopes).
Mais tarde (AGO/2013) regressei aqui para uma visita de 10 dias, e aí sim, fiquei com uma ideia bastante mais plena do que é a Alemanha.
(http://dinamico-dinamico.blogspot.pt/2013/09/o-melhor-da-alemanha-com-plv.html)


Belgica / Luixemburgo
E chegamos à Bélgica a que se seguiu Luxemburgo.
Foram passagens por estes países e cidades não tendo registado algo especialmente recordável, exceção para os icons internacionais incluindo o Centro Atomium. Nem na altura estes dois países, nomeadamente a Bélgica, tinham a visibilidade dos nossos dias.


França
Reentramos em França por Reims. Aqui sim, já ficou a sua catedral, o famoso champanhe de Reims (que não provei) e o imenso e emblemático cemitério de Reims, recordando suas incontáveis cruzes brancas (12.000) e a sua enorme dimensão de tapete verde a tragédia do que foram os mortos da 1ª guerra mundial. Esta visão provocou um impacto memorável.

Paris!
Se há cidades e locais que todos desejam visitar um dia, Paris será das primeiras senão mesmo a primeira. Paris é, também o confirmo, A Cidade.
Não é fácil, em pouco tempo, ficar-se com um overview à altura.

E aqui entro com um argumento que me levou no futuro à fidelização na PLV. É que esta empresa tem uma filosofia comercial que me agrada especialmente. Refiro-me especificamente à facilidade e franqueza que disponibilizam aos clientes para que realizem os seus sonhos, observando o máximo de coisas no tempo ao dispor. O Sr. Pinto Lopes, ele próprio, passeou-nos de dia, a primeira vez, e de noite, a segunda, por todos os cantos de Paris, sem faturar mais por isso; (em 2004(?), no regresso de uma viagem aos Países Nórdicos, o Fredy surpreendeu, brindando-nos com um city-tour surpresa de 3/4 horas pela cidade de Frankfurt.

Não faltou naturalmente a Torre Eifel, o Cartier Latin, a Sorbonne, o Sacre Coeur, o Trocadero, o Arc Triumphe, os Champs Elisés, o Moulin Rouge, Monparnasse,  os Bateau Mouche …
Ou seja, apesar de pouco tempo – dois dias – foi contudo o bastante para querer regressar. Elegerei a subida à Torre como o momento especial da viagem. Ver Paris a partir daí numa abrangência de 360º é um momento único.
Mais tarde regressei a Paris – 8 dias - para refrescar a memória e conhecê-la ainda melhor (inclui Poitiers, os Castelos do Loire, a Disneylândia e o Futuroscope).


Sei bem que este método de turistar condiciona o conhecimento dos países. Sei que por esta via entramos no túnel turístico previamente selecionado e se fica a conhecer pouco mais que aqueles high lights. É certo. Mas esses, os mais significativos, ficam minimamente vistos. Selecionar uma opção, um circuito, é eliminar outros, sabemos. E para quem muitos dos lugares visitados são lugares a não mais regressar – por impossibilidades financeiras, por preferências ou outras – esta solução ajuda a resolver a questão.

Chegado aqui e voltando ao início deste apontamento, fica-me a dúvida: terei sido atraiçoado pela memória? E se sim, em que sentido e em que medida, por excesso ou defeito? Admito que por ambas: aqui e ali por defeito e mais além por excesso. De qualquer maneira não procurava o rigor mas tão só a sua aproximação, e isso tentei. Levo este texto à conta da diversão ou ocupação dos tempos livres. Perdoo a mim mesmo alguma leveza na sua abordagem.
Foi contudo um bom exercício de memória.

