terça-feira, 16 de abril de 2013

"Uma Morte Súbita", J.K.Rowling, Nov'2012

Tinha alguma curiosidade, à partida, para a leitura deste livro de J.K.Rowling.
Embora não tendo lido qualquer livro ou visto qualquer filme da série infanto-juvenil Hary Potter, pelo menos por inteiro, acompanhei os seus enormes sucessos tanto a nível nacional como internacional.
Num City-Tour em Manchester a sua residência temporária no Bournville Hotel foi referida e acolhida com entusiasmo por outros portugueses que comigo por aí turistavam.
Ofereci um dos seus livros da série Hary Potter em dia de aniversário, a uma prima minha – Vera – cujos olhos brilharam de alegria ao recebê-lo.
Não tenho opinião pois sobre essa série, apenas lhe conheço os contornos e impactos (alguns) na vertente social. Apesar disso, alimenta-me a curiosidade de ver o seu comportamento literário nesta sua primeira tentativa para adultos.
Como fará a transposição da linguagem infanto-juvenil para adultos; que tipo de escrita praticará; que temas abordará; qual o seu alcance …
Por curiosidade regista-se que JKRowling viveu algum tempo aqui no Porto onde se relacionou com um português e desse relacionamento nasceu um filho (1993).

É outra ainda a minha curiosidade: o fato de ser uma escritora mulher. Conheço algumas, poucas, mas por contraponto com escritores homens - para muitos dos quais consigo ter uma opinião, embora que generalista -, idêntica opinião não tenho ainda sobre escritoras mulheres, por existirem menos em quantidade (ou serem menos publicitadas) e consequentemente tê-las lido menos. E acrescento que se tal acontece não é por razões de machismo ou mera exclusão. É-me completamente indiferente ser escritor homem ou mulher. Do que relevo mesmo é da sua mais-valia enquanto escritor.
Vou lê-lo de seguida.

Já vou para além do meio do livro e estou confuso não sabendo de momento e nesta fase da história se a minha opinião/desilusão se deve a mim mesmo se à qualidade da escritora: escreve, escreve, escreve, e não se vislumbra onde quer chegar. O fio condutor da narrativa é errático, disperso e até confuso. Até agora não segue por nenhuma autoestrada antes recomeça vezes de mais e por estreitos atalhos. Não estou em condições de afirmar que este modus scribere seja caraterística pelo fato de ser escritora mulher. Ocorre-me contudo a ideia generalizada de que as mulheres, diferentemente dos homens, detêm uma capacidade peculiar para expor várias situações em simultâneo. Será o caso? Fico curioso; se assim for, como é que serão as próximas páginas!?

Acrescento porém que a escrita é simples, escorreita, nada complicada e contém – como esperava, confesso – temas, expressões e abordagens que um escritor homem, por norma, não usa. Minuciosa, intrincada mas pouco consistente. São férteis as ideias mas dispersam-se e dispersam o leitor baralhando-o.
Não tem especial scope: fica demasiado amarrada à história (às muitas histórias) e não consegue que o leitor, a partir daí, divague por conta própria. O leitor fica excessivamente confinado às pequenas histórias.
Reconheço-lhe capacidade narrativa, a muito bom nível, mas ao serviço de pouco; de nenhuma história em concreto.

Já acabei o livro e, decorrente do que atrás disse, confirmo a minha deceção. Fez-me lembrar um pintor que pretendendo obter um determinado resultado inunda o quadro de tantas pinceladas e cores que no final resulta algo psicadélico de difícil e duvidosa leitura. É o caso desta narrativa. Partindo de uma ‘morte súbita’ e não explicada, reconstrói comportamentos, usos e costumes, ambições, desilusões, enganos e desenganos de pessoas de uma aldeia. Retrata, enfim, o comportamento em puzzle das gentes que aí vivem mas de forma pouco inovadora e com pouca convicção, abusando do perfil e linguagem brejeiras dos personagens usados. Não fundamenta capazmente as duas mortes finais, escolhendo gratuitamente as duas personagens mais frágeis.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Homenagem Profissional ao meu Pai.

Homenagem Profissional dos Colegas do IIP ao Pai.

Um pouco de história para contextualizar este inesperado, orgulhoso todavia merecido evento dedicado ao nosso Pai (Avô/Bisavô) por todos os seus colegas e professores: estavam representados todos os setores profissionais do Instituto e em bom número!

A família foi também convidada para o almoço de despedida e podemos testemunhar quão querido era por todos, através das múltiplas demonstrações de carinho de que foi alvo. O seu caracter humilde e prontidão no desejo de bem servir a todos, somada à sua esmerada educação, ter-lhe-ão granjeado e justificado estas demonstrações públicas afetuosas. Nós próprios, os familiares, ficamos algo surpreendidos com o que então, encantados, observámos.

Sabemos, pelos anos que se seguiram, que para ele esta inesquecível festa foi não só a cereja no topo do seu bolo profissional mas, talvez mais que isso, ele terá interiorizado esse reconhecimento público como uma medalha de mérito de vida que lhe era outorgada por toda sociedade, como as que são dadas no dia de Camões a tantos outros, quiçá menos meritórias.

Ostentava, sempre com um brilho nos olhos, a lembrança com que então foi presenteado e exibia com orgulho tudo o que o fazia recordar esses tempos, incluindo estas fotografias.

A sua simples atividade de Contínuo terá marcado indelevelmente todo o Staff do Instituto. Foi com inusitado orgulho que nós os familiares nos apercebemos disso.

