quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Avaria C5 - 15SET'2013

Para memória futura
Avaria C5
Matrícula: Maio 2009 40-HS-99
Km actuais: 41.094
Última revisão: 38.712, Maio 2013
Revisões e acompanhamento: sempre nos concessionários da Citroën.

Ao chegar já perto de casa, e sem que até então tivesse ocorrido algo assinalável, acendeu no visor do carro a palavra 'Service' acompanhada de um toque sonoro e, cito de cor, a expressão 'pressão de óleo do motor insuficiente'.
Alarmado e preocupado com o alerta, não andei mais com a viatura e, via Seguro de Assistência em Viagem, foi o carro rebocado até às oficinas da Caetano Retails da Maia.
Explicada detalhadamente a ocorrência ficou aí parqueado para diagnóstico.
Segundo depois me foi comunicado, após os testes, o problema não tinha origem na parte electrónica.  Assim, avançaram para a parte mecânica tendo concluído, após medição com o manómetro, que a pressão do óleo do motor era inferior à recomendada pela Citroën em 1 Bar e que tal diminuição era atribuída à avaria da bomba que assegura ou que deveria assegurar a correta pressão do óleo no motor.
Face às explicações fornecidas, dei ordem de reparação.
Porém, e agora passo para Citroën/Portugal, não me conformo nem aceito esta avaria, melhor dizendo, com a duração da peça avariada.
Era de supor, pelo menos eu supunha, que, por comparação com a concorrência, as peças de um carro desta gama resistiriam muito mais tempo e muitos mais quilómetros à erosão do tempo e do uso, razões pelas quais foi o carro por mim preferido: não ter problemas por uns tempos.
De resto, e em conversa com o técnico que o assistiu, foi-me por este adiantado não ter nunca encontrado outra avaria igual. Acrescentou ainda não saber explicar das razões que lhe terão dado origem...
Digo ainda que é uma peça inacessível e cuja bom funcionamento e manutenção não dependem do utente mas da qualidade da sua origem.
Dei sempre à viatura a assistência que a Citroën recomenda e nos seus concessionários.
Dito tudo isto, digo agora que alijo qualquer responsabilidade pessoal no caso imputando-a ao fabricante/Citroën, e reivindicando a sua substituição graciosa.
Fico a aguardar v/ notícias convicto das razões que me assistem e certo de que a Citroën também concluirá isso mesmo, honrando a postura idónea que granjeou ao longo dos anos em Portugal e no mundo.

(O texto não chegou a ser enviado dado que a Caetano Retails tomou a iniciativa de contatar a marca - depois de eu ter dito que o ia fazer - e daí resultou que a Citroën se prontificou em pagar 90% e a própria Caetano Retals os 10% restantes da bomba d'óleo)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Novos Impérios

Já lá vai o tempo em que a dimensão territorial dos Impérios era a unidade de medida para se aquilatar da Grandeza de um Império. À medida que o Século XX foi avançando, os Impérios, nomeadamente os coloniais, foram caindo uns atrás dos outros. Vingara a corrente de opinião punitiva de que colonizar era um mal em si mesmo. Instalara-se nos media, nas sociedades e nos governantes a ideia de que era chegada a hora dos colonizadores deixarem/entregarem (entregas praticamente todas forçadas) as antigas possessões aos países de origem e retirarem-se de cena. Nos últimos anos do século o último deles sucumbiria: Portugal.

Não se quer com isto dizer que os países, todos eles, mas principalmente aqueles com mentalidade imperialista, tenham abandonado a ideia imperial. Foi abandonada a ideia colonial mas não a imperial. Esta travestiu-se com roupagem económico-financeira. A unidade de medida deixou de ser territorial e passou a ser económica. Porventura tão ou mais acintosa que a anterior. Esta nova postura faz lembrar o 'polvo' ou a rede-arrastão do pescador: chega longe e tudo apanha. Desta forma a economia dos maiores amarra os menores até à asfixia. Estende-se por todo o mundo.

Acresce a tudo isto uma outra e nova dimensão de fazer guerra: os drones.
Na guerra do Vietname morreram 58.000 soldados americanos; a pressão exercida pelos familiares dos militares falecidos e pela sociedade americana em geral sobre os governantes foi de tal maneira grande que tiveram de lhe por fim e bater em retirada sem proveito nem glória.
Com o advento dos drones (versão atualizada dos V1 de Hitler usados na segunda grande guerra) é eliminada aquela pressão social interna, ficando o campo aberto para a intervenção discricionária. Resta apenas o escrutínio internacional. Será que é ouvido? Se lhe juntarmos a dependência que os países pequenos têm dos grandes, a coisa fica mais difícil...
(Era suposto usarem drones na anunciada intervenção na guerra na Síria)
 

sábado, 21 de setembro de 2013

1ª Guerra Mundial, suas causas.

(No seguimento do apontamento anterior sobre a Alemanha)
'História do Século XX', de Martin Gilbert

Acabo de ler 'História do Século XX' - 1° livro' - de Martin Gilbert, onde são revisitadas e confirmadas de forma resumida, embora, a), as causas que estiveram na origem da 1ª Guerra Mundial. 
Fica aí mais uma vez claro que a principal nação instigadora, propulsora, e ordenante foi a Alemanha. As Áustria-Hungria foram usadas para os seus fins bélico-estratégicos. E fica claro mais uma vez também que teve início num equívoco posto que a Sérvia aceitara, até à humilhação, todas as exigências expansionistas dos senhores daquele império Austro-Húngaro. Só que a carta da rendição incondicional chegou com 3 dias de atraso às mãos da pessoa certa e entretanto a máquina de guerra já estava em marcha e já não houve mais força nem coragem para a travar. 
As alianças internacionais definiram-se em menos de uma semana: Alemanha com o Império Austro-Húngaro, a França com a Rússia, a Inglaterra com a Bélgica.

Mortes nesta Guerra 
Aliados: 5.000.000
Eixo: 3.500.000
De entre os quais: 48909 Americanos – 1917/1918
a) Publicações do Expresso em pequenos livros, num total de 8, tipo Pocket-Book.

À semelhança de resto com o que recentemente aconteceu com a intervenção dos EUA/UK no Iraque - 2003 -. Como sabemos provou-se mais tarde, já depois da guerra, que afinal Saddan Hussein não tinha as armas de destruição em massa de que era acusado.