domingo, 2 de março de 2014

'OS RETORNADOS', de Júlio Magalhães


Veio-me parar às mãos por oferta, ‘Os Retornados’, de Júlio Magalhães.
Confesso que tive de vencer algumas resistências para iniciar a sua leitura. Não pensava o livro, nem o autor, merecedor de créditos literários que me entusiasmassem a lê-lo. Contudo, para diversificar mais os temas que ultimamente tenho visto, peguei nele embora, repito, relutante.
As primeiras páginas confirmaram as minhas suspeitas e à medida que ia avançando tropeçava na fragilidade literária e mais à frente ainda no tom ‘lamechas’ com que o autor romanceia a questão; questão de resto muito cara a muita gente (talvez 500.000 pessoas) e ao país no seu todo: os Retornados.
Foi para todos um tempo particularmente complicado, amargurado, angustiado e sofrido, e digno por isso do maior respeito.
Fiquei com a ideia que a abordagem foi aligeirada, não sei se por incapacidade se deliberadamente para atingir um público-alvo de uma forma mais simples. Seja como for, não o faria nunca daquela maneira, em romance. 
Seria preferível que se deixasse falar a história através dos seus especialistas que, por norma, o fazem mais isentos de sentimentalismos, mais crus nos relatos e, assim, mais fiéis aos factos.
O tema embora recente - 1975 - não aporta para mim novidades. É um déjà vue do princípio ao fim.
Aproveitei para o revisitar, não encontrando mais-valias. Os factos lembrados correspondem bastante bem ao que aconteceu.  

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

"A história não acaba assim", de MST, Miguel Sousa Tavares


 
“Não há perdão. Mas há sempre esperança, tem de haver. Portugal não acaba assim nem agora.”

Escritos políticos 2005-2012

Depois de ler o livro…

Não nutro particular estima por MST mas isso não significa necessariamente que não lhe reconheça solidez intelectual, um trabalhador incansável e um lutador de causas (algumas quixotescas).
Irreverente, frontal, desembaraçado, intrépido, irónico, corrosivo, mordaz, são qualificativos bem evidentes que ajudam a traçar o seu perfil muito similar, de resto, ao do seu falecido pai (Francisco S.T.).
Cuidadoso e fundamentado e com uma veia literária interessante, expõe suas opiniões cativantemente.
Faz bem o trabalho de casa.
Do lado materno - Sofia de Mello Breyner Andresen - herdou a facilidade de expressão no campo das letras que, não sendo brilhante é, contudo, aprazível de se seguir. Não se destaca especialmente nesta área, posicionando-se porém acima da média do setor.

Não obstante, revejo-me em algumas, aliás bastantes, das causas que defende e aprecio a argúcia e o timing como e em que as denuncia.
Acompanho-o numas e outras há em que sou claramente contra.
Por exemplo:

i) 'Direitos dos Fumadores', tema em que sou contra. 
Já fui fumador (durante 20 anos) como julgo que MST ainda o será. Nessa altura, como ele, julgava-me detentor do supremo e intocável direito de fumador. Não admitia que alguém se opusesse a esse meu direito inalienável. Arrolava argumentos que sustentassem essa minha pretensão e a lei protegeu-me durante todo aquele tempo. MST, inteligente como é, é capaz de carrear para o assunto uma infindável lista de justificações (‘Para os outros justificações, para mim convicções’, diz com ironia um colega meu), mas MST esquece que há efetivamente gente – onde me incluo – que não tolera o ambiente / cheiro do tabaco. O legislador ao dividir o mal pelas aldeias, parece-me que andou bem. Mais, no meu ambiente profissional existe naturalmente essa restrição e os fumadores exercem esse seu direito com toda a liberdade em espaço reservado para o efeito, e o que digo é que noto por parte dos não fumadores maior respeito ainda pelo exercício desse seu direito. Exagera pois MST nos seus argumentos de pseudo-defendor de causa alheia ou social por o estar a fazer à luz do seu próprio umbigo.

ii) 'Adoção de crianças por homossexuais'.
Diz ele que é contra porque apenas ‘cura dos interesses dos adotantes sem curar dos do menor, cuja vontade presume indiferente’. A simplicidade da frase peca por exagero; admito que tenha outros argumentos que sustentem a sua posição pois esta, só por si, é francamente pouco por relegar para o esquecimento outras vertentes da questão que importam ao caso. Pegando no exemplo largamente conhecido dos ‘meninos da rua’, (quem não viu o filme ‘Cidade de Deus’ - uma caricatura bem conseguida sobre o tema) dá-nos, com um grau de crueza notável e realista, o que pode ser a vida dos meninos que crescem sem eira bem beira, fora de qualquer carril paternal ou social.