Se a minha memória não errar muito (alguém que conheça melhor a história que a corrija), o Pai foi trabalhar para o IIP (Instituto Industrial do Porto, de onde saíam os então Engenheiros Técnicos), ali nos anos 1969/70. Tinha então e já 55 Anos de idade e aí permaneceu até aos seus 70 Anos (1985?). Trabalhou aí pois à volta de 15 anos, tempo suficiente para lhe garantir estas simpatias e o direito a uma pequena reforma que de outra forma não teria tido e que lhe foi tão útil até aos seus 95 anos de vida.

Na altura já lá trabalhava o Tio Zé (irmão da mãe) e conseguiu ‘cunhar’ alguém para, em boa hora, levar para lá também o Pai.

Terão sido uns bons anos para ele – talvez dos melhores da sua vida - se comparados com todos os anteriores de enorme entrega à difícil e trabalhosa vida agrícola, ainda na aldeia, Fermil/Celorico de Basto.

Por outro lado tudo fez para continuar a manter num mesmo ninho ou ao alcance da vista toda a sua família para a qual toda a sua vida estava inteiramente focada.

Este Homem caminhou sempre ladeado por uma muleta dourada, que lhe aplanava os caminhos e sem a qual nunca funcionou: a nossa Mãe, uma Grande Mulher.

Um Xi para ambos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Retalho de vida familiar - Vida Campesina

Era eu pequeno, ainda imberbe (… era o rapaz da camisola verde, negra madeixa ao vento, boina maruja ao lado…/Pedro Homem de Melo), com menos de 10 anos, o irmão do meio de 5, e meus pais granjeavam uma lavoura (expressão da época), no lugar da Atães, Fermil, Celorico de Basto. Lavoura, na minha pequena e inocente perspetiva, enorme: campos aqui, ali, acolá e mais além (campo do pitelo, campo do fragão, campo do tapadinho, campo da torre, campo do feijão, campo da fonte, campo do sobreiro, campo da estrada, leira do meio, quintal de cima, quintal de baixo e bitacos (campos pequenos/expressão local), muitos bitacos: campos a mais, pensava eu...

Animais domésticos de todo o tipo e por todo o lado, eram também a nossa companhia do dia-a-dia. Havia para com eles um grande cuidado e proximidade; faziam parte afinal do sustento da família, quer na vertente alimentar quer na comercial.
Havia pois que tratá-los bem.

De entre esses animais, meus pais tinham também para a ajuda do trabalho do campo (não havia ainda tratores) uma parelha de vacas: a Linda e a Amarela. A Linda sucedera a uma outra, a Vermelha, animal temperamental, inacessível; brava mesmo. Quando foi comprada, a Linda era uma peça animal bonita: não era grande mas em contrapartida era nova, viçosa, gorda e cheia de força. Inclusive vinha prenha.

Era eu também uns dos seus ‘guardadores’, alternando com meus outros irmãos, que as levávamos para as pastagens nos montes. Conhecia já bastante bem o comportamento animal nomeadamente quando em manada.
Quando saíamos com elas para as pastagens juntavam-se também os animais dos vizinhos e todos, gado e guardadores, lá íamos. Os guardadores (nós os miúdos) iam mais entusiasmados com a perspetiva das brincadeiras e não tanto para cuidar dos animais, diga-se com toda a verdade. Quantas vezes as perderam!

O meu vizinho, o Sr. Avelino do Pomar, - pai de muitos filhos (12) meus amigos de proximidade, de infância e das brincadeiras: o Quim, o Gervásio, o Manel, a Teresa … - tinha igualmente uma parelha que pastava com as minhas. Uma delas, a Narcisa, era a chefe da manada. Prazenteira mas ostensiva, confiante e distante - comportamento próprio de ‘chefe’ -, seguia atrás das outras com a cauda indolentemente repousando no dorso e de cabeça erguida, sempre perscrutando e varrendo toda a zona, conduzia com mestria todas as outras, que seguiam alinhadas como carneiros à sua frente.

Como eu detestava aquele animal! Porque haveria de ser a Narcisa do meu vizinho a ‘mandar’ na manada, principalmente, também, nas minhas. Convivia mal com isso. Escondia este meu azedume e aspirava um dia a ver a situação alterada a meu favor, diga-se, ver uma das minhas naquele papel de mandona.

Quando a Linda chegou as minhas esperanças aumentaram. A minha sorte poderia virar. Via nela força e personalidade capaz para isso.

Fiquei angustiado mas à espera do confronto entre ambas que sabia que tinha de acontecer. No reino animal sempre foi assim: não pode haver dois galos no mesmo capoeiro.
Logo numa das primeiras vezes que saíram juntas a presença da Linda foi logo notada por todas mas principalmente pela Narcisa que não mais a perdeu de vista.
Obviamente que todos os rapazolas ambicionavam ver o embate (tipo chega de bois de Trás-os-Montes) e acompanhávamos minuciosamente todos os passos e observações entre as duas. Ora de cabeça baixa ora ‘distraidamente’ cheirando o ar, cada uma avaliava constantemente as forças da outra a uma distância ‘aconselhável’.
O estudo mútuo foi evoluindo lentamente até que uns dias depois, a dada altura, lá no meio de um descampado e por iniciativa da Narcisa – como lhe competia aliás, demonstrando assim também perante as demais, que continuava a ter direito ao trono – deu-se o inevitável e tão aguardado confronto. Como num circo a rapaziada posicionou-se o melhor possível para, nervosamente, assistirem à luta decisiva.