Porque então foi feita a guerra ainda por cima sem autorização da ONU!?

domingo, 8 de setembro de 2013

'O melhor da Alemanha', com a PLV

Encantado, é a palavra que escolho para reunir e definir o que observei durante uma curta visita de 10 dias à Alemanha.

Tinha um desejo grande de observar de perto, com os meus próprios olhos, tudo o que dela se diz e foi essa a primeira razão da preferência, de entre as diversas opções possíveis. Queria apreciar as várias dimensões de um país que é líder e está no topo mundial em muitos domínios.

E não fiquei desapontado: confirmo e concordo com muitas coisas que os media em geral têm veiculado. Junta-se com destaque aos países que conheço, mais homogéneo em mais áreas: social, territorial, infraestruturas, equipamentos base, monumentalidade ...

Talvez devesse esperar que o crivo do tempo tria-se as poeiras daninhas das primeiras impressões e esperar para ver o que os escaninhos da memória conservariam de mais importante.
Talvez um dia reedite este texto.

Percorri cerca de 2.500 km e visitei 14 cidades em excursão organizada e com guias locais em todas elas.
Bem sei que este tipo de visitas nos conduzem por um túnel turístico levando-nos assim aos High-Lights mais célebres, visitas previamente elaboradas e que se justificam porque são esses os sítios mais procurados pela grande maioria de visitantes. E é justamente esta massa crítica flutuante que acrescenta oportunidade a esses locais para se dotarem de meios, de ofertas de serviços mais qualificados, compatíveis e exigidos por essa migração ocasional.
Esforçar-me-ei por dar a compensação adequada de forma a melhor calibrar a opinião final.

Reconheço que me faltou mais contacto com as pessoas e isso pode fazer diferença. É certo porém que o que passa para a história é a vida e modo de vida dos grandes e poderosos; os pequenos, em todo o lado e lá também, são meios para os 'importantes' conseguirem seus objectivos. 
Deles, dos pequenos, não reza a história.

Observei:
. um país pujante, respirando saúde económico-financeira por todos os poros;
. um povo pacato e acolhedor (contrariamente ao que por aí se houve), publicamente pouco exuberante;
. um povo ordeiro e com regras comummente aceites;
. uma cozinha rica, farta e variada (tive principalmente acesso à do tipo internacional);
. uma hotelaria com performance hoteleiras acima da média;
. uma monumentalidade - plena de história - grandiosa e grandiloquente, bem recuperada das duas guerras, principalmente da segunda;
. cidades pequenas, encantadoras e românticas;
. cidades grandes, limpas e funcionais;
. um país que impõe as suas regras e rigor no  seu cumprimentou não só aos seus cidadãos como a quem os visita;
. um país em que os estrangeiros, temporários ou residentes, aceitam e se obrigam a cumprir as suas leis acolhendo-as pacificamente;
. um país onde já não é visível a diferença entre a RDA e a RFA;
. um país onde já não parece terem ocorrido duas grandes guerras mundiais num intervalo tão curto de somente 21 anos, das quais a segunda principalmente, deixou o país em ruínas;
. uma sociedade a caminho da plena integração (RDA/RFA);
. um país que não esquece a sua história dela deixando marcas importantes para os vindouros, apesar de não se orgulhar de algumas delas;
. que a visibilidade do estigma da 'raça ariana' estará extinta, mas percebe-se indelevelmente interiorizada nos comportamentos das pessoas e dos seus dirigentes;
. um país com gente alegre, feliz e orgulhosa mas não ostensiva;

Nota climatérica:
Tive a feliz sorte de ter estado sempre bom tempo - Agosto -, e com temperaturas acima dos vinte graus, e esse 'pequeno' pormenor condiciona positivamente todo o resto. Outra teria sido a minha opinião se a viagem tivesse ocorrido sob as vicissitudes de uns bem possíveis e desagradáveis 18 graus negativos.

Desde sempre a Alemanha desempenhou um papel relevante e determinante nos destinos do mundo, infelizmente as mais das vezes por más razões e com consequências a todos os níveis catastróficas (50M de mortos na 2ª guerra). Nos dias que correm continuam a ter um papel central no tabuleiro do xadrez geopolítico, geoestratégico e geoeconómico-financeiro mundiais. E é assim porque é um país grande, rico e consequentemente poderoso.
Os tempos da tomada do poder por via das armas, é hoje em dia inaplicável nos países democráticos do ocidente. E a Alemanha esqueceu(?) a época Hitleriana e conquistou esse poder pela via económica.

Nos anos idos e finais da era Salazar e mesmo após o 25 Abri'74, interessou-lhes o investimento em Portugal e para cá venderam tudo, desde teares para o sector têxtil, a toda a gama e marca de carros e maquinaria de última geração, até submarinos(!).
Armadilharam-nos o futuro com a concessão de crédito fácil para a sua aquisição.
... e nós, como inocentes cordeiros entrando na boca do lobo, compramos; e endividamo-nos.

Desenganem-se todos aqueles, portugueses incluídos, que pensam (alguns exigem!?) que a Alemanha de Angela Merkel, CDU, ou eventualmente de Peer Steinbrück, SPD, nos deveria ajudar solidária e graciosamente. Fá-lo-á sim, enquanto lucrar com isso; fá-lo-á sim, enquanto formos pedras úteis do seu xadrez.

Há cerca de um mês atrás os media fizeram contas e noticiavam que a Alemanha tinha ganho 41 MM Euros com a ajuda financeira prestada aos países que a pediram. No caso concreto de Portugal, dos 78MM pedidos, e da parte oriunda da União Europeia, a Alemanha contribuiu com os 20% da sua quota do PIB comunitário, a uma taxa média de 3,5%.
Por sua vez a Alemanha tem-se financiado nos mercados internacionais a taxas negativas (os receios gerados na comunidade europeia e não só, tem levado à compra da sua dívida, pagando para a conseguir, por lhe parecer segura).
Por outro lado, o dinheiro emprestado aos bancos, por exemplo,  pelo governo português tem de ser devolvido nos prazos acordados a uma taxa de 8,5%  Os Bancos por sua vez, têm de repercutir estes custos junto dos seus clientes.
É pois uma questão de fazer contas para se saber como funciona esta máquina trituradora e quem está a lucrar com quem! Quem está afinal a financiar a dominadora Alemanha!