Vou apenas também lembrar aqui o desempenho (às vezes questionável) de algumas instituições coletivas - Casa Pia / Casa do Gaiato / Refúgio Aboim Ascensão, sempre tão faladas – que sendo necessárias e de apoiar, são todavia bem mais impessoais e de ambientes potenciadores de ‘problemas’, pelas naturais dificuldades de acompanhamento e de gestão humanas. E a questão põe-se aqui: qual será a aposta mais visionária: a da continuação dos ‘meninos de rua’ ou a da adoção por pessoas ‘diferentes’ mas, em princípio, portadoras de valores humanos e de qualidade de vida social e financeira que lhes venham a proporcionar futuros mais promissores e mais socializantes? O que é que a sociedade prefere, uns ou outros? Chegou a altura de fazer a escolha. Pode-se dizer que a escolha é exigente e fraturante mas, por a mim, opto claramente pela segunda, pela adoção.

iii) 'Facebook'. 
O argumentário que MST usa para fundamentar a sua posição contra, peca, novamente, por exagero. Muita coisa do que diz é obviamente verdade; mas existem bons exemplos que rejeita e que eu aplaudo. E dou dois: i) o meu grupo de tropa. Encontramo-nos uma vez por ano e reencontramo-nos e comunicamo-nos em bloco no Facebook. É-nos útil, portanto (de acesso restrito).

Um outro exemplo é o do ii) meu grupo privado familiar (de acesso restrito). Aí cada elemento do grupo diz o que quer, quando quer e todos reagem animadamente e isso não condiciona o contato pessoal, antes pelo contrário, estimula-o.

Deixo apenas estes três exemplos mas outros mais há.

Alguns dos testos selecionados para o presente livro, contêm verdades indesmentíveis e, para quem assim o quiser, premonitórias também no sentido em que certas causas juntas, sabemo-lo, produzem invariavelmente efeitos previsíveis.

Os textos de abordagem política deixam o leitor encharcado de um pessimismo pró-doentio, tamanho é o ‘imbróglio’ em que Portugal está submerso. Estamos mesmo no fio da navalha. Os vícios encrustados na sociedade portuguesa em geral, como quistos, estão na fase terminal e não se vislumbram soluções economicamente criativas nem alguém com capacidade técnica e de liderança para lhe introduzir os necessários e já tardios antídotos. Desde a inamovível casta dos professores aos dependentes mais ‘inofensivos’ do patrão estado, muita gente mesmo está viciada nesta dependência; habituaram-se a viver e a sobreviver sob esse imenso guarda-chuva, alijando responsabilidades e furtando-se a iniciativas próprias para no conjunto darem o seu contributo para a saída do atoleiro. Só que esse guarda-chuva já não guarda coisa nenhuma e está mesmo sem conserto. A única reparação que se conhece é a do aumento dos impostos, mais e mais impostos, até à asfixia total de quem trabalha por conta de outrem e que não consegue escapar-lhe.

No geral, MST, posiciona-se a uma distância apreciável de não alinhamento de quase tudo: partidos, corporações (…) cultivando contudo de todos eles um conhecimento continuado das suas envolvências ou interesses.

A calibração, a ponderação do funcionamento das coisas, da sociedade, da vida, permite-lhe percecionar em tempo útil a origem das tensões, criticar com denodo os desvios dos grupos e pessoas do normal comportamento numa sociedade democrática.

Todavia MST coloca-se do lado do observador, do lado crítico, do lado de quem não tem que tomar decisões. Resta saber, se estivesse do outro lado, como faria? Quando tivesse de animar a economia; quando tivesse de cortar nas despesas, ou quando não tivesse dinheiro para animar o cego, como atuaria!? Por quais optaria?

Neste ponto estou certo que i) MST não aceitaria lugares de decisão e, ii) por outro lado, a sua mente já está formatada para a análise crítica, vivendo financeiramente disso, aliás.

MST a decidir seria um problema para todos.