A Narcisa investiu forte e a Linda, apanhada um pouco desprevenida, recuou uns passos. Porém, possante como parecia, aguentou firme, refez forças, reposicionou-se, fincou bem as quatro patas no chão e, cabeça contra cabeça… forçou a Narcisa a recuar. Aparentemente derrotada mas não totalmente convencida, passados uns minutos, a Narcisa, já mais refeita e não querendo acreditar na primeira derrota que lhe fora infligida, voltou teimosamente à carga. Novo embate. A Linda, fortalecida pela primeira vitória, não lhe deu hipótese e obrigando-a a recuar uns bons metros humilhou a Narcisa, demonstrando quem afinal era mais forte.
Definitivamente derrotada, a Narcisa dispersou e não mais reivindicou seu anterior estatuto. Tinha sido eleita a nova chefe numa luta leal e com todas as outras a assistir de perto, na plateia.

O meu regozijo foi, como se pode imaginar, incontido e desmedido. Finalmente a minha Linda era a chefe! Meu orgulho aumentou indescritivelmente. Durante uns bons meses, não lembro bem se anos, era a minha Linda a Chefe, a que conduzia o resto da manada, honrada e venerada.

Entretanto a Linda teve a sua cria que ao amamenta-la emagreceu e começou a perder algumas forças. Por outro lado teve que alinhar nos trabalhos normais do campo, emparelhando com a Amarela. Perdeu mais forças ainda.
Embora acompanhando e apreciando a evolução definhante da minha Linda, admitia que o seu reinado não estaria ameaçado.

Puro engano. Não dominava, como julgava, o comportamento animal. Melhor que eu, a Narcisa, acompanhava a evolução da sua rival. Sabia, melhor que eu, que ela estava a enfraquecer e a perder forças. O tempo e o estado de Linda estavam a correr a seu favor e seria uma questão de tempo e oportunidade. A Narcisa tinha perdido uma vitória mas, no seu entender, a guerra não estava definida em definitivo.

E um belo (?) dia, estando a Linda distraidamente a beber no ribeiro habitual, foi sorrateiramente surpreendida pela Narcisa que traiçoeiramente, forte e tempestiva investiu contra ela, levando de vencida. A Linda quase não ofereceu resistência. E a Narcisa recuperou mais uma vez o seu trono.

A minha tristeza foi grande mas não tão grande como grande tinha sido o meu contentamento quando a Linda se tornou e foi Rainha.

‘Mais vale ser-se rainha por um dia que serva toda a vida’, diz o provérbio.

Nota:
Ainda hoje aprecio estas cenas da vida campesina. Recentemente assisti, com gosto, a várias ‘chegas de bois’ em Vila do Conde, inseridas nos festejos locais.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Retalho de vida familiar

Decorriam os anos 50. Era eu um petiz de 4/5 anos que começava lentamente a abrir os olhos, ainda remelados, para este (aquele) mundo. Ia detetando e despertando aos poucos e ao meu jeito, também à sombra dos mais velhos, para as pequenas e grandes coisas da vida.

Pela porta sempre entreaberta pequenas poalhas novas de vida iam passando e recheando o meu pequeno baú.

Com aquela idade, os acontecimentos, as reações e ruídos da natureza, nomeadamente os mais violentas - como as grandes trovoadas -, eram ‘fenómenos’ tenebrosos e incompreensíveis: eram as nuvens que esbarravam umas contra as outras, diziam uns; era Jesus a ralhar, diziam outros.
E os temíveis relâmpagos vindos do nada e que de repente transformavam e recoloriam todo o céu, o que pensar deles?
E o arco-íris, que coisa estranha (e bonita) seria aquilo?
... era a tempestade que se estava a reabastecer, diziam uns tantos!
O que é que se passava lá em cima, afinal?

O certo é que ocorriam e aos meus tenros olhos de inocente criatura, eram muito mais intensos e poderosos; enormes e assustadores.
Só mais tarde é que o tempo os apequenou (?) e relativizou.

Na aldeia os horizontes eram longos e largos, pelo menos para mim, e os sons tonitruantes das grandes tempestades e trovoadas ecoavam infindavelmente pelos montes e vales. A audição, a visibilidade e os impactos destes desmedidos e ocasionais acontecimentos, bem como as sensações que eles provocavam, agitavam e alteravam as rotinas de toda a gente.

As casas, de telhados sem forro nem teto (telhas a descoberto), portas e janelas com aberturas consideráveis (o termo calafetagem não era então conhecido), transmitiam a sensação de que estar dentro ou fora delas, era quase a mesma coisa.

Sentindo os cinco filhos tolhidos por estes desconhecidos e grandes temores e reagindo com os seus impulsos paternais (culturais e históricos), meus pais reuniam-nos em local supostamente mais seguro (?) - dentro de casa - tal como a galinha protege seus pintainhos dos perigos noturnos ou tempestades premoniçadas, debaixo das suas asas inchadas.
… e rezávamos, rezávamos a oração da Santa Bárbara.
Das várias versões conhecidas selecionei esta, que me parece a que mais se aproxima da que então ladainhávamos:


"Santa Bárbara
Se vestiu e se calçou,
Nosso Senhor encontrou
E Lhe perguntou,
Bárbara onde vais?
Senhor eu vou ao Céu,
Abrandar os teus caminhos,
Mandá-los para o monte do rosmaninho,
Onde não haja pão nem vinho,
Nem bafo de menino,
Nem ramo de oliveira,
Nem coisa que santa seja"

Não me perguntem agora se a reza resultava.
O certo é que a tormenta lá acabava por passar, fruto mais da sua evolução natural e não tanto pelas nossas inocentes rezas. A bonança regressava, a petizada sossegava, a vida normalizava e a oração a Santa Bárbara guardada sine die.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

"Deux Bons Vivants’ - "Dois Maduros"

José (n.f.) e Manuel (n.f.) são dois velhos amigos, amigos do bom e bem viver; ‘deux bons vivants’, como se diz. Dois maduros, no feliz jargão popular. A idade, já matizada pelos cabelos brancos, emprestava-lhes a respeitabilidade e honradez que aos seus cargos de Presidentes de Junta de Freguesia convinha. Bem-falantes, companheiros inseparáveis, amigos do seu amigo, despachavam os assuntos da comunidade à mesa do café ou, melhor ainda, do restaurante.