Não podemos, todavia, alijar as nossas responsabilidades. O nosso mau voto e a má governance dos nossos políticos neles suportados, conduziram-nos ao ponto a que chegamos, praticamente a um beco sem saída. Portugal não está a gerar riqueza capaz de suportar este delay de taxas de juros. 
Até onde e como vamos aguentar esta situação, é a questão.

Com o seu sentido pragmático e programação à distância, mantendo-se fiel ao rigor dos números, a Alemanha consegue fabricar massivamente produtos de alta qualidade - muitos deles únicos - e exportá-los para todo o mundo. Nessa senda, criaram clusters e conservaram monopólios dificilmente ultrapassáveis. Detentores de tecnologia de ponta e de capacidade produtiva, o mundo em geral em muito dela dependente, disputa sôfrego muitas das suas criações.

O que seria da Alemanha se não tivesse o seu calcanhar de Aquiles: a dependência energética!

Curiosidade ou talvez não:
Os Sindicatos em Portugal a partir de Abril'74, reivindicaram salário mínimo e aumentos salariais indexados à inflação, de preferência superiores à inflação; e os sucessivos e diferentes governos anuiram...
Na Alemanha não existe a figura de salário mínimo e os aumentos salariais são indexados à riqueza produzida, ao PIB.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

“História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar”, de Luis Sepúlveda.

Com a graça de uma fábula e a força de uma parábola”, lê-se na contracapa deste livro, LS leva-nos a voar com ele, com a gaivota e com o gato grande, preto e gordo ao mundo dos sonhos, do imaginário, do impossível, da utopia. Aqui LS solta-se e dá-nos o seu lado poético, a noção da resiliência, da força e vontade de viver.
A fábula continua ser também um interessante veículo para dizer coisas, como é o caso presente.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

"Em busca do Carneiro Selvagem", de Haruki Murakami

É com enorme prazer, um prazer deleitado - quase Pavloviano - que repego num livro de HM. 
É um escritor extraordinário com um conhecimento raro e profundo dos mais ínfimos detalhes do comportamento humano, mesmo se colocado em situações mais inesperadas e principalmente pela capacidade que possui de lhes dar expressão em forma de letra.
Vou servir-me de uma expressão escrita na contracapa deste livro para este meu comentário: 'vamos levar HM ao triunfo', isto é, ao Nobel. Quanto a mim e se dos meus critérios dependesse, não hesitaria em atribuir-lhe o tão prestigiado e cobiçado prémio. É tão inovador, criativo e exaustivo nos temas que aborda como aqueles que o precederam e, digo mais: melhor e mais completo que alguns deles.
Os critérios que norteiam o Júri do Nobel apesar de abrangentes e razoáveis são excessivamente generalistas e tornam assim possível a subjectividade dos seus elementos. Repito que, por comparação, HM já deveria estar Nobelado.
Tinha gosto em vê-lo um dia destes naquela linda sala do Palácio dos Concertos em Estocolmo, rodeado de pompa e circunstância, a receber das mãos Carlos Gustavo o merecido reconhecimento mundial.

Tive desde muito novo conhecimento do génio que foi Michelangelo, nomeadamente para o que agora importa, da sua famosa Pietá (1499). Via em livros e em pequenas figuras a estatueta e ficava fascinado. Quando um dia me confrontei com o original na Basílica de São Pedro em Roma, senti-me esmagado com a sua grandeza mas sobretudo com a sua perfeição. Mirei, remirei, volteei ao seu redor, apalpei a macieza do mármore frio: foi de deslumbramento este encontro com a perfeição.
Relembro o episódio a propósito da escrita de HM; é que direi dele que é um escultor da palavra. Pega na caneta e descasca os quadros das histórias palavra a palavra, com toda a parcimónia lembrando o lento e preciso cinzel do exímio escultor percorrendo a pedra até chegar à imagem final. É inebriante acompanha-lo nesse percurso escultórico, hipnotizados pela lenta e gostosa evolução da decapagem que o há-de levar até ao formato final do texto; de tão perto o acompanharmos quase nos tornamos escultores com ele.

As ideias brotam em catadupa, como que jorrando de uma imensa e inesgotável catarata de águas límpidas e abundantes, lembrando as de Niagara (a natureza no seu melhor esplendor), todavia chegam-nos sem ruído, como que  empantufadas.

Escreve por prazer, com prazer e sem pressas, parecendo querer agradar-se a ele próprio em primeiro lugar. Não tem urgência em chegar ao fim; tão pouco se preocupa com um 'happy end' ou um 'big end'; outrossim sim dá relevo e muito à sequência e coerência da narrativa que se propõe ficcionar. O leitor, por sua vez, deixa-se embalar por esse ritmo e paulatina e gostosamente assume igual velocidade cruzeiro, sem pressas também.

De uma simples e inócua fotografia extrai uma história surpreendente e brilhante, com a mesma simplicidade com que o ilusionista tira da cartola não o previsível coelho mas uma improvável baleia azul.

Leitura para degustar, sorvendo sem pressas cada nova surpresa; e muitas são, a cada esquina. Tal como um bom vinho que ao beber-se lentamente adstringe o palato para nova experiência gustativa, também aqui se sugere a leitura pelo sistema gota-a-gota até porque são também adstringentes.

Dito isto coexistem e para mim subsistem áreas abordadas que não aprecio especialmente: as da metafísica ou ensaístas. A questão ê naturalmente minha; simplesmente não aprecio. Sei que os ensaios são abordagens importantes e adventistas do pensamento ou da literatura mas não, não me cativam.

Mais uma nota:
Há momentos na vida em que apetece levantar voo e planar ao sabor das correntes cálidas sem destino programado e, como El Condor bem lá do alto, observar novas paisagens.
HM neste livro oferece-nos um bom roteiro.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Retalhos de vida infanto-juvenis

As primeiras imagens, as primeiras impressões que arquivamos na nossa memória ainda imaculada dos primeiros anos da vida são esculpidas a escopro como que em puro granito. Assim como as águas passantes do rio vão polindo os seus godos também o tempo lhe suaviza as arestas; mas apesar de ligeiramente alteradas, o essencial fica lá. Se reolhadas a certa distância é sempre possível ver-se-lhe os contornos com nitidez e retocá-las ou mesmo restaurá-las.