Se recomendo a leitura destes escritos políticos? Claro, vivamente e que cada qual tire as suas conclusões.

domingo, 26 de janeiro de 2014

'PORQUE FALHAM AS NAÇÕES', de Daron Acemoglu e James A. Robinson

James A. Robinson
 Daron Acemoglu
Com um segundo título ‘As origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza’ - ambos bons títulos - aqui está uma obra brilhante e elucidativa; com princípio, meio e fim.

Estamos perante uma tese, para mim um Tratado, de Ciência Política e de Economia, focando (e alertando) para a importância da implementação de boas práticas de gestão, gestão cuidadosa das nações, pequenas ou grandes.

Os autores, eles próprios, encarregaram-se de lembrar e de a contrapor com outras teorias sobre o mesmo tema, nomeadamente com aquelas que o tentam explicar pelo lado Geográfico, Cultural ou da Ignorância.
Embora não os tendo lido mas, na medida em que D.A. & J.A.R. falam delas, parece-me esta bem mais incontestável.

Com um respeito 'notável' pelos seus autores, opinaram e, no meu modesto entender bem, que aquelas, embora respeitáveis teorias, continham algumas brechas, e que não eram suficientemente fortes e capazes de explicar tudo; e assim e sobre elas também, acrescentaram a sua:

• a das sociedades com instituições políticas e económicas inclusivas e/ou extrativas;
• a das sociedades com governos absolutistas;
• a das sociedades mais ou menos centralizadas;
• a das sociedades que defendem e asseguram o direito à propriedade privada;
• a das sociedades respeitadoras da lei e da ordem;
• a das sociedades que incentivam a economia;
• a das sociedades com contrapoderes fortes disseminados;
• a das sociedades que promovem a destruição criativa.

Sobre estas grandes linhas orientadoras e compilando informação exaustiva, escreveram este quase compêndio em que detalhadamente explicam porque é que umas nações falham, e outras prosperam e perduram com sucesso.

Abordagem interessante e do mais elaborado e completo que ultimamente tem aparecido. Seus autores, (Daron Acemoglu & James A. Robinson), dois homens inteligentes e com uma capacidade de trabalho singular, levam-nos através das suas investigações e conclusões, para patamares de conhecimento e compreensão sobre a evolução do comportamento das sociedades, antigas e recentes, absolutamente novas e reveladoras.

Assumimos que, para assegurar esta sua frente de trabalho, recrutaram um batalhão de pessoas - também bem preparadas, os chamados ‘ratos das bibliotecas’ - (como fazem muitos escritores da n/ praça) para selecionarem o material que eles elegeram para constar em livro. Esta retaguarda, contudo, não ofusca nem diminui o seu talento e trabalho de líderes na publicação final.

É um privilégio para todos nós poder ter acesso a trabalhos de pessoas dotados destas capacidades, capazes de sintetizar, enquadrar e dar forma, neste caso, à história da evolução da humanidade de séculos (do séc. X a.C. até ao nosso), focando os seus aspetos políticos e económicos.

Livro fundamental, básico mesmo, para todos aqueles que ambicionam acompanhar o funcionamento do mundo para além do fervilhar do dia-a-dia. Saber como agir e reagir, tendo por base informação abrangente e sólida.

Todo o cidadão e principalmente se político responsável deveria conhecê-las: os quês e os porquês das coisas; quais as opções a tomar com segurança, de forma a salvaguardar sempre o essencial. Se assim fosse, estou certo, poupar-se-iam etapas e evitar-se-iam muitas desilusões. Decidir em cima do joelho, sempre com soluções de recurso, é perigoso e conduz as sociedades, as mais das vezes, por caminhos sinuosos senão tortuosos, e não raras vezes estatelando-as contra a parede como é o exemplo quase dramático do presente caso português; e não só.

Por deficit académico ou iliteracia pessoal sobre o tema sinto-me pouco confortável para o questionar ou para o por em causa. É tão densamente explicativo, tão historicamente bem fundamentado, tão internacionalmente calibrado que pendo para a sua aceitação como incontornável verdade.