Animados pelo desejo sempre presente de festejar algo, (quão fácil era para eles inventar motivos de festejos!) pegaram no seu belo carro e lá foram em noite chuvosa a uma comezaina de leitão, ali para os lados da Trofa.
O leitão estava crocante, estaladiço, do melhor. Conversa puxa leitão, leitão puxa 'sarmentinho' e, a páginas tantas, já nenhum dos dois sabia se o sarmentinho empurrava o leitão se o leitão exigia o sarmentinho. O certo é que era já noite alta, para além da meia, e a luta entre o leitão e o sarmentinho não dava sinais de abrandar.

Vencidos já, mais pelo acumulado entorpecimento alcoólico e alimentar que aos poucos se foi apoderando de ambos, muito a custo e recorrendo às últimas réstias das poucas forças que ainda julgavam ter, lá se soergueram; e, cambaleando amparados um ao outro, lá chegaram ao carro (ao mesmo que ali os tinha levado!) para retornarem às suas casas, ficassem elas onde ficassem.

Estrada fora, devagarinho como mandam as boas práticas de condução nestas circunstâncias (se beber e comer muito conduza devagar…), lá iam deslizando estrada fora.
A estrada de regresso à Trofa andava em obras e a sinalização e os faróis dos carros de sentido contrário (porque é que naquela noite andavam tantos carros em contramão e com os faróis no máximo!?), aconselhava a cuidados redobrados. Exímio condutor não lhes foi difícil observar esta regra. A condução, convenhamos, não estava fácil nesse dia e, ofuscados pelos enormes faróis dos carros contrários (os tais que andam sempre em contramão!) e em indesejados ziguezagues, a valeta foi o seu inevitável destino e tranquilo paradeiro: como se tivessem aparcado em lugar cómodo, certo e seguro. O que não foi sequer motivo de grande preocupação, antes pelo contrário, dado o seu estado avançado de ‘lucidez’.
E lá ficaram na valeta descontraídos, taramelando conversas sábias e profundas: como melhor cuidar dos seus eleitores! Ou terá sido outro o tema!?

Até que, outro suave milagre ali aconteceu: a caminho da Trofa por lá passou o dono do restaurante, desse mesmo onde tinham estado. Reconhecendo os velhos amigos, parou, analisou o estado ‘crítico’ da situação e ligou para o reboque, dizendo-lhes isso mesmo: que não se preocupassem (?) que o reboque já vinha a caminho.
E lá foi à sua vida.

Animados e confiantes na notícia, lá esperaram pelo reboque que de resto não tardou, e, desatascando-os, resolveu-lhes aquele pequeno incidente de percurso.
Já livres de ‘perigo’, eufóricos com o feliz desfecho deste percalço, resolveram, e bem, comemorar o acontecimento. Havia já algum tempo afinal que nada comemoravam …
Mas como? Como poderiam naquelas circunstâncias festejar o evento? Era a questão, pertinente, aliás.

Ora do que estavam mesmo a precisar era de beber uns canecos e comer qualquer coisita até porque a noite já ia mais alta ainda e já há bastante tempo que suas gargantas sequiosas reclamavam algum aconchego.
Juntando alguma ação aos oportunos e bem-vindos pensamentos lá foram.
Para onde? Para o restaurante mais conhecido e que ainda tinha as cadeiras quentes: o mesmo onde tinham estado antes.
E festejaram.

Satisfeitos finalmente, regressaram então ao carro (ao mesmo!) e à estrada, à mesma estrada e pelo mesmo percurso, que de resto já lhes era familiar. Não lhes foi difícil reconhecer o caminho, recordar as obras, a sinalização e os já bem conhecidos ziguezagues. De forma tão natural tinham memorizado a viagem anterior, que seguiram direitinhos até… à valeta, essa mesma, a mesma onde antes tinham caído!

Lá novamente atascados, pouco surpreendidos e calmamente parados, lá ficaram olhando um para o outro sem qualquer preocupação ou reação.
Foram ficando …

Até que, novo suave milagre se repetiu: o dono do restaurante, tarde da noite, por ironia do bom destino, voltou a passar por lá (ia fechar o restaurante). Vendo-os, parou e admirado perguntou: o reboque ainda não chegou!?

"A Confissão da Leoa", de Mia Couto

“Durante as batalhas, cadáveres foram deixados nos campos, nas estradas. Os leões comeram-nos. Naquele preciso momento, os bichos quebraram o tabu: começaram a olhar as pessoas como presas.”

“Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fizeram-me lembrar os soldados do exército português. Esses portugueses tanto foram imaginados por nós, que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso, fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos.”

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"Portugal Vale a Pena", Oficina do Livro, 2012

Ao ler as diversas crónicas reunidas neste livro (algumas com belíssimos estados de alma e todas exibindo um amor confesso a Portugal) em que o tema é ‘porque vale a pena conhecer Portugal’ (desafio proposto a vários portugueses de diversas origens, e em que os destinatários da mensagem são, essencialmente, potenciais e ainda desconhecedores turistas estrangeiros), aceitei também eu a provocação e inspiração.
Todavia vou deixar que a pena siga solta dando assim mais livre curso ao que me vai na alma. É que o tema é tão rico que prevejo não vir a ser capaz de o conter nos 2.500 caracteres sugeridos.