No final da década de '50, tinha eu 7/8 anos, frequentava a escola primária local como os demais miúdos da região.
Não havia, como hoje, a boa preocupação pela ocupação dos tempos livres das crianças, pelo que os rapazes se entretinham a jogar à bola feita de trapos, a deitar o pião, a correr atrás do arco empurrado pela gancheta e às inevitáveis lutas entre eles; as raparigas na sua escola - sim digo bem, na sua escola, pois era proibido a mistura com os rapazes -, brincavam a saltar à corda, à macaca, ao lencinho cai cai e cantavam as 'pombinhas da Catrina'. Eram divertimentos simples, ingénuos, mas alegres e entusiasmavam-nos.
Éramos felizes assim.
Era o tempo de rescaldo da II Guerra Mundial (50 milhões de mortos, recorde-se) e o mundo, Portugal incluído, tentavam soerguer-se a pulso de entre os seus escombros.
Viviam-se tempos de desumana pobreza e até miséria nacionais em geral. Minha escola tentava suprir algumas dessas carências mais básicas fornecendo gratuitamente a todos os meninos i) ao meio da manhã uma caneca de leite quente (em pó) e um pão (um trigo, assim chamado) com queijo; ii) ao almoço era servida uma tigela de sopa também quente aos mais necessitados; os outros deviam trazer o farnel de casa. (Pessoalmente e depois da minha mãe ter falado em particular com uma empregada da cantina sua conhecida (D. Felisbertinha), também lá comia a sopa, levando de casa apenas o pão-broa).
Não sei qual a qualidade do queijo que era fornecido, sei que tinha uma cor assalmonada e um paladar muito bom que ainda hoje, quando tropeço nesse sabor, a memória traz ao de cima de imediato aqueles tempos. O trigo era igualmente bom.
Distribuíam também o óleo de fígado de bacalhau, que nunca tomei mas, dizia quem o tomava (a isso era obrigado), que era ingerível, tão desagradável era sua textura e sabor. Acredito.
Morava na zona um benfeitor já de certa idade (numa casa que é hoje de um familiar, o meu primo Gabriel), conhecido por Sr. Capitão Saavedra, por todos admirado e respeitado, pois pagava do seu próprio bolso parte desta alimentação.
Reconhecidos e agradecidos, todos os alunos e demais população estiveram presentes no seu funeral. 
A título não sei bem de quê mas admito que inserido na propaganda colonial salazarista, chegou lá um exibidor de filmes ambulante.
A rapaziada da escola foi toda 'convidada' a assistir à sua projeção na sala de teatro local. Fui, claro, sem saber de todo o que se iria passar.
O que seria um 'filme'!?
Era a primeira vez que tal acontecia na minha ainda curta vida!

Lembro aqui que a televisão chegou a Portugal em 1957 e que a população em geral, por razões financeiras, só teve acesso a ela bastante mais tarde.

Já sentado na cadeira olhava para todos os lados tentando absorver a sucessão dos acontecimentos e também antecipar quanto possível do que seria um 'filme'.
Luzes apagadas, silêncio na plateia e olhos fixos na tela, aguardava curioso e algo ansioso.

Ao ouvir lá atrás o ruído de arranque da máquina projetor, todos se viraram para lá, como que fazendo a onda, de onde viram sair um raio cónico de intensa luz em direção ao palco. Ninguém estava disposto a perder também essas pitadas de novidade.

Fazendo uma onda contrária, todas as cabeças retornaram para a tela onde apareceram pessoas a mexer, a dançar e, pasme-se, pretas! Não, não estou a falar do cinema a preto e branco! Refiro-me às pessoas mesmo: eram pretas! Como era possível existirem e estar a ver pessoas de pele preta e a dançar suas danças tão diferentes do nosso folclore e a tocar instrumentos tão estranhos!? E quase nuas!, apenas uma tanga de palha lhes cobria as partes. Era demais para uma primeira vez. A rapaziada nem sabia bem como reagir ou o que pensar. Atónitos e incrédulos uns riam, outros sorriam, outros explodiam, não sei se de contentamento (vamos admitir que sim). A algazarra instalou-se.
Foi um acontecimento e peras!, para mais tarde recordar.
Foi também neste mesmo salão que vi pela primeira vez a Arte de Talma.
Dinamizado pelo ativo pároco da freguesia de Veade, padre Joaquim, foi levado à cena um teatro concebido e executado por ele e pelos escuteiros.
Um teatro!
Que bonito que foi!
Depois das luzes da sala apagadas e as pessoas isoladas no escuro entregues cada qual a si própria, as de boca de cena iluminaram o palco. As pancadas de Moliere impuseram o silêncio e os atores e atrizes (pessoas locais) começaram a aparecer aureolados pelos holofotes. Os atores começaram a debitar os divertidos textos e a assistência começou a aderir entusiasticamente.
Era a primeira vez que entrava nesta magia.
Até então conhecia apenas a das histórias que o meu pai contava à lareira nas longas e frias noites de inverno. Mas esta era diferente porque vinha de fora; era um teatro a ‘sério’, numa sala de espetáculos autêntica. Teve grande impacto em mim.
O teatro fazia um mix com o musical, e não mais esqueci a canção napolitana que lá foi cantada: 'Torna a Surriento' (com letra adaptada) e a sua interprete, a Dorzinha do maçorra. Quando mais tarde a ouvia saída dos pulmões colossais de Pavaroti, a minha memória linkava até àquela época e a cena repetia-se nostalgicamente.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Dentro do Segredo", de José Luís Peixoto

“Uma Viagem na Coreia do Norte”

Comecemos pela forma:
Linguagem rugosa, com arestas, literáriamente menos cuidada, escrita como que aos soluços, ao correr da pena, como quem fala.
É o seu estilo. Embora prefira outros, é mais um, o seu: nada contra.