Na perspetiva destes dois autores, alguns dos grandes e antigos impérios estudados, concretamente o Romano, o Aksum ou o Maia (que não os coloniais dos tempos mais modernos), colapsaram a partir da altura em que as suas políticas e economias enveredaram e se tornaram maioritariamente extrativas, atingindo o ponto do não retorno.

Os conceitos resumidos nas palavras ‘inclusivo’ e ‘extrativo’ resultam felizes. São de resto as duas palavras-chave que perpassam por todo o livro e são os alicerces e charneiras para esta proposta; praticamente tudo se resume a elas e são o seu epicentro.

Resumo para mim próprio 'extrativo' como:
Funcionamento da economia e da política tendo como primeiro objetivo a obtenção fácil e rápida do lucro mas, e isto é distintivo, fora de sistemas integrados, coletivos e de interesse geral ou nacional.
Por exemplo: negócio de armas, drogas, fraudes fiscais, escravatura - à moda antiga ou moderna -, corrida desregrada ao ouro/prata ou e também, noutra escala, a economia paralela (economia não contabilizada: ilegal ou clandestina; em Portugal, 19% - 31.1MM€ - Finais de 2012)...
O contrário disto, e desejável, são as economias e as políticas 'inclusivas' em que as empresas e as pessoas funcionam em sistemas nacionais conhecidos e integrados pagando aquelas - empresas e pessoas - os seus impostos e recebendo dos estados, em retorno, as ajudas sociais.

Em Portugal, felizmente, a maioria das empresas e das pessoas pagam os seus impostos pese embora o fato de ultimamente devido à 'crise', muitas terem optado, numa deriva preocupante, pela economia paralela.

Outro tema interessante é o da 'descentralização' do poder. Este não deverá funcionar tipo vasos comunicantes em que todos dependem de todos (mesma fonte) mas exercendo cada um a sua quota de poder.
Quanto mais ramificado / distribuído estiver o poder mais seguros estarão os direitos dos cidadãos e o funcionamento dos países; a contrário, a concentração do poder (absolutismo) agiliza e facilita o exercício do poder discricionário.

Até à leitura deste livro defendia com vigor a não regionalização em Portugal com o argumento simplista e economicista de que era mais uma 'criação' para facilitar mais 'jobs for the boys', como se diz. Embora agora repensada, mantenho a opinião apenas por três motivos:

1º - somos um país demasiado pequeno para o espartilhar ainda mais;
2º - o poder local de que o país dispõe provou ser o necessário e o suficiente para suster o central e responder às ambições locais; inclusive, através da ANMP e ANAFRE, conseguiram formar lóbi com muita força política;
3º - os lóbis para serem fortes têm de ter alguma massa crítica, massa crítica essa que seria apoucada por uma dimensão menor ou, a contrário, seria exponenciada se com maior dimensão.

Nota 01 - foi justamente e só por esta última razão que fui contra a criação do novo estado do Kosovo (10.000KM2 / 2,000,000 pessoas): país pequeno demais para garantir sua própria independência e/ou sobrevivência e também para se afirmar internacionalmente. Vamos ver a quem o tempo dará razão.

Nota 02 - ao nível da União Europeia os países mais pequenos estão a incorrer no risco sério da transferência excessiva de poderes para Bruxelas, e isso pode vir a revelar-se fatal. Bem sei que 'ainda' estamos na fase definidora das bases do funcionamento da União mas, observa-se claramente a tendência da centralização ou, então, à pressão já hegemónica por parte dos países maiores e mais fortes, nomeadamente do eixo Franco-Alemão ou mesmo só da Alemanha.

Já noutra altura aqui lembrei que, por estes motivos, os países da U.E. chamados de periféricos (PIIGS) estariam mais seguros se os seus interesses já estivessem mais cruzados com os dos grandes; cruzados ao ponto de não ser possível, exequível, desaconselhável ou descartável o ‘descruzamento’. Se assim fosse os ditos grandes ter-nos-iam em melhor conta aquando das grandes decisões: ao defender os seus teriam de defender os nossos.
A Federação dos Estados seria solução.