Imaginei-me na pele de Guia Turístico, profissão que de resto aprecio e, como eles, vou tentar ‘passar este sonho’ que é Portugal.

--- / ---
Tenho por hábito fazer convites para assuntos que, também para mim, valham a pena; e verão que o que agora vos faço é um desses: convido-vos a conhecer Portugal, o meu país.
Um país que, como poucos no mundo, tem uma história longa de quase nove séculos, feita com suores e lágrimas, alegrias e tristezas, excessos e escassez, riquezas e pobrezas. Igual, nestes pontos, a tantos outros, afinal.

Começamos a definir este pequeno retângulo com 89.000 km2, ali em Guimarães, no século XII (1143), dividindo a Península Ibérica em dois, autonomizando-nos dos outros peninsulares e depois de progressivamente termos conquistado e expulso outros povos então aqui residentes; árabes inclusive. No século seguinte (XIII) estava definido o território que é hoje. Mais tarde, século XV, no início do que viria a ser uma empolgante bravata nacional, juntamos-lhe os Arquipélagos da Madeira (2 ihas) e Açores (9 ihas).
Reforçamos a nossa vontade independentista no século XVII (1640), resistindo bravamente a mais uma tentativa da nossa reintegração na Península, expulsando o domínio Filipino. Viríamos a ser novamente e seriamente ameaçados em 1808/1814 com as Invasões Francesas, imperava em França o todo poderoso Napoleão Bonaparte.
E outras houve mas ficarão para outra altura.

Nos finais do século XIV, em resultado de um mau momento nacional e sem outras melhores alternativas, atiramo-nos para o mar desconhecido e cheio de adamastores em caravelas inimagináveis e nelas chegamos aos quatro cantos do mundo. Trouxemos e oferecemos esses mundos ao ocidente e levamos o ocidente para lá.
A globalização tinha começado.
Foi o nosso período áureo.
Com o novo comércio que aí se praticou e com a Ciência Náutica (Escola de Sagres), ficamos ricos e importantes, quiçá os mais importantes no mundo. Fomos também e então os primeiros beneficiados.

O nosso pequeno território cresceu imenso passando a incorporar:
• em África: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe;
• na Ásia: na China, o pequeno enclave, Macau; na Índia, Goa, Damão e Diu;
• e bem lá longe no extremo do mundo, na Oceania, junto à Austrália/Indonésia: Timor;
• na América: Brasil.

Somadas todas estas diferentes geografias - 10,742.000 km2 - chegamos a uma área com 1.000.000 de km2 superior aos EUA, ao Canadá ou à China.
Se somarmos as suas populações chegamos a 300 milhões de pessoas (a quase totalidade a falar a língua portuguesa).

Mantivemos esses territórios sob nossa administração até 1975 [Brasil tinha-se tornado independente em 1822 (instigado por um dissidente, descendente e herdeiro monarca português), e Goa, Damão e Diu em 1961 (era então Pandita Nehru o 1º Ministro da Índia].

Nota pessoal:
O odiável e temível Nehru como então era tido pelos portugueses, em especial pelos diretamente envolvidos. Aproveitamos a fonética do nome para derramarmos as nossas angústias e o nosso fel que ele, Nehru, nos punha a produzir abundantemente comparando-o ao extravagante e tirano Nero romano.
Como impacto e testemunho pessoal refiro que, na altura com 10 anos e vivendo na aldeia - Atães/Fermil Basto, tinha um vizinho, o Manuel do Pomar, que cumpria o serviço militar aí nessa parte da Índia, Goa. A família ao saber da notícia da invasão e ocupação pela Índia, principalmente sua mãe, Srª Teresa, tresloucada, inconformada e temerosa com o destino do filho, de mãos na cabeça e vagueando desnorteada de lado para lado, emitia gritos pungentes e lancinantes em cuidados com a sorte do filho nessa Índia inimaginavelmente distante.
Foi o meu primeiro embate frontal com a situação periclitante dos territórios portugueses do além-mar. Aos meus olhos e perceção de criança, longe vinham ainda os tempos em que eu próprio viria a ser sujeito ativo neste processo, indo também eu para Angola durante dois anos ‘72/74. Tenho bem presente as preocupações e angústias vividas pelos meus pais, irmãos e familiares mais próximos nesses tempos sofridos de tantas incertezas pela vida deste seu ente-querido.
Felizmente a natureza anestesia a juventude contra os excessos de sentimentalismos permitindo que sobrevivam às maiores provações e adversidades e a sociedade 'compensa-os' transformando-os em heróis.
Fim de nota.

Como se pode imaginar a sua manutenção foi astuciosa, considerando que éramos um país pequeno, sem respeitabilidade e sem capacidade reivindicativa nos fóruns geopolíticos e geoestratégicos internacionais. A cobiça internacional, sempre à espreita, foi um desafio e uma afronta permanentes.
Soçobramos em definitivo em 1975 depois da dita cobiça ter feito o seu caminho e ter atingido a plena maturação (Macau seria entregue à China em 1999).
De notar que mesmo assim, fomos o último país colonizador a retirar-se de cena. Todos os outros, incluindo os maiores, já o tinham feito.
Acrescenta-se que Portugal, com exceção entre os anos 1930 e 1951 da era Salazar nunca oficializou o termo Império com o significado que geralmente lhe é atribuido. Utilizou o eufemismo Império Colonial.
Sublinha-se que mantemos com esses países, com todos eles, excelentes relações sempre comumente renovadas. Aliás, é para esses países justamente que a nossa atual emigração se dirige e sabe-se que com bom acolhimento e sucesso, principalmente para Angola, Moçambique e Brasil. O movimento migratório inverso tinha ocorrido nas últimas décadas: Portugal acolhera muitos imigrantes desses países; estimam-se em 500.000.
Estamos reunidos numa plataforma internacional - CPLP - com um estatuto próximo do da Commonwealth, porém com uma exclusão de peso: não contempla o livre comércio. É pena! E não obstante essa falha o comércio flui bastante bem entre todos.
Quem sabe se no futuro o estatuto não será melhorado, a bem de todos.