E agora o conteúdo:
Todavia bem capaz de transmitir o que pretende, e acrescento, com um realismo iluminado, tocante e incómodo.
Retrato do país bem pormenorizado e conseguido em que se fica com a ideia bem clara da teia dos 'esquemas' instalados, todos laboratorialmente preparados e cirurgicamente implementados, visando o controlo total e absoluto de todo e qualquer movimento das populações, por muito irrelevante que possa parecer. Antecipam os seus comportamentos enclausurando-as em túneis pré-preparados.
Os requintes de malvadez com que preparam os cenários anti-americanos, anti-exterior, anti-ocidental, atingem o inimaginável: vale tudo!
A arte da dissimulação é levada ao extremo: tudo é falso.
Vivem 'orgulhosamente sós' (expressão de má memória para os portugueses), penosa e pobremente sós, dramaticamente sós, desconhecendo os direitos humanos consagrados e os efeitos benéficos das tecnologias - velhas e novas - que tornam a vida das pessoas mais fáceis e agradáveis.

Em cada palavra, em cada frase, JLP perpassa desprezo, sarcasmo e repulsa por tudo o que vê, exceção apenas para quando observa o comportamento inocente das crianças, sensível a elas por se lembrar dos próprios filhos e exceção também para a vida triste das pessoas comuns, de posturas apáticas, melancólicas; como zombies.

Admito que para aqueles cidadãos, vivendo desde há muitas gerações em dependências tuteladas - outrora por colonizadores e agora pelo regime -, completamente isolados do exterior -, não lhes seja possível ambicionar e consequentemente lutar por um outro regime alternativo, porque desconhecido.
Se visto com olhos ocidentais, de pessoas livres, torna-se irrespirável e execrável a sua existência e a sua continuidade.
É com profunda tristeza que se olha para o modus vivendi destas pessoas e revolta visceral para com os seus dirigentes.

Depois de uma visita recente a Cuba onde o regime é similar a este, diferente apenas por, no mínimo, lá chegarem outras influências principalmente através do turismo, deixei então aqui mesmo neste blog as minhas impressões pessoais. Aí ficou claro o meu desprezo e repulsa por estes regimes e pena das pessoas que no caso, sabendo, não foram ainda capazes de o mudar, embora lutando.
Não é justo nem aceitável o que por aí acontece. Para o proveito de uns tantos, muitos outros, a maioria, sofre!
Ainda bem que pelo menos o clima é quente mitigando de alguma forma o dia-a-dia das pessoas.

Há 24 anos atrás tive a oportunidade de visitar dois países do leste europeu, os agora República Checa e a Eslováquia. Ressalvando o facto de então estarem já muito próximos do fim da era comunista - 1989 - o certo é que o que então aí observei estava muito próximo também do que neste livro é descrito. A diferença estava no facto de existir turismo e o contato com as gentes do ocidente lhes ter mostrado a existência de alternativas, influência que os Norte-Coreanos ainda não sentiram. Até um dia...
Poucos meses depois cairia o muro de Berlim e a ditadura comunista.

Não sei se Thomas Cook quando em meado século XIX iniciou o turismo em grupo, turismo de massas, a que chamarei 'migrações temporárias', sabia do impacto que tais migrações iriam provocar nas sociedades até então comodamente instaladas.
Esta técnica do Cavalo da Troia replicada no século XIX resultou em pleno. Teve o grande mérito de acordar as sociedades e obrigá-las a sair das suas trincheiras enferrujadas, onde dormitavam há séculos. A partir daí, muitas vezes excessivamente lentas, começaram a mudar. Ainda hoje.
Viajar é a oportunidade de sair do casulo e refrescar a mente com novos ares, influenciando o visitante e o visitado.

O fim da URSS e logo a seguir o fecho da torneira financeira chinesa, significou o fim dos seus únicos financiadores. Isso traduziu-se em miséria e fome, muita fome, para aquele povo. Calcula-se que tenham morrido de fome 3.000.000 de pessoas.

Estamos nós também portugueses e não só a viver um mau período da nossa história; mas quando tudo falha ainda ficam as organizações internacionais a que pertencemos que, mesmo a preços altos, nos vão dando ajuda.

Estou certo de que, se o pedissem, o FMI nomeadamente, também lhes emprestaria dinheiro, embora caro. Só que não o pedirão, pois uma das condições seria a redução drástica da entourage que suporta aquela pirâmide do poder, ou seja Forças Armadas e Militarizadas, que levam a grande fatia das verbas disponíveis. E isso significaria o fim do regime.

Estes regimes configuram crimes internacionais, transfronteiriços, de lesa pátria e, mais que isso, de lesa cidadãos que deveriam ser abolidos por organizações tipo ONU, TPI ou outros.

Embora não tendo sido apanhado de surpresa por esta incómoda narrativa, confesso que os pormenores me exasperaram muito. A democracia não é perfeita, longe disso, mas as ditaduras são incomensuravelmente piores. Dizia alguém: "a democracia é o pior dos regimes, depois de todos os outros". Em democracia as pessoas para além de livres, participam - cada um à sua maneira - na condução dos destinos do país, sentindo-o como seu.

JLP saiu de lá submerso no pesadelo acabado de viver e com a sua alma de poeta gravemente arranhada. Voou logo que pôde rumo à Liberdade de Nova Iorque, levando consigo todos os seus, tentando assim lavar a própria alma destroçada e servir à família em bandeja dourada o ar puro de um país livre.
Induz no leitor esses sentimentos e a decisão clara de jamais visitar a Coreia do Norte.

terça-feira, 9 de julho de 2013

"Dentro do Segredo", de José Luís Peixoto

Uma Viagem na Coreia do Norte
"Após o bombardeamento de Hiroxima e de Nagasáqui, o Japão rendeu-se aos aliados em Agosto de 1945 e, nesse mesmo momento, terminou o seu domínio sobre a Correia. No mês seguinte, as tropas americanas chegaram ao sul da península. O exército soviético, acompanhado por grupos comunistas coreanos, estava já em algumas áreas do norte. Numa reunião de emergência, com vista a determinar estejas de influência, o coronel americano Dean Rusk porpôs ao general soviético Chischakov a criação de uma fronteira no paralelo 38. Essa passou a ser a linha de divisão entre a Coreia do Sul e do Norte"