'Destruição criativa' com o consequente espaço e oportunidade para a criatividade e empreendedorismo das pessoas, criatividade sempre bem-vinda por ser um dos motores fundamentais do progresso e da prosperidade.

O exemplo referido no livro do tear inglês é paradigmático: o poder nega a evolução por recear turbulência na 'paz (podre) social'.
Resumindo a história do tear inglês (1583): havia um sujeito (padre) que observando sua mãe e suas irmãs a fazer malha começou por imaginar o que poderia ser a produção de roupa se, em vez de uma só agulha, fossem várias a operar ao mesmo tempo. Abandonou a vida eclesiástica e dedicou-se por inteiro ao projeto. Investiu todo o resto da sua vida nele tendo, já quase no fim, conseguido fazer o primeiro tear da história. Pegou nele e foi falar com a Rainha - Isabel I - para patentear o invento e, depois, ganhar dinheiro. Abreviando, recebeu dela um redondo ‘não’. Ainda tentou com o Rei sucessor - Jaime I - mas continuou a receber o mesmo condenado ‘não’. França também disse ‘não’.

Aqui há alguns anos atrás estive turisticamente numa fazenda do nordeste brasileiro. Fomos (bem) recebidos pelos proprietários que simpaticamente nos explicaram o funcionamento da fazenda. Interessou-me toda a explicação em geral e detive-a na parte da colheita da cana-de-açúcar. A fazenda era grande, 15.000 hectares, salvo erro. Para além da criação de gado dedicavam-se à exploração da cana. Foi então dito que a sua colheita era feita por trabalhadores e que estes eram pagos de acordo com o número de metros cortados, ou seja: X metros/homem/dia de cana manualmente cortada, vezes X reais/metro, igual a salário dia.
Na minha voluntariosa e europeia visão perguntei porque não introduziam máquinas para a colheita em substituição dos humanos? Produziriam mais e não dariam problemas doutra natureza! Reposta pronta do fazendeiro: e o que faria com os trabalhadores? Ficariam sem emprego e sem dinheiro e viriam aqui para a porta perturbar...
Eis pois replicado nos nossos dias - século XXI - o exemplo do tear inglês. Já lá vão mais de 200 anos depois da revolução industrial inglesa e no Brasil (ainda) é assim!
'Destruição criativa', nem pensar.

Apetece aqui deixar, porque relacionada, uma outra pequena história ocorrida nessa viagem. Abeirou-se de nós um 'miúdo de rua' - não da cidade mas de campo - que não mais nos largou. De entre muita outra conversa, perguntei: que faz teu pai? Resposta pronta: de dia agricultura, de noite criatura. (Eram 11 irmãos).

Botswana, exemplo interessante!
De entre os países africanos emerge o Botswana como exemplo diferenciador. Embora também ex-colonizado teve a singular sorte de ter tido como seu primeiro presidente, após a independência em 1980, um Senhor chamado Seretse Khama que, tendo estudado em Inglaterra, para lá levou a organização política e económica inglesas (políticas e economias inclusivas). Com esforço, abnegação pessoal e vencendo resistências de todo o tipo, conseguiu aí implementá-las. Como consequência temos um país africano (penso que único) com um crescimento sustentado de anos (10 %/ano). Por acaso, ou não, o atual Presidente – Iam Khama - é seu neto. (Área: 581.000 K2 - População: 2,000,000 - PIB per capita 16.000 USD/Ano – PIB/Portugal: 20.000).

Sob as mesmas perspectivas ‘inclusivas/extrativas’, explicam também a ascensão e queda da antiga URSS. Avisam que a atual China está a crescer com políticas e economias extrativas, daí se inferindo o fim do seu atual estatuto – a médio/longo prazo -.

Segundo esta análise o vaticínio de Nostradamus (1503) sobre o ‘poder amarelo’ - que hoje se verifica - não durará como imaginava.
A ver vamos.

É imperioso – porque estabilizadores de futuros sólidos e longos - haver estados democraticamente fortes (inclusivos), fortes ao ponto de serem capazes de:

• conduzir os interesses superiores dos países que representam;
• assegurar a ordem pública;
• cumprir e fazer cumprir as regras constitucionais;
• assegurar o direito à propriedade;
• incentivar a atividade económica;
• permitir e garantir a destruição criativa.