Nota:
A acrimónia relacional ainda hoje sentida entre portugueses e espanhóis, (...de Espanha nem bom vento nem bom casamento), tem a sua explicação mais profunda na história entre ambos. Na era dos descobrimentos Espanha tentou, mais uma vez, a reunificação peninsular com um objetivo imperialista estratégico bem definido: unificar sob uma única bandeira, a sua, todos os territórios conquistados, portugueses e espanhóis. A dimensão dessa junção - 25,000,000 km2 - conteria proporções tais que tornaria a Península Ibérica num imenso império (apenas ultrapassado pelo Britânico). O que Hitler tentou em 1939, alguém já o tinha tentado bem lá atrás: poder hegemónico mundial.
Fim de nota.

O nosso maior poeta, Camões, traduziu essa epopeia nacional nos Lusíadas e aí sintetizou o gene do povo português onde nos revemos e orgulhamos.
Houve momentos da nossa história menos grandiosos - como o atual - mas sempre conseguimos ultrapassar o ‘mar das tormentas’ e retomar a normalidade.

Com a mixagem que resultou dos diversos cruzamentos com outros povos, começou a correr-nos nas veias sangue multicolor e com temperaturas mais quentes.
Acolhemos e refinamos o que de melhor esses povos tinham e também com isso fomos construindo neste ‘cantinho à beira mar plantado’ a nossa identidade como povo e como nação.

Depois desta necessariamente breve resenha sobre a história deste país e deste povo, acredito que já comecem a gostar de nós, senão a admirar-nos. Estou certo que se renderão em definitivo quando começarem a calcorrear, como eles, os trilhos do seu dia-a-dia, e é para aí que agora vos convoco.

Comecemos então pelos locais histórico-culturais ou naturais que são patrimônio mundial da UNESCO em Portugal. Dos quinze até agora eleitos e espalhados por todo o território - da Ilha do Pico à Zona Vinhateira do Douro - convido-vos a conhecê-los a todos, até porque eu próprio tenho dificuldade em eleger este ou aquele. Porventura irão necessitar doutras oportunidades, mas mantenham-nos na agenda pois valem bem a pena.

Deem uma chance às nossas exóticas e bonitas serranias, não esquecendo a agreste serra da Estrela e aí aproveitem para esquiar; namorem nos recantos da de Sintra sob a sua luxuriante e voluptuosa vegetação e refrescantes sombras estivais; corram atrás do Lince na da Malcata e embrenhem-se na natureza profunda da do Buçaco, respirando o seu ar puro e revigorante; deem um salto à acolhedora serra do Gerês e ao seu Parque Natural...

Deixem que os sonhos aconteçam quando apreciarem os horizontes sem limites e serenos dos nossos planaltos de Trás-os-Montes; encantem-se com o jardim natural e inebriante do verde Minho; valorizem o ser humano no trabalho árduo nas vinhas escarpadas do Douro; esqueçam o bulício frenético das grandes metrópoles na pacatez imensa do nosso Alentejo (além Tejo); bronzeiem-se e passeiem-se nas lindas e inóspitas praias Algarvias de areias imaculadas, aquecidas por um sol radioso e coloridas pela sua luz abundante; percam-se na vertigem do além-mar nas límpidas águas azuis do mediterrâneo...

Não vos poderia ocultar, até porque a sua dimensão o impede, o Mosteiro dos Jerónimos, o nosso maior símbolo da era colonial, a par com a Torre de Belém. Também não vos posso esconder, por idêntica razão, o de Mafra que traduz a loucura e o desejo de imortalidade de um dos nossos Reis; conheçam aí a sua enorme e bem recheada biblioteca, uma das mais belas da Europa. Eternizem o amor ao vosso parceiro(a) seguindo o exemplo arrebatado de Pedro e Inês, no de Alcobaça...

Visitem o Parque das Nações, ali em Lisboa, o expoente mais emblemático da modernidade de Portugal; apreciem o design das nossas modernas pontes, da de Vasco da Gama na Capital à de São João no Porto; ouçam uma sinfonia de Mozart na bonita e bem acusticada sala Suggia na Casa da Música, mas não nos levem aquele diamante que o edifício sugere; levem antes a modernidade, o movimento e o dinamismo do edifício Vodafone…

O elevado número das nossas autoestradas e as boas vias rodoviárias em geral, a par do caminho-de-ferro com o Alfa-Pendular, levar-vos-ão rápida e confortavelmente a qualquer recanto nacional.

As nossas cidades, Lisboa e Porto principalmente, estão no top do turismo mundial mas não fiquem por aí. Vão até Coimbra, dos estudantes; Guimarães, aqui nasceu Portugal, Braga ‘Augusta’, aqui se reza, Figueira da Foz e sua linda praia, Nazaré e o seu ‘sítio', Aveiro e sua ria com os coloridos ‘moliceiros’; Bragança …

Somos um país fortemente recetor de turismo e para isso estamos bem apetrechados. Podem optar por alojamentos em hotéis clássicos (do Vidago Palace ao Bussaco Palace ou Lapa Palace) ou modernos ou pelas isoladas e acolhedoras Pousadas, ambos abundantemente espalhados por todo o país.