"Actualmente, a Coreia do Norte é o país mais militarizado do mundo. Com vinte e quatro milhões de habitantes, tem o quarto maior exército do mundo, com mais de um milhão e cem mil soldados armados, cerca de vinte por cento de todos os homens entre os dezassete e os cinquenta e quarto anos do país. Em caso de necessidade, conta com uma reserva operacional de quase oito milhões de homens. O serviço militar é obrigatório para todas as pessoas que estejam aptas fisicamente e dura um período máximo de dez anos"

"Ainda no final dos anos oitenta, a União Soviética exigiu a devolução de empréstimos que o Coreia não tinha possibilidades de pagar. Em 1991, com o fim da União Soviética, a ajuda terminou abruptamente e a agricultura norte-coreana não foi capaz de produzir os alimentos necessários para o país. Durante algum tempo dependeram da China, que, em 1993, garantia 68% da alimentação e 77% de todos os combustíveis consumidos na Coreia do Norte. Logo depois, ainda nesse ano, quando a China teve dificuldades, a ajuda foi cortada de modo radical"

"... as (cheias) de 1995 destruíram toda a produção agrícola e 85% da produção hidroeléctrica do país"

"... o número de mortos ligados à grande fome oscila entre os duzentos e quarenta mil (dados Norte-Coreanos) e os três milhões e quinhentos mil (dados internacionais)"

“Entrei em algumas salas, que tinham sempre as fotografias dos líderes. Entrei também no laboratório, onde não faltavam as cobras em frascos e os animais embalsamados, entre os quais um tigre com ar ameaçador mas com a cabeça achatada, deficiente.Também estive na sala da disciplina da História das Actividades Revolucionárias de Kim Jong-il: as paredes cobertas pela sua cronologia. A sala da disciplina de História das Actividades Revolucionárias de Kim Jong-il era parecida. Estava em silêncio, a fazer mentalmente essa constatação, quando uma rajada súbita de vento abriu a janela com toda a força. De repente, o caos. Para além do barulho, as cortinas estenderam-se a dar corpo ao vento e explodiram papéis no ar, eram as folhas de pequenos dossiês que estavam a meio das secretárias, partilhadas durante anos pelos alunos que ali se sentavam.A professora preocupada, a fechar a janela e, depois, a recolher todos os papéis do chão”

O inconformismo, o desconforto e a ambição de liberdade para aquelas gentes provoca em JLP alucinações como as descritas neste parágrafo e aviva nele o lado poético.

sábado, 15 de junho de 2013

'O Amor nos Tempos de Cólera', de Gabriel García Márquez

É este o primeiro contato com GGM enquanto leitor. E era inevitável. Apenas razões de oportunidade explicam o atraso. Acompanho de há muito e com interesse seu percurso literário, mormente a partir do Prémio Nobel que lhe foi atribuído. Conheço razoavelmente bem o alcance e notoriedade dos seus livros a nível mundial e tenho por ele, à partida, um enorme respeito intelectual comparável aos melhores. Parto pois rumo ao desconhecido mas entusiasmado. Conto com um timoneiro experimentado e capaz de me aportar a ideias novas, nobres e humanamente ricas.
Viajemos então.

O que a seguir direi é no mínimo polémico, talvez até nem verdadeiro e careceria de maior investigação mas, apesar disso, ocorre-me dizer que os escritores da América Latina ou de países congéneres estarão tão envolvidos na realidade da vida social dos seus concidadãos que não têm tempo para a ficção pura ou abstrata, antes colocam o seu talento (as suas melhores armas) ao serviço da tentativa da melhoria da qualidade de vida dos seus irmãos de infortúnio.
Stieg Larsson (sueco) ou Haruki Maruki (japonês) estão mais livres e soltos para poderem voar sem rede.

Temerário é um bom termo para caraterizar aquele que ousa não direi criticar mas apenas comentar este livro de GGM.
E hoje vou sê-lo.
À medida que vamos assimilando o espírito da proposta e vamos percecionando a dimensão, a grandeza e a profundidade dos temas em apreço - o Amor e a Velhice (e ambos em simultâneo) -, vamo-nos apercebendo que o livro está recheado de pensamentos pioneiros e lapidares, temas sulcados e confirmados no tempo, e que resistirão à vida do homem por muitos séculos ainda, incutindo no leitor grande admiração para quem é capaz de as produzir.

Estamos em presença de alguém que nos propõe um Tratado sobre o Amor, seguramente e um Ensaio sobre a Velhice.

Ficção a ler de um só fôlego como parece ter acontecido com a sua criação, tão densa, intensa e síncrona é a sua sequência narrativa.

GGM vai revestindo o cabide desta história, step by step, com roupagens novas, umas garridas outras nem tanto, mas resultando no final um manequim admirável.

Como um equilibrista de circo, GGM inicia esta viagem sozinho, apenas apoiado na sua inteligência e convicções. Sabe quando a começa, porquê, e sabe muito bem onde vai chegar. Demora mais de meio século (à volta de 65 anos), abrangendo o último quartel do século XIX e o primeiro do XX para a realizar e pelo caminho vai-nos relatando não só a vida daquela região do Globo na sua fase pós-colonial - América Central e Sul - como ficcionando aquilo que pode ser a vida do ser humano através dos dois personagens centrais: Florentino Ariza e Fermina Daza.

Faz a viagem direta, como se caminhasse numa autoestrada, sem necessidade de incursões laterais complementares.

Forma de escrita tradicional, nada original, mas nem por isso menos objetiva ou contagiante. Chega ao leitor com toda a simplicidade mas com autoridade e mestria como que falando com ele, face to face. É um diálogo a dois. E mais que isso: põe-no a pensar; dá-lhe tempo e espaço para que se interrogue sobre o que está sendo dito. Escreve para ele, para o leitor e para o mundo. É impossível ficar indiferente aos temas tratados, tão profundos são. E também porque, num ou n'outro grau, a todos atinge.

Não resistirei ao 100 Anos de Solidão.

P.S.
A pedofilia presente na narrativa é apresentada com tanta naturalidade, simplicidade, ingenuidade, candura e de tal forma destituída de malícia, que a torna quase invisível aos crivos da crítica, resultando na sua promoção.
Um bom escritor é também isso: arte de bem embrulhar.
O comité do Nobel ao atribuir-lhe o prémio está, não direi a validar, mas a contribuir enormemente para a sua divulgação pelo mundo. 