Muitas vezes se fala do porquê da diferença atual dos países ex-colonizados: uns ricos, outros pobres ou muitos pobres. Chama-se para a comparação, por um lado, países como os EUA/Austrália e, por outro, os Asiáticos, Sul-Americanos ou Africanos.

Nós portugueses gostamos de pensar e espalhar à boca cheia que fomos e somos ‘diferentes’: melhores!
João Paulo II na sua deslocação a Angola espalhou isso mesmo ao fazer ecoar nos media sua admiração pela boa coa-habitação social entre o antigo colonizador e o novo país. Eu próprio sou testemunha, quer antes quer depois da independência, que existe uma relação de amor-ódio entre os dois países com franco pendor para a do amor. Outro tanto não se poderá afirmar da parte política angolana. Com efeito, por razões de sobrevivência política, afirmação autonómica e sénior do país, a classe política continua a ter necessidade de embandeirar o estigma do ‘colonizador’, semeando a cada esquina esse pseudo-ódio.

Houve realmente e ainda há na n/ relação com os ex-territórios coloniais, uma relação de proximidade e ‘boa vizinhança’ que se explicará pela tradicional bonomia e caracter afável do povo português. E pelos dias que correm essa bonomia e essa afabilidade estará bastante mais acentuado dadas as necessidades de emigração portuguesa.
Bem no seu início essas relações foram iguais a de quase todos os outros colonizadores, tendo ido explorar em primeiro lugar, como eles, e durante séculos, esses povos, numa pressão fortemente extrativa. Não era então n/ preocupação dotar aqueles países de infraestruturas político-económicas inclusivas capazes de resistir e subsistir ao tempo; explorou-se mesmo a escravatura como primeiro recurso para a obtenção de dinheiro rapidamente.
A Inglaterra quando chegou concretamente aos EUA ou Austrália, não encontrou número de indígenas bastantes que aliciasse a sua transação comercial. Daí que, nestes dois lugares, tiveram de fazer outras opções o que, não só poupou aquelas gentes à escravatura como proporcionou a introdução de lógicas inclusivas. Beneficiaram esses países do espírito da revolução industrial que para aí foi sendo exportado. As suas caraterísticas e pujanças atuais remontam e ancoram-se nesse tempo e são hoje o que sabemos: ricos e poderosos.

Ler este livro – brilhante, histórico e aprazível - é fazer uma bem-sucedida viagem de quase 30 séculos pela história político-económica da humanidade.
Seus autores não pouparam esforços nem pesaram o tempo despendido para demostrar cabalmente sua tese.

Copy/paste do livro, página 443:
“Hoje os países fracassam porque as suas instituições económicas extrativas não criam os incentivos necessários para as pessoas pouparem, investirem e inovarem”.
Frase simples mas lapidar onde está concentrada toda a teoria. Obviamente que para a descodificar na sua máxima extensão tem ler-se todo ele.

O livro é rico demais para o tentar fechar em poucas linhas.
Deixo aqui algumas impressões para memória futura, aquelas que me pareceram mais significativas, sugerindo-se a leitura integral do livro. Pode parecer que os autores escreveram demais; mas não. Este puzzle é constituído por imensas e pequenas peças e chegados ao fim verifica-se que todas elas encaixam e são importantes à compreensão do tema.

No último terço do livro deixam-nos uma resenha, apesar de breve, bastante interessante e elucidativa do status de alguns países nos dias hoje, à luz dos conceitos defendidos no livro como a Argentina, Colômbia, Botswana, Uzbequistão, Coreia do Norte, Serra Leoa e muitos mais. A reter. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

...mais vale viver (relativamente) pior!


Futuro
Passado

“Século XX, Século do sofrimento e da esperança!”

Acabei de ler a “História do Século XX”, de Martin Gilbert.