Se com o que atrás mencionei não vos convenci o bastante, estou seguro que o conseguirei com esta nova proposta: a nossa gastronomia. Tenho porém uma dificuldade que tem a ver com o que devo selecionar. É que a dieta alimentar portuguesa é tão rica, tão variada, tão abundante, suculenta e gostosa que me sinto obrigado a aumentar enormemente o menu e antevejo já as vossas papilas Pavlovianas a salivarem descontroladamente. Deixar-vos-ei uma meia-dúzia de sugestões e um desafio: descubram vocês mesmo as restantes, todas se conseguirem.

Peixe grelhados - fazemos os melhores do mundo. Confirmadamente. Experimentem todos mas não percam a oportunidade da sardinha na brasa, do bacalhau, da corvina ou robalo de mar. Peçam para beber um vinho verde branco fresquinho, não esqueçam.
Fritos - não serão muitos saudáveis, dizem, mas vezes não são vezes. Experimentem uns choquinhos fritos, uns carapausinhos, uns pastéis de bacalhau ou pataniscas acompanhados com um arrozinho malandro de feijão ou hortaliça. Ah, e reguem com vinho verde tinto ou branco fresquinho.
Assados no forno - degustem o cabritinho, vitela à Lafões e peixes em geral incluindo o bacalhau e o robalo. Reguem bem com uma reserva do Douro ou Alentejo.
Cozidos - não podem regressar sem verem e comerem o nosso enorme cozido à portuguesa (uma montanha de carnes e hortaliças), regado com Douro ou Alentejano. Curiosamente também suporta o verde tinto.
Doçaria - do pudim Abade de Priscos, ao simples pastel de Belém, encontrarão um leque de oferta variada de que não vão conseguir experimentar todas.
Peçam para acompanhar estas sobremesas um Vinho do Porto e terminem a refeição com um cafezinho.
Se preferirem a ‘Nouvelle Cuizine’ ou de Autor, temo-la em abundância. São vários os restaurantes Michellados.

Espero que o pedaço de paraíso que daqui levam vos obrigue a regressar, prometendo que continuaremos a cuidar dele para que melhore ainda mais.

Os sedimentos deste já longo viver coletivo deste singular povo português consolidaram princípios, moralidade, hábitos, usos e costumes e, como resultado, sentimo-nos irmanados numa tolerante e sã convivência que apaziguam o nosso dia-a-dia e que partilhamos com todos vós.

Vale a pena conhecer Portugal.
--- / ---

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Bem-vindo AO PAÍS QUE NÃO CONHECE: PORTUGAL, Nicolau Santos, 2010

Eu conheço um país:
* Que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil);
* Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de doadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas;
* Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins;
* Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais;
Eu conheço um país:
*Que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país:
* Que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo;
* Que também está a construir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).
Eu conheço um país:
* Que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT);
* Que é líder mundial em software de identificação (NDrive);
* Que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da NASA (Critical) e
* Que tem a melhor incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra);
* Que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano e
* Que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos;
* Que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e
* Que revolucionou o conceito do papel higiénico(Renova).
Eu conheço um país:
* Que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas(Via Verde);
* Que revolucionou o sector da distribuição;
* Que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e * Que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).
Eu conheço um país:
* Que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim;
* Que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos;
* Que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto;
* Que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).
Eu conheço um país:
* Que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro);
* Que tem dois prémios Pritzker de arquitectura (Sisa Vieira e Souto Moura).

O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que se prepara para visitar.
Este país é Portugal.
Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia.
Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL
(publicado na revista "Up" da TAP)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Assunto: Almoço fantástico ;-)

Olá Bié / Raquel

Nem sempre o que parece é, e isto porque, se algum mérito tive neste processo foi o de não estorvar e, de alguma forma, o de o apoiar.
A César o que é de César, and the Óscar goes to: i) Raquel e ii) Branca pela ideia, sua arquitetura e execução e pela recolha fotográfica; iii) para a Sara vai o da realização do filme; para a Branca vai também a realização dos filminhos animados. Limitei-me a fornecer-lhes o material no formato digital e em bom estado de uso.

Dito isto sempre te direi que, pelo meu lado, não fiquei emocionalmente imune à ideia e menos imune ia ficando à medida que via que as coisas estavam a andar e sentia que a Família se unia e entusiasmava em torno do projeto. Embora não seja biologicamente da Família Carvalho, o certo é que a assumi desde muito cedo (e sinto que por ela também fui assumido por inteiro). Tenho muito gosto e orgulho na Família Carvalho. Daí que coloque o meu entusiasmo próximo do dos próprios.

De resto continuo a pensar que é nos núcleos familiares - close mas preferencialmente mais alargados - que reside parte da explicação, da razão e do bem-estar das pessoas.
Por isso apoio estes eventos sem reservas e com muito entusiasmo.

Houve de fato uma preocupação central: a de incluir todos por igual independentemente da geografia onde possam pontualmente estar (no filme animado, no filme da família ou nas bonecos finais). Todos são da Família Carvalho.

Também sou da tua opinião: correu bem, muito bem mesmo: sem alaridos, sem excessos, próprio de quem se conhece e gosta.

Futuro? Acho que posso dizer que já há vontades no ar que o assegurarão. A seu tempo as notícias correrão à velocidade da informática ou hertziana.