'O Amor nos Tempos de Cólera', de Gabriel García Márquez

"Desde que ouviu falar pela primeira vez a história do tesouro na casa de passe, Florentino Ariza informara-se de tudo quanto lhe foi possível sobre os hábitos dos galeões. Soube que o San José não estava sozinho nos fundos de coral. Com efeito era nau capitânia da Frota de Terra Firme, e chegou aqui depois da Maio de 1708, procedente da lendária feira de Portobello, no Panamá, onde carregara parte da sua fortuna: trezentos baús com prata do Peru e Vera Cruz e cento e dez baús de pérolas, reunidas e contadas na ilha de Contador. Durante o longo mês que aqui permaneceu, cujos dias e noites foram de festas populares, carregaram o resto do tesouro destinado a tirar da pobreza o reino de Espanha: cento e dezasseis baús de esmeraldas de Muzo e Somondoco, e trinta milhões de moedas de ouro".

segunda-feira, 27 de maio de 2013

'A CASA DOS ESPÍRITOS', de Isabel Allende

Ao ler as primeiras páginas deste livro a expressão que mais me ocorria era ‘lamechas’ ou romance ligeiro ou de cordel e, por causa dessa primeira impressão, quase desistia de o continuar a ler. Contudo e como é meu hábito, dei-lhe o benefício da dúvida até às páginas 100/120. Lá chegado dei-me conta então de que, à medida que a estrutura dos personagens e circunstâncias se iam definindo e consolidando, nomeadamente as de Esteban Trueba; o silêncio opcional de 9 anos e depois intermitentes de sua mulher Clara; os ambientes da vida dos trabalhadores da Quinta de Las Três Marias (sem quaisquer direitos) e finalmente o aparecimento de personagens revolucionárias, começou a despertar em mim outras leituras e comecei a ver o livro noutra dimensão: o que foi a vida dos países da américa latina na era pós-colonial e a tentativa de alguns – como o Chile de Salvador Allende, por exemplo – de reverter e suavizar a situação de pobreza extrema e inumana em que viviam seus povos.

Num exemplo mais conhecido e relativamente mais recente foi exatamente o que se passou, em particular em Angola: o poder exercido exclusivamente pelos antigos colonos passou, depois da independência, para as mãos de outros (poucos) senhores, agora locais, e por isso já não podem ser chamados de colonos; mas o povo continuou por longos anos ainda mais na miséria do que antes. Veremos o que o futuro lhes reserva!
O topo da antiga pirâmide do poder colonial foi decepado e belicamente substituído mas o leite e o mel continuou a não jorrar para jusante, para o povo. Os canais de irrigação descendentes continuaram bloqueados.

Põe-se aqui e pôr-se-á sempre o velho dilema, não político mas humano: em qual das situações o ‘povo’ viveria melhor: com os colonialistas ou com a independência? O futuro, mais uma vez deu e dará múltiplas respostas.

Recorda-se também aqui, por trágico, o que aconteceu e continua a acontecer no atual Zimbabwe, antiga Rodésia (Inglesa) de Iam Smith, tornado oficialmente independente em 1980. Até então, sob comando Inglês, o país chegou a ser considerado o grande celeiro africano. Robert Mugabe, governando-o desde 1981, levou o país ao caos económico e as pessoas à miséria. Com a sua popular reforma agrária distribuiu as fazendas altamente produtivas dos antigos colonos pelos locais, quebrando e destruindo com isso a cadeia produtiva e comercial do setor chave do país. O país sobrevive, ninguém sabe bem como, com uma inflação de 98%/dia e sem dinheiro!
(PIB anual: 7.000.000 USD para 12.000.000 pessoas / Portugal 230.000.000 USD para 10.000.000).

Este livro é uma tentativa literária de reexpor, reapreciar, questionar e trazer para a luz dos nossos dias, o que foi a história, (muitas vezes triste história) dos povos de toda a América Latina, e não só, nos anos pós coloniais, desde o Brasil dos Coronéis à Argentina Peronista, da Venezuela de Chaves à Colômbia dos cartéis da droga.
Deliberadamente a autora omite a identificação de qualquer desses países sul-americanos – embora todos saibamos qual o seu -, querendo com isso enquadrá-los e incluí-los a todos no mesmo cenário.

Neste romance por um lado em Esteban Trueba, com a sua truculência, seu autoritarismo, sua tenacidade e sua prepotência ilimitados temos a personificação bastante bem doseada da maneira como os Senhores plenipotenciários exerciam o seu poder discricionário (de longe o personagem mais rico, mais denso e mais emblemático do romance); por outro lado na família Garcia, em Primeiro, Segundo e Tercero, acompanhamos a evolução tímida da consciencialização cívica e política daqueles povos: da resignação tradicional e total do Avô Garcia, o mais antigo, passando pelo semi-resignado mas já mais consciencializado Segundo Garcia, até ao já revolucionário militante Tercero Garcia.
No prolongado ou entrecortado silêncio de Clara pode ler-se o silêncio dos pobres oprimidos e esquecidos, apenas chamados para os trabalhos dos senhores, sem quaisquer direitos ou vida própria.
Mesmo o todo-poderoso e inatacável Esteban Trueba haveria de sucumbir ao último dos regimes, o militar de Augusto Pinochet, ao relegar para segundo plano todos os não castristas.