Foi com gosto intenso e muitas vezes emocionado / indignado / revoltado… que revisitei todo o século XX conduzido pelas mãos de um mestre em história e literatura. Sim, as duas abordagens, histórica e literárias, estão bem presentes. História do comportamento das sociedades, da humanidade em geral bastante conseguida, agradável, imparcial, objetiva e literariamente perfeita.
Ritmo certo e uso correto e até exímio da palavra na transmissão dos acontecimentos.

Não nego, antes pelo contrário declaro, que me deixei emocionar por muitos dos fatos que aqui são lembrados em resultado dos fatos em si mesmos e pelo realismo e crueza como ocorreram.

Acresce também que a segunda metade do século (desde 1951) foi também vivida por mim e eu próprio fui testemunha e sujeito ativo do seu desenrolar. Fui eu também interventivo durante dois anos na guerra colonial portuguesa, ao seu serviço, quando vesti a farda militar em Angola nos anos 72 a 74.
Em bom rigor e não tentando com isso alijar responsabilidades, não tinha como alguns, uma atitude consciente das envolvências em resultado de algum deficit de informação académica e/ou política. Comecei aí precisamente, aos 20 anos, a perceber melhor e mais detalhadamente o que acontecia à minha volta e no mundo. De qualquer modo ao participar fui agente ativo na história, nomeadamente na portuguesa.

Vou tentar não me repetir ao que já escrevi a propósito desta publicação de MG num outro apontamento anterior, mas confirmo por inteiro o que então lá referi.

A história portuguesa num ou noutro momento também figura nos relatos de MG mas, para o bem e para o mal, consta pouco; admito que, depois dos muitos exemplos que li da história de outros países, para o bem. Com efeito a maior parte das inclusões históricas de países na ‘História do século XX’, foram-no por razões de guerras, crueldades, morticínios, xenofobias, étnicas, raciais, desalojados, refugiados ou acontecimentos desumanos desse género, bem graves e tristes.
Não figurar aí por essas razões, parece-me uma boa omissão.

… mas há dúvidas.

Aqui há alguns anos atrás viajando pela primeira vez por essa europa adentro (até à então Checoslováquia), e confrontado com a diferença abissal a muitos níveis dos países visitados, nomeadamente França, Suíça e Áustria, foi referido pelo Guia que essa diferença de modernidade tinha tido origem nos dinheiros do plano Marshall a que Portugal, por não ter participado da II guerra, não tinha tido acesso. 
Essa não participação remeteu-nos para o isolamento político e financeiro que só terminaria (?) com a n/ entrada na U.E.; ou seja, essas consequências pesaram duramente em várias gerações durante mais de 40 anos.
Valeu a pena?
Obviamente que não é possível reduzir o valor da vida humana a uma cifra, ‘não tem preço’, e Portugal ao não entrar nessa guerra poupou muitas vidas. Quantas? Milhares, seguramente. Num dos pratos dessa balança temos de colocar essas vidas poupadas e no outro a miséria (relativa) em que viveram 10.000.000 de portugueses durante esse período.
Pendo para o lado dos que pensam que mais vale viver (relativamente) pior do que ter-se entregue vidas à chacina.

Sublinho por me parecer de destacar o fato de George Bush ter escrito no seu diário pessoal que estava a ler os escritos de Martin Gilbert na altura da intervenção do Iraque no Koweit e que essa leitura foi importante para formar s/ opinião sobre se a América deveria ou não intervir: interveio. Fica assim relevada, se disso houvesse necessidade e não há, a mais-valia da opinião de MG.
Seus escritos dão-nos a oportunidade de refletir sobre os acontecimentos que condicionaram o passado e, porque se ligam, projetar avisadamente o futuro.

A quem chegue a este nível de conhecimentos corre o sério risco de ter de repensar toda a sua arquitetura de filosofia de vida, política e não só. Não é possível ficar-se indiferente depois de beber esta dose maciça de informação.
Se por um lado os acontecimentos, muitos deles terríveis, reestruturam o pensamento, por outro lado somos banhados por uma calma inesperada pois se aprende a relativizar muito do que se ouve e nos posiciona para fazermos melhores triagens.
Ficamos mais seguros e certos sobre o amanhã, se é possível pensar-se assim.