Desejamos todos que num próximo encontro da Família Carvalho a sua árvore genealógica tenha enfim frutificado e ostente mais um bonito ramo; por isso festejamos alegremente na altura o anúncio do novo rebento.
A este propósito e porque tenho uma sobrinha que está quase nas mesmas condições (grávida de 5 meses), coloquei há dias um post ao casal no Facebook privado dos Magalhães & Companhia com este texto que, por ser uma situação muito idêntica a replico para Vocês, pedindo-vos que lhe façam as necessárias adaptações:

“Os impulsos da natureza são mais fortes que as circunstâncias, o que levou o Ricardo e Anita a presentearem a eles próprios, à Carlota (a Carlota é a mais sortuda!) e a todos nós, com o mais belo, o mais compensador e comprometedor dos tesouros: uma filha.
- Se há fatos da vida que um pai ou uma mãe sempre bem-diz (… e nunca mal-diz), é a existência (e principalmente a coexistência) dos seus filhos -
A sua vida já começou e, amparada pelos seus pais, irmã e por todos nós – com saúde e alegria que todos lhe desejamos – chegará à idade da sua bisavó, que com um sorriso lhe dá também as boas vindas. Parabéns aos Papás, à Carlota e aos Avós”

Vou enviar o teu e-mail - espero que releves - e esta resposta para as acima citadas protagonistas pois avalio o prazer que terão em conhecer tua opinião. Conhecemos já algumas e posso dizer-te que todas têm uma carga emotiva e positiva muito boas.

Mais um ponto e este deveras importante: está proibida a entrada ao Vítor Pereira neste Grupo; já se for o JJ, aí sim todas as portas lhe serão franqueadas e o tapete vermelho estendido. Até porque este ano vamos ser campeões.

Gr abç para ti e bjnhs à Raquel e um renovado Bem-vindo ao Pimpolho(a).

_________________________________________________________

Olá Toni

Obrigado pelos email's enviados e pelo trabalho espectacular dos filmes e das fotos.
Adorei o almoço e o convívio de Sábado, foi deveras fantástico por vos ver a todos.
Esta iniciativa foi muito bonita até pela recordação e pelas memórias, pois sei que o tempo, as vivências e o trabalho afasta as pessoas destes convívios familiares.
Espero que mais se repitam e que de uma próxima os meus pais e irmãos também estejam presentes.
Obrigado pelo brinde, apesar da surpresa que fomos alvo (Eu e a minha companheira Raquel) pois ainda é tudo muito recente ;-) (A minha avó é uma malandra! ;-))

Gostei muito de vos ver embora não tenha tido tempo para conversar, espero no próximo falar mais! (Das estratégias do Jorge Jesus e do Vitor Pereira) :-) :-)

Nota: Para a próxima no que puder ajudar ou até mesmo organizar, cá estarei!

Beijinhos para a Branquinha
Grande Abraço

Com os melhores cumprimentos
Gabriel Maceiras
(Bié) e (Raquel)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Marina, de Carlos Ruiz Zafón

O estilo de escrita é uma forma muito pessoal de expressão que se vai consolidando à medida que se experimenta; resulta tipo impressão digital. Quando se diz que alguém escreve com laivos Queirosiano, por exemplo, apenas se pretende com isso catalogar estilos, sendo que não haverá dois exatamente iguais. Cada pessoa encontra a sua própria forma, o seu estilo de vestir as suas ideias. Os escritores, como os estilistas de moda, expressam-se de forma pessoal. Aliás, mesmo que quisessem copiar alguém não o conseguiriam. O cunho pessoal sobrepor-se-ia a outro qualquer estilo.
O resultado final - neste ou naquele formato - não melhora nem diminui as histórias, apenas são contadas de forma diferente, agradando mais este ou aquele estilo de acordo com cada leitor. Nem se poderá dizer com segurança que o estilo mais simples consuma mais páginas. Sabemos que há palavras que resumem conceitos mais alargados mas não significa que se abundantemente usadas consigam reduzir mais os testos.

Resumo em quatro os estilos com que chegam ao leitor:

. os que escrevem como se caminhassem sobre areia fina:
Escrita de aparência simplista, de leitura fácil, corrida. Até parece que o texto já existia e que o escritor se limitou a copiá-lo para livro, tão simples aparece ao leitor a exposição da narrativa.
A ação obedece a uma sequência lógica, e o leitor passeia-se pelas páginas do livro sem esforço, como se caminhasse descalço sobre arreia fina.
As palavras usadas são simples e de primeira interpretação. Exemplo: Haruki Murakami em 1Q84;

. os que escrevem como se caminhassem sobre areia grossa:
Os testos são trabalhados e remendados até ser encontrada a forma final. Nota-se que muitas páginas foram rasgadas entretanto. O discurso é menos fluido e são usadas palavras com conceitos mais concentrados. As imagens de estilo parecem tiradas de um caderno de ‘não se esqueça’. Exemplo: Carlos Ruiz Zafón, em Marina;

. os que escrevem como se caminhassem sobre pedras:
São usadas palavras com conceitos mais concentrados ainda, obrigando a presença do dicionário ou leitores já ‘formados’. O escritor saltita, recua e entrecorta a ação obrigando a uma atenção redobrada para o acompanhar. Exemplo: José Saramago, em O Memorial do Convento;

. os que escrevem como se caminhassem numa montanha:
Ensaio. Leitura acessível a menos gente, quase só para académicos. O Escritor não fica preso ao formato de romance ou poesia, antes percorre todos os estilos e formatos, incluindo histórias que se cruzam no tempo. Exemplo: Humberto Eco, em O Pêndulo de Foucault;

Quanto a este livro de CRZ, Marina: não fiquei convencido. Por curiosidade fui ver um pouco da sua bibliografia. Tem poucos romances publicados o que pode justificar a necessidade de um maior treino nesta área do romance. Porém, e quanto a este livro, sempre direi que é quase agradável, veiculando uma história algo interessante e razoavelmente bem escrito. A sua leitura obriga a alguma atenção; bonitas figuras de estilo.