Intercalo aqui um parêntesis para, no seguimento deste contexto, acrescentar um testemunho pessoal e presencial, tentando tipificar – agora já com mais isenção - o comportamento dos colonos (aviso: não tomar o todo pela parte…).
Estava eu em Angola na tropa (1972/1974), Sacassange, Luso, distrito de Moxico, e coube-me em missão, enquanto militar, dar proteção a uma frente de obra que a nossa Engenharia desenvolvia no Caminho-de-Ferro, sensivelmente a 30 Km do Luso, agora Luena. Embora destacados e acampados bem dentro da mata, de vez em quando ia à aldeia, de nome Chicala, para tomar café e conhecer os modus vivendi, usos e costumes daqueles habitantes. Afinal fazia parte das minhas funções a aproximação aos locais: ação ‘psique’, como era designada entre nós.
Havia a rua central – em terra batida – e de lá perpendicularizavam outras mais pequenas, onde se alinhavam as casas típicas das pessoas aí residentes.
Existia um café, um restaurante, uma mercearia, uma loja de roupas e calçado, e uma serração de onde saía o travejamento para os CF.
Ocorre que o dono de tudo isto era a mesma pessoa, o mesmo colono (português). Cedo me apercebi do esquema estabelecido e complacentemente permitido pelas autoridades: montar o cerco e o circo de forma que todo o dinheiro gerado na área através dos múltiplos negócios instalados lhe viesse ter às mãos!
O seu grande objetivo (o seu negócio core, como agora se diz) era o de garantir que a serração funcionasse em pleno e com isso a venda das traves já prontas para o CF e receber a ‘justa’ paga, a tempo e horas, do ‘estado’.
A maioria dos trabalhadores, quase todos, eram moradores nessa aldeia, tendo aí montadas suas vidas e onde viviam suas famílias.
Os CF, por questões de facilidades operacionais e logísticas, recrutavam aí mesmo nessa aldeia a maior parte dos trabalhadores, pagando-lhes o salário acordado.
O colono também aí recrutava e pagava aos trabalhadores para o trabalho da serração (c/ o dinheiro recebido dos CF).
Com os dinheiros oriundos dos CF e da Serração, os trabalhadores compravam os produtos de primeira necessidade justamente e só nos estabelecimentos do colono: mina de ouro para o colono que ficava com todo o dinheiro gerado. A isto se chama em letras gordas ‘colonialismo’.

A caraterização do personagem, do boneco Jean de Satigny, uma figura carismática, um cromo, está superiormente conseguido. A partir do momento em que já casado com Blanca e ‘chulando’ o sogro com uma ‘choruda’ mesada – vivendo só dela – consegue criar e explorar o seu próprio estilo de vida exuberante e supérflua; como um nababo.
Destituído de quaisquer normais princípios de vida, vivendo à custa doutrem - sogro e credores - nada o travou até atingir patamares de uma vida faustosa e opípara. Valia tudo desde que conseguisse alcançar os objetivos que almejava.
Cedo se percebeu aliás de que tipo de personagem se tratava; aí a autora semeou pistas em abundância.
A entrada em cena deste personagem não enriquece especialmente a história mas dá-lhe colorido.

Não se trata de um puro, simples ou inócuo romance, mas bem pelo contrário é recheado de quadros densamente carregados de carga político-social, obviamente influenciado pela ligação familiar e próxima que a autora tinha com Salvador Allende, que presidiu ao Chile socialista nos idos anos de 1970/1973. E admitimos que terá aceitado alguma influência e sensibilidade para este tema das desigualdades sociais que de resto tão bem descreve neste livro. Explica também a turbulência política, de séculos, vivida naquela região do globo.

A importância que é dada ao espiritismo através de Clara - questão que admito mas de que lhe desconheço os contornos ou amplitude – parece-me algo exagerado; ou talvez não se tivermos presente que o Candomblé (Orixás, Voduns ou Nkisis) ainda hoje influencia o comportamento religioso de muita gente em particular Africanos e Sul-Americanos.

Mais uma nota pessoal:
Quando andei por terras de África vivi bastante tempo junto dos nativos; no meio deles. Dava-me muito bem com eles aliás. Frequentava suas aldeias com todo o à-vontade e isso veio a facilitar aberturas bilaterais para que me pudesse aperceber também deste lado das suas vidas: do lado religioso ou transcendental. A presença do cristianismo era escassa e precariamente articulada e nada consistente o que deixava margem para a manutenção dos seus usos e costumes, incluindo o da aceitação generalizada da bruxaria como parte integrante, funcional e válida de suas vidas coletivas.
Um dia – 1973 - , enquanto militar graduado, fui chamado para instruir um processo judicial de um assassinato de uma ‘bruxa’: a aldeia tinha-se juntado e morto a dita bruxa por a sua bruxaria não se ter cumprido. No decorrer da instauração do processo de que fui encarregado (eu que tinha 20 anos de idade…) vi-me confrontado com um sério (para mim) dilema? Como encarar a questão? À luz dos conceitos ocidentais ou africanas? Sei e disso me lembro que o foi, inevitavelmente, à luz das leis ocidentais mas ainda hoje me pergunto se bem. Claro que oficialmente assim tinha de ser. Os colonos, como cruzadas da idade média, deviam difundir suas leis e religião; e eu era para todos os efeitos um representante – armado – desses colonos, desses cruzados. A questão era meramente de consciência, só minha. O meu problema de fundo era: quem dera o direito aos ocidentais de se imiscuírem nos modus videndi ou nas leis, usos e costumes daqueles povos? Porque não deixá-los viver com as suas leis? Hoje já tenho a resposta, mas isso ficará para outra altura.

Conclusão: romance interessante, com uma sequência cronológica bem delineada e conseguida e com grande domínio no uso das palavras certas e adequadas às circunstâncias. Aqui e além está um pouco exagerado mas tolera-se pela mais-valia do total da obra.

Nota:
A evolução da narrativa é em muitas páginas um copy/paste do que se passou em Portugal incluindo e principalmente na parte final, lembrando o que aqui se passou nos períodos a seguir ao 25 ABRL’74.

Com uma linguagem acessível, quase linear, todavia muito rica e capaz na transmissão da ideia, trata os diversos personagens da história (quase diria da crónica), com toda a proximidade e dignidade como de Seres Humanos Verdadeiros. Chega a ser tocante o seu Humanismo. É definitivamente uma humanista e também historiadora não só do seu país, o Chile, como de muitos outros com histórias similares como Portugal e tantos outros.

Afinal a História replica-se em todas as geografias.

Curiosidade: nome das mulheres selecionadas para o romance: Nívea; Rosa; Clara; Blanca e Alba!
Post Scriptum:
Os preconceitos são terríveis e enformam muitas vezes as posturas, os comportamentos e as decisões das pessoas; e eu também fui sua vítima, no caso,  para com Isabel Allende. 
Ao longo dos anos, embora conhecendo bem sua existência e sucessos editorial e comercial, sempre a recusei ler por partir do princípio - agora confesso errado - que tal se devia ao nome familiar que carregava e que dele se aproveitava. 
Aqui me retrato.